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Nicolás Guillén em seu 110° aniversário
Mireya
Castañeda
NICOLÁS Guillén (1902-1989)
é considerado por sua obra como o Poeta Nacional. Em
suas composições poéticas palpita algo próprio,
particular, que reconhecemos como cubano.
Introduziu o tema negro na
poesia em língua espanhola e soube interpretar, à
plenitude, o espírito de luta dos seres humanos e
sua esperança de conquistar uma sociedade melhor.
Foi um jornalista fecundo e
incansável, desde os anos 20 do século passado, por
exemplo no jornal El Camagüeyano, esteve a
cargo de uma seção, "Pisto Manchego", onde misturava,
com sumo gracejo, temas de atualidade nacional ou
mundial com o anúncio de produtos comerciais. Nunca
abandonou o jornalismo.
Desde sua juventude
participou intensamente da vida cultural e política
cubana, o que lhe custou o exílio em várias ocasiões.
Já em Havana conheceu intelectuais como o espanhol
Federico García Lorca (que tinha sido convidado por
Fernando Ortiz para fazer conferências) e o grande
poeta negro norte-americano Langston Hughes, cuja
amizade e influência seriam sumamente importantes
para Guillén.
Em 1930, escreveu seu "Motivos
de son", que ao ser publicado no Diario de la
Marina, lançaram o novel poeta a uma espécie de
celebridade polêmica, mas de ampla ressonância
popular. E no ano seguinte "Sóngoro cosongo; poemas
mulatos", um livro da maior qualidade artística, com
uma técnica muito mais perfeita, e de vocação
reflexiva sobre a cultura cubana que inclui "Los
Motivos". Este é considerado seu verdadeiro primeiro
livro, que lhe abre as portas da consagração.
A "Sóngoro cosongo" precede
um prólogo do autor: "Direi, finalmente, que estes
são uns versos mulatos. Participam por acaso dos
mesmos elementos que entram na composição étnica de
Cuba, onde todos somos uma fruta.
Dói? Não creio. Em todo
caso, é preciso dizê-lo ante de que o esqueçamos. A
injeção africana nesta terra é tão profunda, e se
entrecruzam em nossa bem regada hidrografia social,
tantas correntes capilares, que seria trabalho de
miniaturista desenredar o hieróglifo".
Para 1934, apresenta um novo
livro de poemas "West Indies, Ltd", onde se adverte
um crescimento intelectual, orientado para posições
cada vez mais críticas sobre o desequilíbrio social
e econômico de seu país.
Foi ao México, em 19 de
janeiro de 1937, para participar do Congresso da
Liga de Escritores e Artistas Revolucionários do
México, e ali vinculou-se com artistas como
Silvestre Revueltas, Diego Rivera, David Alfaro
Sequeiros e outros. É nessa época que publicou um
livro de poemas de forte entoação popular, "Cantos
para soldados y sones para turistas", com prólogo de
Juan Marinello.
Nesse mesmo ano, participa
do 2º Congresso Internacional de Escritores para a
Defesa da Cultura, em Barcelona, Valença e Madri, em
plena guerra civil antifascista. Ali Manuel
Altolaguirre lhe edita "España. Poema en cuatro
angustias y una esperanza", e se relaciona com o
mais destacado da intelectualidade espanhola e
internacional: Antonio Machado, Miguel Hernández,
Pablo Neruda, Ilya Ehrenburg, Rafael Alberti, César
Vallejo, León Felipe, Juan Chabás, Octavio Paz,
Tristán Tzara, Anna Seghers e Ernest Hemingway, que
conhecera em Cuba.
Seguindo a data de
publicação de seus poemas, aprecia-se essa rápida
evolução para preocupações políticas e sociais, por
exemplo "El son entero" (1947) e "La paloma de vuelo
popular" (1958), compromisso com a Ilha e América,
ou o próprio "España. Poema en cuatro angustias y
una esperanza", escrito sob o impacto da Guerra
Civil Espanhola e o assassinato de Federico García
Lorca, ou "Elegia a Jesus Menéndez" (1951), em
homenagem ao líder cubano, com quem manteve amizade
e colaboração.
