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Crônica para uma natureza
desconhecida
Lisanka González Suárez
NOS
últimos anos, cada vez mais, Cuba vai tendo maior
preferência no mercado internacional do turismo.
Prova disso é um leve aumento de visitantes em 2013
— independentemente dos efeitos da crise econômica
mundial, um de cujos reflexos foi o cancelamento dos
voos para a Ilha, por parte da linha aérea Iberia,
com o que o país deixou de receber mais de 74 mil
turistas — do bloqueio econômico que os Estados
Unidos mantêm, há mais de meio século contra o país,
assim como os erros nas ações comerciais e de
comunicação, entre outros aspectos, que foram
informados à imprensa pelo diretor comercial do
Ministério do ramo.
Dada
a cada vez maior importância da indústria do lazer
para a economia da Ilha, esta se viu instada a
buscar mais ofertas, objetivo que atingiu com maior
diversificação. Daí que se percebam avanços nalguns
segmentos, principalmente no turismo da cidade.
Não
se pode obviar, com certeza, certo crescimento no
turismo de natureza, para o qual foram organizadas
algumas opções. Contudo, os avanços continuam
estando muito abaixo das possibilidades do
arquipélago pois, segundo especialistas, Cuba dispõe
da maior diversidade de espécies do Caribe, devido a
sua posição geográfica, configuração alongada e
estreita, estrutura geológica e isolamento.
Várias dessas maravilhosas paragens são pouco
visitadas, pelo qual apenas 2% dos 58.434
apartamentos da nação são dedicados ao turismo de
natureza e 23% ao de cidade, enquanto os 71%
restantes ao de sol e praia, que se mantém como a
modalidade insigne do país.
O
clima de perene verão de Cuba, assim como a
qualidade de suas praias, explica que seja essa a
modalidade mais procurada, especialmente pelos
habitantes de nações com invernos longos e crus,
como o Canadá, neste momento principal emissor de
visitantes à Ilha, e cujo crescimento aumentou em
10%, superando o milhão de visitantes.
Aparecido desde o fim da década de 1980 o ecoturismo
se converteu no segmento de mais rápido crescimento
e o setor mais dinâmico do mercado turístico em
escala mundial, segundo explicam publicações
especializadas. Desde então grupos ecológicos,
instituições internacionais e governos viram a
modalidade como uma alternativa viável de
desenvolvimento sustentável.
Prova disso são países como a Costa Rica, Quênia,
Madagascar, Nepal e Equador (Ilhas Galápagos), onde
o turismo ecológico produz uma parte significativa
da renda de divisas provenientes do setor turístico
e, inclusive, nalguns casos, da economia do país.
UM
RECURSO DESAPROVEITADO
O
turismo de natureza não requer de custosas
instalações, exceto as elementares; o que mais
valorizam os que apostam nessa opção é conviver em
relacionamento direto com ela, descansar em tendas
ou em redes e contemplar a noite e o amanhecer;
molhar-se sob os às vezes espontâneos aguaceiros
tropicais; banhar-se numa queda d'água ou num rio e
tresandar as florestas para viver a aventura da
descoberta.
Somos ainda jovens nessa linha de trabalho e não
poderíamos comparar-nos com nações do Caribe que
foram pioneiras no ecoturismo, em nível mundial, o
que ganhou o reconhecimento entre os destinos
internacionais com verdadeiras opções de turismo
ecológico.
Mas
Cuba tem muito a oferecer.
Às
vezes, retornam a minha mente as impressões que vivi
em dezenas de visitas às áreas protegidas da Ilha.
Imagens como a apreciada no pantanal Monte
Cabaniguán, em Las Tunas, nas margens do golfo de
Guacanayabo, a 700 quilômetros a leste da capital,
onde uma fêmea de crocodilo americano nadava num
esteiro levando os filhotes na cabeça, mostrando-me
o que só em teoria conhecia: o crocodilo é o único
réptil com um comportamento maternal definido; ou
aquele bando de araras esvoaçando livremente no céu
do sul da Ilha da Juventude enquanto enchiam o ar
com incompreensíveis gírias e eu me perguntava de
que estariam falando.
Quanto divaguei acerca da calma delicadeza do
flamingo cor-de-rosa, os mistérios do peixe-boi; as
elegantes e engraçadas cerimônias dos grous; as cada
vez menos abundantes maçaricões (Himantopus
mexicanus), guarás brancos (Eudocimus albus),
colhereiros (Platalea ajaja), e outras aves
em perigo de extinção.
Mas
nada pode superar a emoção que experimentei ao
escutar o que parecia uma sinfonia maravilhosa, cujo
eco provinha da caverna de Los Portales — situada na
zona ocidental, e foi onde Che Guevara instalou seu
posto de comando, em 1962, durante a chamada Crise
dos Mísseis —, onde cantava uma ave de plumas
opacas, o rouxinol cubano, que me fez evocar “o
Rouxinol e a Rosa”, de Oscar Wilde, pois ele parecia
chorar enquanto deixava o coração em seu canto.
Quanta beleza e curiosidade, cuja existência é
ignorada!
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