Granma Internacional Digital
VERSÃO SÓ TEXTO

Havana. Cuba. Ano 13 - Sexta-feira 13 de Novembro
de 2009.


Raúl recebeu ministro da Defesa Civil da Rússia

• O presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, general-de-exército Raúl Castro Ruz, recebeu na quinta-feira, 12 de novembro, o ministro da Defesa Civil e Situações de Emergência da Federação Russa, Serguei Shoigu, o qual faz uma visita de trabalho a Cuba.

O encontro reafirmou a satisfação de ambas as partes pelos avanços na colaboração entre as instituições encarregadas da Defesa Civil nos respectivos países.

Raúl ratificou ao distinto hóspede o agradecimento dos cubanos pela ajuda recebida quando do açoite dos furacões no ano passado, e transmitiu uma saudação para o presidente Medvedev e para o povo russo.

Shoigu, por seu lado, exprimiu sua satisfação pela nova oportunidade de constatar in situ os esforços do nosso país para encarar as dificuldades e continuar avançando.

Além disso, marcaram presença o ministro das FARs, general de corpo-de-exército Julio Casas Regueiro; o chefe do Estado-Maior da Defesa Civil, general-de-divisão Ramón Pardo Guerra; o embaixador da Federação Russa em Cuba, o Ex.mo Sr Mikhail L. Kamynin; Vladimir A. Puchkov e Iúri V. Barashnikov, membros da delegação •

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10º ANIVERSÁRIO DA ESCOLA LATINO-AMERICANA DE MEDICINA

Criadores de um mundo mais humano

(...) Permitam-me sonhar. Acontece que, depois de meio século de luta, tenho certeza absoluta de que ninguém poderá falar dos sonhos de Cuba, como disse Calderón de la Barca, "toda a vida é sonho e os sonhos, sonhos são". — Fidel, na primeira formatura da Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), em 2005.

José A. de la Osa. Foto de Otmaro Rodríguez

• HÁ dez anos, uma antiga instalação militar — a Academia Naval Granma — graças à solidariedade de um pequeno país criminalmente acossado e bloqueado por um Golias dos nossos tempos, foi convertida numa universidade médica latino-americana, com o propósito de que milhares de jovens privados tornassem realidade seus sonhos, para depois promover saúde, prevenir, sarar e salvar a milhares de seus próprios irmãos necessitados.

Para palpar literalmente aquele histórico acontecimento, falei então com Nora Karina, da Guatemala, com Lesver Miguel, da Nicarágua, com Nelson Menocal, de Honduras, e muito mais daquele grande grupo de jovens da nossa América que começavam a caminhar para o futuro.

Impressionou-me muito o relato de uma jovem miúda, comunicativa, Igni Estrada Moncada, memória viva da pobreza, que podia ter muitas similitudes com a de muitos jovens que estudam gratuitamente na Escola Latino-Americana de Medicina, e que recebeu seu diploma de doutora, segundo consta na Secretaria Geral da Universidade, n a primeira formatura da ELAM, em 2005.

Igni, lembro que dizia, gostava da chuva, mas, paradoxalmente, sofria quando a escutava cair, porque a poucos metros da sua casa, no município de Ilopango, em El Salvador, inúmeras pessoas moravam em casas de lâminas, e "então, penso que as crianças estão se molhando dentro de suas casas, ficam doentes, e as pessoas que mais precisam são as que recebem menos atendimento de saúde".

Y perguntava-se: Que médico dos que moram em Colonia Escalón (uma zona próxima onde vivem pessoas abastadas) vai atender a uma comunidade onde existe tanta pobreza?...

"Eu vim a Cuba, respondendo a sua solidariedade, para me preparar e servir a quem precisar de atendimento, sem diferença de nenhum gênero".

