SÍRIA: no colimador dos
Estados Unidos
Angie Todd
EM
20 de julho, o Conselho de Segurança da ONU aprovou
uma extensão final de mais 30 dias de sua missão
especial na Síria, acompanhada de exigências da
França, Grã-Bretanha e Estados Unidos de mais
sanções contra o governo de Bashar al-Assad sob o
capitulo sétimo da Carta das Nações Unidas, que
daria luz verde ao ansiado caminho dessas potências
para o uso da força ao estilo líbio e a uma rápida
mudança de regime em Damasco.
Como
é conhecido, o ex-secretário-geral da ONU e enviado
especial para o conflito, Kofi Annan, renunciou ao
mandato de mediador entre as partes enfrentadas,
outorgado pela organização internacional, devido à
situação criada.
Os
esforços de Annan de pôr fim à violência no país por
meio dum plano de seis pontos fracassaram e sua
função de mediador foi uma missão impossível desde o
início.
A
escalada dos atos de violência dos grupos armados
impediu ao governo do presidente al-Assad aceitar o
cessar-fogo e retirar o exército das cidades
prejudicadas pelo conflito, como acontece nos
últimos dias em Alepo, situada muito perto da
fronteira com a Turquia.
As
manifestações inicialmente pacíficas na Síria na
procura de reformas internas, que tiveram lugar em
março de 2011 foram imediatamente manipuladas pelo
Ocidente para desestabilizar e provocar uma guerra
civil nessa pequena nação.
Acontece que a intenção aberta de Washington e de
seu fiel aliado do regime sionista de Israel é impor
um governo dócil a seus desígnios para o Oriente
Médio em seu conjunto.
E
para isto, utilizam mercenários, que infiltraram na
Síria do Egito, Líbano e Turquia, patrocinados por
alguns dos Estados-membros do Conselho de Corporação
do Golfo e pelos próprios Estados Unidos. Para o
sucesso de seus planos reinventaram um falaz e
artificial autodenominado Conselho Nacional Sírio,
que nada tem a ver com as forças opositoras internas
desejosas de construir pacificamente um melhor país.
A
maioria dos partidos políticos sírios de oposição
respaldaram a decisão do presidente al-Assad de
organizar um referendo para reformas
constitucionais, seguido de eleições para a
Assembleia Nacional em maio de 2012, em meio dum
estado de guerra em cidades como Homs.
Apesar do conflito, 51,62% da população votou para
eleger 250 legisladores pertencentes a 12 partidos
políticos, sete novos aceitos em agosto de 2011.
Era
esperado que a oposição pró-ocidental recusasse
participar desse processo de arranjo político, dada
sua intenção de derrocar o governo al-Assad pela via
armada e a impossibilidade de atingir seus objetivos
em términos eleitorais. Tal é sua deslegitimação no
seio da sociedade. O Partido Socialista de Ba’ath,
do governo, conseguiu 60% dos votos.
A
missão da ONU, iniciada em 16 de abril último,
coincidiu com um incremento dos ataques violentos,
inclusive contra seus próprios veículos, perpetrado
por grupos mercenários, que recusam sua presença no
país.
Contudo, o objetivo original da administração de
Barack Obama e seus aliados da OTAN de reeditar o
roteiro da Líbia na Síria não avançou, segundo o
plano pela resistência da maioria dos sírios e do
exército nacional, unido à aguda divisão das facções
armadas da oposição por cotas de poder.
Não
menos importante foram as duas vezes que a Rússia e
a China usaram seu poder para o veto no Conselho de
Segurança da ONU para fazer com que fracassasse
nessa instância a aprovação da intervenção militar
externa contra a Síria, e os esforços diplomáticos
de Moscou e de Pequim para encontrar uma solução
política razoável, o qual irritou muito o
Departamento de Estado e especialmente sua
secretária Hillary Clinton.
A
operação para provocar a queda da Síria esteve
acompanhada duma brutal guerra midiática de
preparação da opinião pública internacional, manobra
que se intensificou nos últimos 16 meses, com
acusações de horripilantes chacinas de civis
cometidas por terroristas e atribuídas às forças
governamentais nas cidades de Homs, Houla, Alepo e
na periferia de Damasco. Inclusive, atribuem
infundadamente ao exército sírio intenções de
utilizar armas químicas, com vistas a escalar o
conflito.
Imediatamente depois da renúncia de Kofi Annan como
enviado especial se filtrou na mídia norte-americana
a autorização do presidente Obama de US$50 milhões,
para a compra de armas destinadas aos grupos
violentos e de ajuda financeira para as organizações
não governamentais (ONGs) contrárias a Damasco.
A
demissão de Annan ocorreu em meio aos esforços do
exército sírio de restaurar a ordem em Alepo e
nalgumas cidades de Damasco, ao deslocamento de
refugiados por causa da violência para a Turquia e
de chamamentos imediatos das potências ocidentais
para impor um suposto corredor aéreo humanitário
para “proteger” a população síria.
Mas
não se pode esquecer que a zona de exclusão aérea na
Líbia, sob o amparo das Nações Unidas, facilitou os
indiscriminados bombardeios da OTAN ali,
responsáveis pela morte de 600 mil pessoas inocentes
e 180 mil feridos.
Por
tal motivo, muitos analistas consideram que a missão
observadora da ONU faz parte dum exercício cínico de
Washington e seus aliados num virtual teatro de
guerra, algo espantoso dada suas implicações na
criação dum clima para a possível destruição da
Síria e da paz no Oriente Médio.