)
de galões desse combustível, anualmente. Entre tarifas
protetoras e subsídios reais a cifra por ano seria de quase 100
bilhões de dólares.
Insaciável em sua demanda, o Império tinha
lançado ao mundo a palavra de ordem de produzir biocombustíveis para
liberar aos Estados Unidos da América, o maior consumidor mundial de
energia, de qualquer dependência exterior em matéria de
hidrocarbonetos.
A história demonstra que a mono-cultura canavieira
esteve ligada estreitamente à escravidão dos africanos, arrancados
pela força de suas comunidades naturais e deslocados para Cuba, Haiti
e outras ilhas do Caribe. No Brasil aconteceu exatamente igual
com a cultura da cana-de-açúcar.
Hoje nesse país quase o 80% da cana é cortada
manualmente. Fontes e estudos oferecidos por pesquisadores brasileiros
afirmam que um cortador de cana-de-açúcar, trabalhador por conta
própria, deve produzir não menos de doze toneladas para satisfazer as
necessidades elementares.
Esse trabalhador precisa flexionar suas pernas
36,630 vezes, percorrer pequenas distâncias 800 vezes carregando 15
quilogramas de cana-de-açúcar nos braços e caminhar durante sua faina
8,800 metros. Perde uma média de 8 litros de água por dia.
Só na cana queimada se pode alcançar essa produtividade por homem. É
costume queimar a cana de corte manual ou mecanizado para proteger o
pessoal de mordidas ou picadas prejudiciais, sobretudo para elevar a
produtividade.
Embora exista uma norma estabelecida em um horário
de 08h00 até 17h00 para realizar sua tarefa esse corte por peças não é
menos de 12 horas de trabalho. Às vezes a temperatura atinge os
45 graus centígrados ao meio-dia.
Eu, pessoalmente, já cortei cana-de-açúcar por um
dever moral, do mesmo jeito que outros muitos companheiros dirigentes
do país. Lembro-me do mês de agosto de 1969. Escolhi um lugar
próximo à capital. Deslocava-me bem cedo todas as manhãs para
esse lugar. A cana não queimada era verde, de variedade jovem e
alto rendimento agrícola e industrial. Não parava um minuto
durante quatro horas consecutivas. Alguém se encarregava de
afiar o facão.
Nunca deixei de produzir, no mínimo, 3,4
toneladas por dia. Depois tomava um banho, almoçava, sossegava mente e
repousava em um lugar próximo. Ganhei vários reconhecimentos
pela famosa colheita do ano 70. Tinha recém completado 44
anos. O resto do tempo até a hora de dormir, o dedicava a meus deveres
revolucionários. Parei de fazer aquele esforço pessoal quando me
fiz uma ferida no pé esquerdo. O afiado facão penetrara na bota
protetora. O objetivo nacional era atingir os 10 milhões de
toneladas de açúcar e 4 milhões de toneladas de melaço, aproximadamente,
como subproduto. Nunca foi atingida aquela cifra, apesar de termos nos
aproximado.
A URSS não tinha desaparecido, parecia algo
impossível. O período especial, que nos levou a uma luta
de superveniência e as desigualdades econômicas com seus inerentes
elementos de corrupção, ainda não tinham surgido. O imperialismo
pensou que havia chegado a hora de acabar com a Revolução.
Também é honesto reconhecer que nos anos de bonança aprendemos a
desperdiçar e não foi pouco o grau de idealismo e de sonhos que
acompanharam nosso heróico processo.
Os grandes rendimentos agrícolas dos Estados Unidos
da América se conseguiram mediante a rotação das gramíneas (milho,
trigo, aveia e outros grãos similares) com as leguminosas
(a soja, alfafa, feijões, etc.) Estas dão nitrogênio e matéria
orgânica aos solos. O rendimento do milho nos Estados
Unidos da América no ano 2005, segundo os dados da Organização das
Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), alcançou 9,3
toneladas por hectare.
No Brasil só se produzem três toneladas desse grão
na mesma área de terra. A produção total contabilizada desse
país irmão foi esse ano de trinta e quatro milhões seiscentas mil
toneladas, consumido internamente como alimento. Não pode
fornecer milho ao mercado mundial.
O preço desse grão, alimento principal de numerosos
países da área, quase se duplicou. O que aconteceria quando
centos de milhões de toneladas de milho sejam dedicados à produção de
biocombustível? E não mencionarei as quantidades de trigo, milho,
aveia, cevada, sorgo e outros cereais que os países industrializados
usariam como fonte de combustível para seus motores.