Às vezes, ela tinha medo, refletia, de que a visão humana e social que sentia tão profundamente pudesse ser desviada de seus caminhos, se tivesse, inclusive, a possibilidade de se formar num país capitalista, "e fiquei impregnada da filosofia, como eu vi, de a gente leva uma criança doente, e se não tiver dinheiro para pagar, não é simplesmente atendida e isso me aconteceu com um irmãozinho quando tinha um dia de nascido".

Estudando este curso humano em Cuba, concluía, sei que não vou mudar destas ideias, porque estou rodeada de médicos que pensam o mesmo: que como médicos devemos estar onde o povo nos precisar.

O processo de seleção dos estudantes para matricular na ELAM realiza-se nos países donde procedem, respondendo fundamentalmente à sugestão de Cuba de que sejam jovens com vocação pela medicina e de escassas ou nenhuma possibilidade de formação neste curso universitário em seus países.

O SURGIMENTO DE UMA IDEIA

No coração da Cidade de Havana, dirigindo em direção ao oeste da capital pela Quinta Avenida, comunica-se com a estrada Panamericana. A uns 25 quilômetros, no limite mesmo das províncias de Havana e Cidade de Havana, encontra-se a ELAM, que se destaca por sua estrutura e bucólica alocação e, também, no âmbito acadêmico pela integração dos componentes docente, de pesquisa e assistencial no processo de ensino e aprendizagem.

A ideia de um Programa Integral de Saúde (de ajuda médica gratuita para a região e outros continentes), e uma Escola Latino-Americana de Medicina (como a parte sustentável dessa ajuda), nasceu em 1998, depois do açoite de dois furacões pelo Caribe e pela América Central, deixando um saldo de um número impressionante de óbitos e consideráveis estragos materiais.

Em 15 de novembro de 1999, por ocasião da 4ª Cúpula Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo, em Havana, Fidel teve a seu cargo a inauguração oficial do projeto ELAM, "como simples símbolo do que nós, juntos, podemos alcançar", e que pretende ser, disse, uma modesta contribuição de Cuba para a unidade e integração dos povos que aqui representamos.

Expressou que na ELAM não se ministram disciplinas de caráter político, como se faz com os jovens cubanos em todos nossos centros universitários. Aprenderão a história do nosso hemisfério, particularmente, a da América Latina e do Caribe (...) Cada um tem liberdade de professar sua religião, seja qual for. E assinalou: O mais importante é a sagração ao mais nobre e humano dos ofícios: salvar vidas e preservar saúde. Mais que médicos, serão guardas zelosos do mais prezado do ser humano; apostolos e criadores de um mundo mais humano.

"Médicos dispostos para trabalharem onde for preciso, nos mais remotos cantos do mundo, onde outros não estão dispostos a ir. Esse é o médico que vai se formar nesta Escola".

O exemplo de vocês, jovens queridos que já estudam nesta escola — indicou Fidel — despertará consciências e vai ser seguido pelos profissionais que, em número elevado e com ótima qualidade, têm formado as universidades da América Latina. Salvar milhões de vidas, prestar serviços de saúde seguros e ótimos aos 511 milhões de habitantes da América Latina e o Caribe, só pode ser tarefa de centenas de milhares de médicos que, na sua maioria, já estão tecnicamente preparados para isso.

FORMAÇÃO ACADÊMICA

A vice-reitora docente da ELAM, dra Midalys Castilla Martínez, disse que os princípios de formação da Escola são os mesmos que se aplicam aos estudantes cubanos, com o mesmo plano de estudo e rigor. Neste âmbito acadêmico, a integração dos componentes docente, investigativo e assistencial no processo de ensino e aprendizagem favorece a preparação integral que estes jovens devem atingir na sua formação.

Outro objetivo essencial deste programa está associado aos valores que devem caracterizar o profissional da medicina: o humanismo, a solidariedade, a ética profissional e o internacionalismo, elementos fundamentais de seu trabalho que os torna seres humanos capazes de ajudarem às transformações sociais e comunitárias, expressas em melhores indicadores de saúde, qualidade de vida e bem-estar, meta principal do projeto ELAM como contribuição para uma maior equidade social.

