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Havana. 19 Fevereiro, de 2014

Crônica para uma natureza desconhecida

Lisanka González Suárez

NOS últimos anos, cada vez mais, Cuba vai tendo maior preferência no mercado internacional do turismo.

Prova disso é um leve aumento de visitantes em 2013 — independentemente dos efeitos da crise econômica mundial, um de cujos reflexos foi o cancelamento dos voos para a Ilha, por parte da linha aérea Iberia, com o que o país deixou de receber mais de 74 mil turistas — do bloqueio econômico que os Estados Unidos mantêm, há mais de meio século contra o país, assim como os erros nas ações comerciais e de comunicação, entre outros aspectos, que foram informados à imprensa pelo diretor comercial do Ministério do ramo.

Dada a cada vez maior importância da indústria do lazer para a economia da Ilha, esta se viu instada a buscar mais ofertas, objetivo que atingiu com maior diversificação. Daí que se percebam avanços nalguns segmentos, principalmente no turismo da cidade.

Não se pode obviar, com certeza, certo crescimento no turismo de natureza, para o qual foram organizadas algumas opções. Contudo, os avanços continuam estando muito abaixo das possibilidades do arquipélago pois, segundo especialistas, Cuba dispõe da maior diversidade de espécies do Caribe, devido a sua posição geográfica, configuração alongada e estreita, estrutura geológica e isolamento.

Várias dessas maravilhosas paragens são pouco visitadas, pelo qual apenas 2% dos 58.434 apartamentos da nação são dedicados ao turismo de natureza e 23% ao de cidade, enquanto os 71% restantes ao de sol e praia, que se mantém como a modalidade insigne do país.

O clima de perene verão de Cuba, assim como a qualidade de suas praias, explica que seja essa a modalidade mais procurada, especialmente pelos habitantes de nações com invernos longos e crus, como o Canadá, neste momento principal emissor de visitantes à Ilha, e cujo crescimento aumentou em 10%, superando o milhão de visitantes.

Aparecido desde o fim da década de 1980 o ecoturismo se converteu no segmento de mais rápido crescimento e o setor mais dinâmico do mercado turístico em escala mundial, segundo explicam publicações especializadas. Desde então grupos ecológicos, instituições internacionais e governos viram a modalidade como uma alternativa viável de desenvolvimento sustentável.

Prova disso são países como a Costa Rica, Quênia, Madagascar, Nepal e Equador (Ilhas Galápagos), onde o turismo ecológico produz uma parte significativa da renda de divisas provenientes do setor turístico e, inclusive, nalguns casos, da economia do país.

UM RECURSO DESAPROVEITADO

O turismo de natureza não requer de custosas instalações, exceto as elementares; o que mais valorizam os que apostam nessa opção é conviver em relacionamento direto com ela, descansar em tendas ou em redes e contemplar a noite e o amanhecer; molhar-se sob os às vezes espontâneos aguaceiros tropicais; banhar-se numa queda d'água ou num rio e tresandar as florestas para viver a aventura da descoberta.

Somos ainda jovens nessa linha de trabalho e não poderíamos comparar-nos com nações do Caribe que foram pioneiras no ecoturismo, em nível mundial, o que ganhou o reconhecimento entre os destinos internacionais com verdadeiras opções de turismo ecológico.

Mas Cuba tem muito a oferecer.

Às vezes, retornam a minha mente as impressões que vivi em dezenas de visitas às áreas protegidas da Ilha. Imagens como a apreciada no pantanal Monte Cabaniguán, em Las Tunas, nas margens do golfo de Guacanayabo, a 700 quilômetros a leste da capital, onde uma fêmea de crocodilo americano nadava num esteiro levando os filhotes na cabeça, mostrando-me o que só em teoria conhecia: o crocodilo é o único réptil com um comportamento maternal definido; ou aquele bando de araras esvoaçando livremente no céu do sul da Ilha da Juventude enquanto enchiam o ar com incompreensíveis gírias e eu me perguntava de que estariam falando.

Quanto divaguei acerca da calma delicadeza do flamingo cor-de-rosa, os mistérios do peixe-boi; as elegantes e engraçadas cerimônias dos grous; as cada vez menos abundantes maçaricões (Himantopus mexicanus), guarás brancos (Eudocimus albus), colhereiros (Platalea ajaja), e outras aves em perigo de extinção.

Mas nada pode superar a emoção que experimentei ao escutar o que parecia uma sinfonia maravilhosa, cujo eco provinha da caverna de Los Portales — situada na zona ocidental, e foi onde Che Guevara instalou seu posto de comando, em 1962, durante a chamada Crise dos Mísseis —, onde cantava uma ave de plumas opacas, o rouxinol cubano, que me fez evocar “o Rouxinol e a Rosa”, de Oscar Wilde, pois ele parecia chorar enquanto deixava o coração em seu canto.

Quanta beleza e curiosidade, cuja existência é ignorada!

 

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