Sem contar que é muito difícil para o Brasil levar
a efeito a rotação do milho com leguminosas. Dos estados brasileiros
que o produzem tradicionalmente, oito deles são responsáveis de
noventa por cento da produção: Paraná, Minas Gerais, São Paulo,
Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do
Sul. Por outro lado, 60 por cento da produção de cana-de-açúcar,
uma gramínea que não pode rotar-se em outras culturas, se realiza em
quatro estados: São Paulo, Paraná, Pernambuco e Alagoas.
Os motores de tratores, máquinas para colheitas e
os meios pesados de transporte para mecanizar a colheita, gastariam
hidrocarbonetos em quantidades crescentes. O acréscimo da
mecanização nada ajudaria para evitar o aquecimento do planeta algo
que está verificado por especialistas que medem a temperatura
anualmente desde há mais de 150 anos.
O Brasil sim produz um excelente alimento
especialmente rico em proteínas, a soja: 50,115 000 toneladas. Consome
quase 23 milhões de toneladas e exporta 27,300 000. Será que uma parte
importante dessa soja vai se transformar em biocombustível?
Em breve os produtores de carne bovina começarão a
se queixar que os terrenos semeados de pastos estão se transformando
em canaviais.
O antigo Ministro da Agricultura do Brasil, Roberto
Rodrigues, importante defensor da atual linha governamental, hoje co-presidente
do Conselho Interamericano do Etanol, criado em 2006 a partir de um
acordo com o estado da Flórida e o Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID) para a promoção do uso do biocombustível
no continente americano, declarou que o programa de mecanização da
colheita da cana não gera mais emprego, pelo contrario pode
produzir um excedente de pessoal não qualificado.
É sabido que os trabalhadores mais pobres
provenientes dos diversos estados são os que vão para o corte da cana
por máxima necessidade. Às vezes são pessoas que têm de se afastar das
suas famílias por meses. Era o que acontecia em Cuba até o triunfo da
Revolução, quando o corte e o carregamento da cana era a mão e apenas
existia a plantação e a transportação mecanizada. Ao desaparecer o
brutal sistema imposto a nossa sociedade, os cortadores alfabetizados
em massa, abandonaram sua peregrinação em poucos anos e foi necessário
substituí-los com centenas de milhares de trabalhadores voluntários.
Aliás, podemos acrescentar a isso, o último
relatório das Nações Unidas sobre a mudança climática, ao afirmar o
que acontecerá na América do Sul com a água dos glaciais e a bacia do
Amazonas na medida em que aumentar a temperatura da atmosfera.
Nada impede que o capital norte-americano e europeu
financie a produção de biocombustíveis, que até poderiam presentear
fundos ao Brasil e à América Latina. Os Estados Unidos, Europa e
outros países industrializados poupariam mais de 140 bilhões de
dólares ao ano, sem se preocuparem das conseqüências climáticas
e da fome que afetariam, em primeiro lugar os países do Terceiro
Mundo. Sempre ficariam com dinheiro para o biocombustível e para
adquirirem a qualquer preço os poucos alimentos disponíveis no mercado
mundial.
O que se impõe de imediato é uma revolução
energética que consiste nem só na substituição de todas as lâmpadas
incandescentes senão também a reciclagem em massa de todos os
eletrodomésticos comerciais, industriais, transporte e de uso social
que com as tecnologias anteriores precisam dois e três vezes
mais energia.
Dói pensar que a cada ano são consumidos 10
bilhões de toneladas de combustível fóssil o que significa que
cada ano se dissipa o que a natureza demorou um milhão de anos em
criar. As indústrias nacionais têm pela frente enormes tarefas, para
com isto aumentar o emprego. Assim poderia ganhar-se um pouco de
tempo.
Outro risco de tipo diferente que corre o Mundo é a
recessão econômica nos Estados Unidos. Nos últimos dias os dólares
quebraram o recorde em perda de valor. A maior parte das reservas em
moedas conversíveis de todos os países está constituída por essa moeda
de papel e os bônus norte-americanos.
Amanhã 1º de Maio é um bom dia para oferecer estas
reflexões aos trabalhadores e a todos os pobres do mundo, junto com o
protesto contra algo também incrível e humilhante: a Libertação de um
monstro do terrorismo, justamente ao completar o 46º aniversário da
Vitória Revolucionária em "Praia Girón" (Baía dos Porcos).
Prisão para o algoz!
Liberdade para os Cinco Heróis!
Fidel Castro Ruz
30 de Abril de 2007