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Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

I N T E R N A C I O N A I S

Havana. 19 de Juhlo, de 2012

Tambores de guerra no Congresso dos Estados Unidos

Enrique Román

A notícia passou inadvertida, inclusive para aqueles que acompanham de perto a evolução dos acontecimentos no Oriente Médio e as constantes ameaças contra o Irã.

Os EUA mantêm perto das costas de Irã uma importante agrupação aero-naval, pronta para agredir a nação persa.
Os EUA mantêm perto das costas de Irã uma importante agrupação aero-naval, pronta para agredir a nação persa.

Em maio, a Câmara dos Representantes estadunidense aprovou uma lei que limitaria sensivelmente as capacidades do presidente dos Estados Unidos no tratamento das relações com o Irã. Diga-se de forma mais clara: que reduz suas opções ao uso da força militar.

A Resolução apoia outra no Senado de texto similar, apresentada anteriormente e cuja aprovação se estima quase segura, e ambas acompanham outras iniciativas nas quais o legislativo, com apoio bipartidarista, abraça a opção da guerra no tratamento das relações com o Irã.

A ideia de uma agressão militar contra o Irã teve pouco acolhimento na administração de Barack Obama. Os contratempos que um ataque contra a república islâmica acarretaria, têm suficiente valor dissuasivo para se oporem às correntes dominantes nos setores mais agressivos do sionismo — Benjamin Netanyahu no particular — e de forma muito especial entre os neoconservadores estadunidenses.

O especialista e acadêmico norte-americano Stephen Zunes o expressa com clareza no artigo "Congress Pushes for War with Iran" (Congresso força uma guerra com o Irã"), in Foreign Policy in Focus. "…a ideia de que uma política de dissuasão contra o Irã não funcionará, pois a liderança clerical que controla as forças armadas, decidiria lançar um ataque nuclear não provocado contra Israel ou os Estados Unidos — e consequentemente provocar uma retaliação nuclear em massa, que causaria a destruição física e total de seu país — é, simplesmente, ridícula. Por um longo trecho, o risco mais realista que deve preocupar é a enorme devastação que provocaria uma guerra estadunidense contra o Irã".

Isto é, devastação na principal zona petrolífera de um mundo cuja economia ainda hoje, e por muitos anos, será baseada no uso dos combustíveis fósseis. E, de imediato, o fechamento dos fornecimentos dessa região, em meio de uma crise econômica crônica no mundo capitalista desenvolvido, que estaria aumentada exponencialmente pelos preços imprevisíveis que atingiria o petróleo.

E, embora isso não interesse muito aos falcões israelenses e estadunidenses, o custo humano seria difícil de imaginar e moralmente impossível de justificar.

Mas, talvez, a consequência mais perniciosa da legislação adotada pelo Congresso dos Estados Unidos não tenha que ver somente com uma aventura bélica contra o Irã.

Embora referindo-se ao Irã, a Resolução "rechaça qualquer política que tenha como base esforços para conter um Irã com capacidade de armamento nuclear" e "urge o presidente a reafirmar o caráter inaceitável de um Irã com armamento nuclear e sua oposição a qualquer política baseada na contenção como opção à existência de uma ameaça nuclear iraniana".

A gravidade do pronunciamento ultrapassa o tema iraniano. Como assinala Zunes, não existe precedente de uma limitação semelhante da capacidade de manobra política de um presidente estadunidense. Não existiu nem no caso, muito mais complexo e iminente, da Crise dos Mísseis, de outubro de 1962. De fato, durante todo o período da chamada "guerra fria" entre os Estados Unidos e a União Soviética, foi justamente a política de dissuasão, praticada por ambas as nações, a que evitou ao mundo a imolação nuclear.

Ambas as resoluções não são documentos isolados. A mesma tendência —frustrar e de fato impedir o caminho das negociações e alentar a agressão —aparecem em outro projeto, promovido desta vez pela conhecida Ileana Ros-Lehtinen, em sua condição de presidenta do Comitê das Relações Exteriores da Câmera de Representantes, que proíbe qualquer contato entre funcionários governamentais e representantes do governo iraniano.

Uma das denúncias mais lúcidas contra estas perigosas legislações provém de uma organização judaica liberal, Americans for Peace Now, que não somente alerta acerca de suas temíveis consequências, mas sim que "urge os membros do Congresso a emendar estas legislações e a incluir nelas o reconhecimento da paz entre israelenses e palestinos e apoiar a liderança estadunidense para consegui-la".

Como se sabe, a política dos Estados Unidos no caso iraniano vai mais longe de impedir um desenvolvimento nuclear que nunca negou a Israel. O próprio Stephen Zunes o explica bem claro: "Naturalmente, esta resolução não tem nada que ver com a segurança nacional dos Estados Unidos, nem trata sobre a segurança de Israel. Trata sobre a continuidade da hegemonia dos Estados Unidos sobre a região mais rica em petróleo do mundo".
 

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