O modelo pedagógico de formação destes médicos estabelece o vínculo direto dos estudantes com o lugar onde trabalharão como profissionais. Desde o primeiro ano, dos seis que dura o curso, e no período de férias, estes jovens se inserem nas comunidades mais afastadas dos seus países para realizar trabalhos de promoção e prevenção.

Esta vinculação vai-se aprofundando e diversificando à medida que os estudantes adiantam no curso.

Como exemplo desta integração no âmbito da pesquisa e assistencial, realiza-se atualmente uma pesquisa clínico-pedagógica para conhecer transtornos nas funções renais dos habitantes de uma comunidade afastada de El Salvador, com a participação de estudantes e graduados da ELAM, junto com especialistas do Instituto de Nefrologia do Ministério da Saúde Pública de Cuba e dessa nação centro-americana.

Para concluir os estudos estes jovens devem fazer um exame estatal nacional, que corrobora legalmente sua preparação como médicos profissionais, segundo as normas estabelecidas pelo sistema de Ensino Superior cubano que lhes possibilita enfrentar os processos de reconhecimento e credenciamento do diploma nos seus países de origem.

A vice-reitora docente reconhece que a heterogeneidade dos estudantes da ELAM, quanto à procedência e diversidade cultural, é um desafio para os professores da Escola, como também um importante fator na formação integral do estudante.

Nestes dez anos de existência, o projeto ELAM demonstra fortaleza e consolidação ao eliminar literalmente as fronteiras entre os nossos países, na marcha iniciada para conseguir a unidade e a integração.
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Do ideário de Fidel

(Trechos do discurso de inauguração, em 15 de novembro de 1999)

Nos setores com mais carência de médicos na América Latina e no Caribe morrem a cada ano mais de um milhão de pessoas, delas 500 mil são crianças, por doenças previsíveis e curáveis. Dezenas de milhões de latino-americanos não têm acesso aos serviços de saúde. Isto acontece inclusive num país tão rico como os Estados Unidos. As pessoas que vão morrer não podem esperar.

(Por ocasião da primeira formatura de 1.610 médicos da ELAM, em 20 de agosto de 2005)

Há quase sete anos, esta formatura era um sonho. Hoje é uma prova da capacidade dos seres humanos para conseguirem as mais elevadas metas, e um prêmio para os que cremos que um mundo melhor está ao nosso alcance.

Formar um médico nos Estados Unidos, como é sabido, custa não menos de US$300 mil. De fato, Cuba está formando neste momento mais de 12 mil médicos para o Terceiro Mundo, com o qual faz uma contribuição para o bem-estar desses países, cujo valor atinge mais de US$3 bilhões. Se formar ou contribuir para a formação de 100 mil médicos de outros países em dez anos, a contribuição seria de US$30 bilhões, apesar de Cuba ser um país pequeno do Terceiro Mundo, bloqueado economicamente pelos Estados Unidos.
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OPINIÕES DE ESTUDANTES DA ELAM

Por que estudo Medicina?

ARGENTINA

"Porque em nossos países precisamos de médicos para as pessoas que, devido às desigualdades sociais, não têm acesso à saúde. Além disso, porque é uma profissão que me aproxima, dia após dia, da realidade dos mais pobres, e creio que ‘a cabeça pensa onde os pés pisam. A medicina nos oferece as ferramentas para poder mudar o injusto sistema atual.’" — Alejandro Sosa Cueto.

BOLÍVIA

"Porque gosto da profissão e isso me possibilita ajudar muitas pessoas que realmente o necessitam, prevenir doenças e mortes originadas especialmente por falta de atendimento médico, tão necessário para milhões de pessoas em nosso continente." — Erika Paola Quintanilla Muñoz.

