Tambores de
guerra no Congresso dos Estados Unidos
Enrique Román
A notícia passou inadvertida, inclusive para
aqueles que acompanham de perto a evolução dos
acontecimentos no Oriente Médio e as constantes
ameaças contra o Irã.
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Os EUA mantêm perto das costas de Irã uma
importante agrupação aero-naval, pronta para agredir
a nação persa. |
Em maio, a Câmara dos Representantes
estadunidense aprovou uma lei que limitaria
sensivelmente as capacidades do presidente dos
Estados Unidos no tratamento das relações com o Irã.
Diga-se de forma mais clara: que reduz suas opções
ao uso da força militar.
A Resolução apoia outra no Senado de texto
similar, apresentada anteriormente e cuja aprovação
se estima quase segura, e ambas acompanham outras
iniciativas nas quais o legislativo, com apoio
bipartidarista, abraça a opção da guerra no
tratamento das relações com o Irã.
A ideia de uma agressão militar contra o Irã teve
pouco acolhimento na administração de Barack Obama.
Os contratempos que um ataque contra a república
islâmica acarretaria, têm suficiente valor
dissuasivo para se oporem às correntes dominantes
nos setores mais agressivos do sionismo — Benjamin
Netanyahu no particular — e de forma muito especial
entre os neoconservadores estadunidenses.
O especialista e acadêmico norte-americano
Stephen Zunes o expressa com clareza no artigo
"Congress Pushes for War with Iran" (Congresso força
uma guerra com o Irã"), in Foreign Policy
in Focus. "…a ideia de que uma política de
dissuasão contra o Irã não funcionará, pois a
liderança clerical que controla as forças armadas,
decidiria lançar um ataque nuclear não provocado
contra Israel ou os Estados Unidos — e
consequentemente provocar uma retaliação nuclear em
massa, que causaria a destruição física e total de
seu país — é, simplesmente, ridícula. Por um longo
trecho, o risco mais realista que deve preocupar é a
enorme devastação que provocaria uma guerra
estadunidense contra o Irã".
Isto é, devastação na principal zona petrolífera
de um mundo cuja economia ainda hoje, e por muitos
anos, será baseada no uso dos combustíveis fósseis.
E, de imediato, o fechamento dos fornecimentos dessa
região, em meio de uma crise econômica crônica no
mundo capitalista desenvolvido, que estaria
aumentada exponencialmente pelos preços
imprevisíveis que atingiria o petróleo.
E, embora isso não interesse muito aos falcões
israelenses e estadunidenses, o custo humano seria
difícil de imaginar e moralmente impossível de
justificar.
Mas, talvez, a consequência mais perniciosa da
legislação adotada pelo Congresso dos Estados Unidos
não tenha que ver somente com uma aventura bélica
contra o Irã.
Embora referindo-se ao Irã, a Resolução "rechaça
qualquer política que tenha como base esforços para
conter um Irã com capacidade de armamento nuclear" e
"urge o presidente a reafirmar o caráter inaceitável
de um Irã com armamento nuclear e sua oposição a
qualquer política baseada na contenção como opção à
existência de uma ameaça nuclear iraniana".
A gravidade do pronunciamento ultrapassa o tema
iraniano. Como assinala Zunes, não existe precedente
de uma limitação semelhante da capacidade de manobra
política de um presidente estadunidense. Não existiu
nem no caso, muito mais complexo e iminente, da
Crise dos Mísseis, de outubro de 1962. De fato,
durante todo o período da chamada "guerra fria"
entre os Estados Unidos e a União Soviética, foi
justamente a política de dissuasão, praticada por
ambas as nações, a que evitou ao mundo a imolação
nuclear.
Ambas as resoluções não são documentos isolados.
A mesma tendência —frustrar e de fato impedir o
caminho das negociações e alentar a agressão —aparecem
em outro projeto, promovido desta vez pela conhecida
Ileana Ros-Lehtinen, em sua condição de presidenta
do Comitê das Relações Exteriores da Câmera de
Representantes, que proíbe qualquer contato entre
funcionários governamentais e representantes do
governo iraniano.
Uma das denúncias mais lúcidas contra estas
perigosas legislações provém de uma organização
judaica liberal, Americans for Peace Now, que não
somente alerta acerca de suas temíveis consequências,
mas sim que "urge os membros do Congresso a emendar
estas legislações e a incluir nelas o reconhecimento
da paz entre israelenses e palestinos e apoiar a
liderança estadunidense para consegui-la".
Como se sabe, a política dos Estados Unidos no
caso iraniano vai mais longe de impedir um
desenvolvimento nuclear que nunca negou a Israel. O
próprio Stephen Zunes o explica bem claro:
"Naturalmente, esta resolução não tem nada que ver
com a segurança nacional dos Estados Unidos, nem
trata sobre a segurança de Israel. Trata sobre a
continuidade da hegemonia dos Estados Unidos sobre a
região mais rica em petróleo do mundo".