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Novo governo de El Salvador ante o
quebra-cabeça das gangues
Edgardo Ayala e Claudia Marroquin
EM
1º de junho, Salvador Sánchez Cerén, da esquerda,
deve tomar posse da presidência de El Salvador, e
com certeza encontrará rachaduras na trégua entre as
gangues, que o governo anterior permitiu e que por
dois anos manteve controlada a criminalidade.
O
pacto vive seu momento mais crítico desde sua
criação, em março de 2012, com problemas na trégua,
embora não na ruptura, pelo menos por agora.
“Na
medida em que se enfraquece o diálogo, aumenta a
violência, e as novas autoridades deverão tomar a
decisão de que o processo de paz entre as gangues
continue”, disse à IPS um dos dois mediadores
da trégua, Raúl Mijango. O outro foi o bispo
católico Fabio Colindres.
Sánchez Cerén, dirigente e governante da Frente
Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN),
antiga guerrilha, durante a campanha eleitoral que
terminou com sua vitoria, em 9 de março, disse que
enfrentará este fenômeno com o que chamou a “mão
inteligente”; uma mistura de repressão e prevenção.
Até
à chegada de Funes, em 2009, a estratégia contra a
delinquência foi a de mão forte, sob os sucessivos
governos da Aliança Republicana Nacionalista
(Arena), que governou o país desde 1989.
O
novo governo deverá urgentemente reduzir os
homicídios, não só como exigência da população,
senão porque neste ano inicia a campanha eleitoral
para as eleições de prefeitos e deputados de 2015, e
o aumento dos crimes vai contra os candidatos da
FMLN.
Mara Salvatrucha e Barrio 18, as duas principais
gangues do país, pactuaram há dois anos, o cessar
das agressões mútuas e contra civis, policiais e
militares.
Por
seu lado, o governo acedeu a transferir para prisões
menos restritivas os líderes desses dois grupos.
Desde então, os assassinatos diminuíram, de uma
média de 14, para cinco por dia. O Gabinete das
Nações Unidas contra a Droga e o Delito informou, em
maio, que durante o ano 2012 a taxa de homicídios
salvadorenha diminuiu para 41,2 em cada 100 mil
habitantes, diante dos 69,2 em cada 100 mil, do ano
precedente.
Porém, desde fevereiro deste ano, a criminalidade
aumentou e a média diária de assassinatos beira
atualmente os 10.
Mais de 50% dos homicídios de El Salvador são
cometidos por membros das gangues e 35% das vítimas
pertencem também a esses bandos, segundo dados
policiais, em números não verificados por
organizações independentes.
Calcula-se que existem 60 mil membros de gangues
neste país, de 6,2 milhões de habitantes.
O
governo que conclui argumenta que o aumento dos
crimes tem a ver com expurgos entre as duas frações
que compõem Barrio 18, os sulistas e os
revolucionários, em luta pelo controle territorial,
que se resolve à bala nas comunidades do país onde
têm presença.
O
presidente que termina, Mauricio Funes, disse num
programa de rádio que a trégua praticamente estava
interrompida, e seu ministro de Justiça e Segurança,
Ricardo Perdomo, revelou que as gangues agora têm
fuzis e armas de maior poder para enfrentar a
polícia.
Em
6 de abril, por exemplo, no município Quezaltepeque,
no departamento La Libertad, um policial morreu e
mais três foram feridos durante um ataque.
Mas
as grandes gangues salvadorenhas negam que o pacto
tenha morto ou que existam pugnas, como a que indica
Funes e seus colaboradores.
“Apesar dos ataques recebidos, a trégua ainda se
mantém”, segundo um comunicado tornado público, em
29 de abril e assinado por líderes de Mara
Salvatrucha (MS), pelas duas frações de Barrio 18 e
pelas gangues Mao Mao, La Maquina e Miradas Locos
13.
“Vocês acham que se as duas frações estivessem em
guerra, estaríamos agora juntos?”, questionou o
representante dos sulistas.
Contudo, estes porta-vozes reconheceram que a
trégua não é perfeita, que há alguns que não acatam
as diretrizes dos líderes presos ou na rua.
Por
essa razão, não negaram nem confirmaram que membros
destes bandos tenham participado do ataque aos
policiais em Quezaltepeque.
De
fato, também aceitaram que existe um conflito com um
grupo dos revolucionários, no município de
Zacatecoluca, no departamento de La Paz, o que
estaria provocando uma violência pouco usual nessa
zona.
“Mas este conflito, de caráter local, não explica o
aumento de mortos em nível nacional”, afirmaram.
“Nós
mantemos o compromisso com a sociedade”, assinalou o
porta-voz da MS.
Contudo, o sacerdote católico Antonio Rodríguez,
que tem trabalhado na reinserção de membros destes
bandos no município de Mejicanos, bairro no norte de
San Salvador, assinalou que o comunicado lido pelos
três porta-vozes não representa a diretoria nacional
das gangues.
“Os
sulistas estão incômodos com esse pronunciamento
porque não é representativo”, assinalou o sacerdote,
evidenciando as rachaduras do processo.
Rodríguez foi inicialmente um crítico da trégua,
depois a apoiou, junto a Mijango e Colindres, para
posteriormente desligar-se deles.
Agora, este sacerdote da congregação Pasionista
aderiu ao esforço do ministro Perdomo para relançar
o processo de pacificação entre gangues, onde também
participam o bispo auxiliar de San Salvador,
Gregorio Rosa Chávez, e representantes de igrejas
evangélicas e do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, entre outros.
“É
um pacto da sociedade civil, não entre gangues”,
disse Rodríguez.
Na
entrevista coletiva clandestina, os dirigentes das
gangues foram claros: “Fala-se da existência de dois
processos de pacificação, nós somente reconhecemos
um, o iniciado em março de 2012”. (IPS)
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