CHILE (MAPUCHE)

"Vejo a medicina como ferramenta e o médico, como agente de mudança. Atualmente, em Cuba, essa convicção se multiplica a cada dia. Este curso foi o meu amor à primeira vista e é tão humanista como nenhum outro e tão perfeito como para saber, com certeza, que um mundo melhor é possível. Estudo medicina por amor, porque esse é o caminho." — Alihuen Antileo García.

EQUADOR

"Para ajudar as pessoas que precisem melhorar seu estado de saúde, fazendo parte do exército de batas brancas que querem saúde para todos, e que seu maior estímulo é o bem-estar dos outros e não a acumulação de recursos econômicos." — Flavio Efraín Pozo Vargas.

ESTADOS UNIDOS

"No meu país não existe justiça no tocante aos seguros médicos nem ao acesso aos serviços de saúde de quase 700 milhões de cidadãos. Qual outro curso poderia ter escolhido se do que mais gosto é da ciência e fico feliz quando ajudo o próximo? No exercício da medicina é possível chegar ao coração de cada ser humano." — Ian Fabian.

PARAGUAI

"Para ajudar a minha comunidade que o necessita e para que haja uma América mais solidária, seguindo o exemplo dos cubanos." — Jessica Eloísa Gómez Benítez.
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Livro de visitantes

MARGARET CHAN, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde:

• É um grande privilégio visitar esta Universidade e aprender a experiência de vocês. A diversidade e o intercâmbio cultural criam um excelente entorno de aprendizagem para os estudantes, além do que aprendem na sala de aulas.

Obrigada pelo caloroso recebimento e pelas coordenações para que pudéssemos interagir com os estudantes e professores. Tenho certeza de que há muitas boas lições que poderíamos aprender e imitar noutras partes do mundo.

Continuem com seu excelente trabalho e contribuição para a saúde pública mediante a formação de recursos humanos e o desenvolvimento de sua capacidade (27 de outubro de 2009).

RAFAEL CORREA DELGADO, presidente do Equador:

Para a Escola Latino-Americana de Medicina, símbolo de humanidade, solidariedade e entrega pela Pátria grande. Até a vitória, sempre! (10 de janeiro de 2009)

CRISTINA FERNÁNDEZ DE KIRCHNER, presidenta da Argentina:

Com o reconhecimento pelo valor da consciência na integração continental e da solidariedade como o instrumento do conhecimento e desenvolvimento social para nossos povos. (21 de janeiro de 2009).

ÁLVARO COLOM CABALLEROS, presidente da Guatemala:

ELAM, sempre obrigado! Por nossos jovens, por nossos pobres que receberam os benefícios, pela Guatemala e, sobretudo, pela irmandade entre os nossos povos. Até a vitória, sempre! (16 de fevereiro de 2009).

FERNANDO LUGO, presidente do Paraguai:

A ELAM tornou-se um símbolo para a formação de jovens promotores da medicina social do mundo inteiro, graças a esta Cuba socialista e solidária. (3 de junho de 2009).

NONG DUC MANH, secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista do Vietnã:

Ao visitar a Escola Latino-Americana de Medicina, senti profundamente o humanismo, o elevado espírito internacionalista e a transparência do Partido, Estado e povo cubano. Os futuros médicos dos países latino-americanos formados neste centro científico atenderão a saúde e curarão doenças do povo trabalhador da América Latina, que é vítima da exploração e da pobreza. As ideias pela unidade latino-americana de José Martí e Simón Bolívar se tornaram uma realidade concreta e criadora através desta Universidade. (9 de março de 2004).
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Dados interessantes

