China, Rússia, o
Brics e a
América Latina
Miguel Guaglianone
A distribuição geopolítica do mundo
está mudando cada vez mais rapidamente. A evidente e
progressiva perda de poder das nações centrais (EUA
e a União Europeia) se enfrenta a novos
protagonistas mundiais que buscam e geram conexões e
alianças para consolidar esse protagonismo.
A China está fazendo sentir esse
protagonismo, mais do que com sua discreta atuação
política em nível internacional (característica
tradicional das relações exteriores, chinesas desde
o próprio império celeste) através de seu crescente
crescimento econômico, que a tornou na segunda
potência do planeta, a seguir dos Estados Unidos, o
possuidor do maior volume de Bônus do Tesouro
estadunidense do mundo e concorrente triunfante em
nível industrial e comercial.
O caso da Rússia é diferente, embora
a Federação (a partir de sua singular economia) se
consolidasse como exportador importante. Contudo,
nos últimos tempos — e sob o hábil guia político de
Vladímir Putin — conseguiu gerar uma grande
capacidade para as relações internacionais, e
acrescentou com isso seu poder político. O melhor
exemplo disto, nos últimos tempos, foi sua
intervenção no conflito sírio, com uma proposta
política audaciosa que evitou o ataque aéreo a esse
país por parte da Casa Branca, deixando sem
argumentos o próprio Obama, fazendo mudar
completamente a situação do conflito sírio.
Unidas a estas duas potências, as
nações emergentes Índia, Brasil e a África do Sul,
formam o grupo dos Brics, uma aliança estratégica
que se fortalece a partir de novos acordos e
decisões, e que se converteu num polo de poder capaz
de enfrentar a hegemonia das potências centrais
(sobretudo a dos Estados Unidos).
No caso da América Latina, o
processo de integração iniciado com o século está
"em pleno desenvolvimento", através do
fortalecimento dos organismos multilaterais que
nossas nações têm criado.
O Mercosul, Alba, Unasul e a Celac
são as ferramentas que permitem as ações conjuntas
dos nossos povos, abrindo o caminho para o sonho dos
libertadores da Pátria Grande, e formando, a partir
deste outro, um novo fator de poder no xadrez
mundial.
E é curioso como estes movimentos
contra hegemônicos se aproximam uns dos outros, como
atraídos pelo propósito comum de levar o mundo ao
sistema multipolar de equilíbrios geopolíticos,
tendentes a formar uma rede que lhes permita
potencializar-se mutuamente.
E não são só reflexões teóricas: o
jogo final da Copa do Mundo no Brasil contou com a
presença de pelo menos dez chefes de Estado do mundo
todo. E não por acaso estiveram entre eles Vladímir
Putin e Xi Jinping, presidentes da Rússia e da
China.
Putin, culminando uma turnê sem
precedentes por países latino-americanos, que
incluiu Cuba, Argentina e o Brasil e uma visita não
programada à Nicarágua. No caso de Cuba, a visita
foi seguida à decisão prévia de perdoar 90% da
dívida que este país tinha com a outrora União
Soviética, desde a época da Guerra Fria. E a visita
também incluiu uma entrevista pessoal de Putin com
Fidel Castro, o líder histórico da Revolução cubana.
No caso de Xi Jinping, sua turnê
latino-americana começou concluído o Mundial e
incluía o Brasil, Argentina, Venezuela e Cuba, sendo
esta sua segunda visita ao continente, um ano depois
de ter estado na Costa Rica e no México. Depois,
participou da primeira reunião de chefes de Estado
do quarteto, que coordena neste período o trabalho
da Celac (Costa Rica, Cuba, Equador e Antígua e
Barbuda).
Os dois presidentes participaram da
6ª Cúpula do Brics que se realizou em Fortaleza,
Brasil.
Todos estes vínculos de movimentos
diplomáticos significam:
A importância que a América Latina
tem hoje para a China e para a Rússia (por razões
políticas, econômicas e comerciais),
A cada vez mais consolidada
existência do Brics e suas relações com a América
Latina.
A aproximação simultânea entre os
novos atores do cenário mundial. E tudo isto, ante a
impotência total dos EUA, para quem a América Latina
(apesar das declarações de seu secretário de Estado)
deixou de ser seu quintal, pois nada podem fazer
ante o crescimento do poder dos Brics e a presença
progressiva em nível mundial da Rússia e da China.
Como dissemos no início, estamos
perante grandes mudanças na distribuição do poder no
mundo e possivelmente a partir dessas mudanças seja
possível manter a esperança de que poderemos evitar
a destruição do planeta, para a qual o sistema
imperante nos arrasta a todos.
O reacomodo do poder mundial pode
constituir (sem nenhuma garantia de que assim será)
uma forma de ajudar a deter o suicídio coletivo com
o qual, tanto o sistema econômico como os fatores de
poder que controlam o planeta desde o fim da Segunda
Guerra Mundial, ameaçam a humanidade. (Excertos
extraídos do Barômetro Internacional)