Desde 2005, quando da primeira formatura da Escola Latino-Americana de Medicina, graduaram-se 7.256 médicos de 45 países e de ao redor de 84 povos originários. Em 2005, 1.496; em 2006, 1.419; em 2007, 1.545; em 2008, 1.500; em 2009, 1.296… Os três países que acumulam até hoje o maior número de formados são Honduras com 569, a Guatemala, 556 e o Haiti, 543… Mais de 2 mil graduados estudam atualmente especialidades médicas como parte da educação de pós-graduação, inseridos em nosso sistema nacional de saúde… Quanto à procedência social, são mormente operários, seguidos de camponeses e intelectuais… As religiões predominantes no alunado são a católica e a evangélica… A universidade médica latino-americana é integrada por 28 edificações numa área de mais de um milhão de metros quadrados, onde os estudantes recebem o curso pré-médico e os dois primeiros anos do curso de medicina (as ciências básicas). Depois, os alunos realizam o "ciclo clínico" nas 13 universidades médicas com que conta Cuba… O claustro geral de professores é de mais de 12 mil… Nos dez anos de existência, a ELAM foi visitada por 44 presidentes, oito vice-presidentes, 14 primeiros-ministros, 105 ministros e mais 148 personalidades.
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Reflexões de Fidel

Uma história de ficção científica

• COMO lamento criticar Obama, sabendo que, nesse país, houve possivelmente outros presidentes piores que ele. Compreendo que, nos Estados Unidos, esse cargo é hoje uma grande dor de cabeça. Tal vez nada explique melhor que o informado ontem pelo jornal Granma de que 237 membros do Congresso dos Estados Unidos, quer dizer, 44% deles, são milionários.  Não significa que cada um deles tenha a obrigação de ser reacionário incorrigível, mas é muito difícil que pense como qualquer dos muitos milhões de norte-americanos que carecem de assistência médica, que não têm emprego ou têm que lutar duramente pela vida. 

Obama, evidentemente, não é um mendigo, tem milhões de dólares. Como profissional foi destacado; o seu domínio da língua, sua eloquência e sua inteligência são incontestáveis. Apesar de ser afro-americano, foi eleito presidente pela primeira vez na história de seu país numa sociedade racista, que sofre uma profunda crise econômica internacional, cuja responsabilidade recai sobre si mesma. 

Não se trata de ser ou não antiamericano, como o sistema e os seus grandes meios de comunicação pretendem qualificar os seus adversários. 

O povo norte-americano não é responsável, mas vítima de um sistema insustentável e o que é pior: incompatível com a vida da humanidade. 

O Obama inteligente e rebelde, que sofreu humilhação e racismo durante a infância e a juventude, percebe-o, mas o Obama educado e engajado no sistema e nos métodos que o levaram à presidência dos Estados Unidos não pode resistir à tentação de pressionar, de ameaçar e, inclusive, de enganar os outros. 

É obsessivo no trabalho; tal vez nenhum outro presidente dos Estados Unidos seja capaz de se engajar num programa tão intenso como o que se propõe executar nos oito dias próximos. 

De acordo com o programa, fará um amplo percurso pelo Alasca, onde falará com as tropas ali estacionadas; pelo Japão, pela Singapura, pela República Popular da China e pela Coreia do Sul; participará da reunião do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) e da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean); terá encontros com o primeiro-ministro do Japão e com Sua Majestade Imperial Akihito, na Terra do Sol Nascente; com os primeiros-ministros da Singapura e da Coreia do Sul; com o presidente da Indonésia, Susilo Bambang; da Rússia, Dmitri Medvedev; e com o presidente da República Popular da China, Hu Jintao; proferirá discursos e participará de entrevistas coletivas; levará sua pasta nuclear, que esperamos que não precise usá-la no seu acelerado percurso. 

O seu assessor de Segurança informa que discutirá com o presidente da Rússia a reivindicação do Tratado START-1, que expira em 5 de dezembro de 2009. Sem dúvida, serão acertadas algumas reduções do enorme arsenal nuclear, sem transcendência para a economia e a paz mundial. 

De que assunto pensa nosso ilustre amigo tratar nesta intensa viagem? A Casa Branca o anuncia solenemente: a mudança climática, a recuperação econômica, o desarmamento nuclear, a guerra do Afeganistão, os riscos de guerra no Irã e na República Democrática Popular da Coreia. Há material para escrever um livro de ficção. 

Mas, como pretende Obama resolver os problemas climáticos se a posição de sua representação nas reuniões preparatórias da Cúpula de Copenhague sobre as emissões de gases de efeito estufa  foi a pior  de todos os países industrializados e ricos, tanto em Bangcoc como em Barcelona, porque os Estados Unidos não assinaram o Protocolo de Kyoto, nem a oligarquia  desse país está disposta verdadeiramente a cooperar. 

Como vai contribuir para a solução dos sérios problemas econômicos que afetam grande parte da humanidade se a dívida total dos Estados Unidos — que inclui a do Governo Federal, dos governos estatais e locais, das empresas e das famílias — era, no final de 2008, de US$57 trilhões, que equivaliam a mais de 400% do seu PIB, e se o déficit orçamentário desse país aumentou quase 13% do seu PIB no ano fiscal 2009, dado que, sem dúvida, Obama não ignora. 

O que vai oferecer a Hu Jintao, se sua política é francamente protecionista  para prejudicar as exportações chinesas, se exige do governo chinês, custe o que custar,  a revalorização do iuan, fato que afetaria as crescentes importações do Terceiro Mundo procedentes da China? 

O teólogo brasileiro Leonardo Boff — que não é discípulo de Marx, mas católico honesto, desses que não estão dispostos a cooperarem com o imperialismo na América Latina — disse recentemente: "...arriscamos nossa destruição e a devastação da diversidade da vida." 

"... quase metade da humanidade hoje vive abaixo do nível de pobreza. Os 20% mais ricos consomem 82,49% de toda a riqueza da terra e os 20% mais pobres têm que se sustentar com um ínfimo 1,6%." Cita a FAO e adverte: "...nos anos próximos, haverá entre 150 e 200 milhões de refugiados climáticos." E acrescenta por sua conta: "Hoje, a humanidade está consumindo 30% a mais da capacidade de restituição... A Terra está dando sinais inequívocos de que já não aguenta mais." 

O que afirma é certo, mas Obama e o Congresso dos Estados Unidos ainda o ignoram. 

O que nos está deixando no hemisfério? O problema vergonhoso de Honduras e a anexação da Colômbia, onde os Estados Unidos instalarão sete bases militares. Em Cuba estabeleceram também uma base militar há mais de 100 anos e ainda a ocupam pela força. Nela instalaram o horrível centro de tortura, mundialmente conhecido, que Obama até hoje não pôde fechar. 

Eu considero que, antes que Obama termine o seu mandato, haverá de seis a oito governos de direita na América Latina que serão aliados do império. Em breve, o setor mais de direita dos Estados Unidos tentará também limitar seu mandato a um período de quatro anos de governo. Um Nixon, um Bush ou alguém parecido com Cheney serão novamente presidentes. Então, vão se ver às claras o que significam essas bases militares absolutamente injustificáveis que hoje ameaçam todos os povos da América do Sul, sob pretexto do combate ao narcotráfico, um problema criado pelas dezenas de bilhões de dólares que nos Estados Unidos são injetados no crime organizado e na produção de drogas na América Latina. 

Cuba tem demonstrado que para combater as drogas o que faz falta é justiça e desenvolvimento social. No nosso país, o índice de crimes em cada cem mil habitantes é um dos mais baixos do mundo. Nenhum outro do hemisfério pode mostrar índices tão baixos de violência. É conhecido que, apesar do bloqueio, nenhum outro tem tão elevados níveis de educação. 

Os povos da América Latina saberão resistir às agressões do império! 

A viagem de Obama parece história de ficção científica. 

 

Fidel Castro Ruz

11 de novembro de 2009

19h16 •


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