Ao triunfar a Revolução
Cubana, Guillén se encontrava em Buenos Aires e
imediatamente regressou a Cuba. Dois anos mais
tarde, no 1º Congresso Nacional dos Escritores e
Artistas de Cuba, foi eleito presidente da União dos
Escritores e Artistas de Cuba (Uneac), onde se
manteve até sua morte, em 1985.
Nessas décadas publicou
"Tengo" (1964), "Poemas de amor" (1964), "El gran
zoo" (1967), "Cuatro canciones para el Che" (1969),
"La rueda dentada", "Diario que a diario" (1972),
"El corazón con que vivo" (1975), "Por el mar de las
Antillas anda un barco de papel" (1978), e "Elegías"
(1977).
A propósito de celebrar-se o
110º aniversário de seu natalício, a Fundação
Nicolás Guillén organizou um Colóquio no qual foram
analisados aspectos sempre interessantes de sua obra
e por isso esta publicação teve um breve diálogo,
nos jardins da Uneac, com Nicolás Hernández Guillén,
presidente dessa instituição.
A obra de Guillén tem muitas
facetas, sua poesia negra, amorosa, as elegias. Qual
o senhor crê que neste século 21 seria a mais
acessível para os jovens?
"Talvez numa primeira
leitura, a poesia amorosa. O amor é um sentimento
que todo mundo sente nalgum momento e a poesia de
Nicolás Guillén é impressionante, com muitos níveis
de leitura, e alguns muito simples, que podem chegar
a emocionar, impacta o sentimento das pessoas de
maneira muito direta. De maneira que eu penso que,
talvez, a poesia amorosa de Guillén pode ser uma
leitura atraente para os jovens e, mais ainda, ao
levar em conta que, durante muitos anos, foi uma
zona de sua poesia pouco divulgada, pouco publicada.
"Mas penso que noutro
momento, há uma leitura, com a poesia negra, e lhe
confesso que o próprio Guillén nunca esteve muito
conformado que se falasse de poesia negra, ao
referir-se a sua poesia, na qual aborda assuntos
relacionados com a presença do negro em Cuba. O que
ele estava buscando era uma poesia cubana. Creio que
as reflexões que a poesia Guillén faz do que é Cuba,
têm uma extraordinária importância e que, numa
leitura mais profunda, estou certo que chamará a
atenção dos jovens pela sagacidade, profundidade com
que captou as essências nacionais deste país. Não se
trata, insisto, de poesia negra; Guillén sabia
perfeitamente que a linguagem materializa o
pensamento, que de alguma maneira, o modo em que
alguém se expressa, condiciona e, reciprocamente, o
modo em que alguém pensa, condiciona a maneira em
que se expressa. Guillén pensava que não era
possível uma poesia nitidamente negra, nitidamente
africana, se se está expressando no idioma espanhol,
e esse mesmo fato significa a presença em sua obra
de uma herança, de uma influência, de uma cultura
que se expressa nessa língua.
Por outra parte, o que
tentava destacar era o caráter mestiço, nem negro
num chinês nem índio, porque muitos outros
componentes contribuíram à formação desse caráter.
Guillén queria que essas duas correntes principais
tivessem o mesmo tamanho, e começou a atuar num
momento em que a corrente que vem da África era
desconhecida, minimizada, subestimada pela cultura
dominante e ele rompe lanças em favor do que era
justo e necessário nesse momento. Sempre pensou numa
poesia cubana, que expressasse a essência da nação".
Quanto ao evento?
"Foi dedicado ao 110º
aniversário de seu natalício, refletimos sobre a
herança do avô espanhol. Em abril, realizamos um
evento no qual nos dedicamos principalmente ao
legado do avô africano, porque coincidia este ano
com dois acontecimentos relevantes, o bicentenário
da Conspiração de Aponte e o centenário do protesto
armado e o massacre dos Independentes de Cor, e
aproveitamos para advertir sobre a persistência de
preconceitos, discriminação e, inclusive, de
violência, relacionados com a cor da pele, como é o
caso dos EUA, onde há uns meses assassinaram o jovem
Trevor Martin.
No encontro de julho
tratamos sobre a herança espanhola, a partir da
presença de Guillén na Espanha, em 1937, como um
fato que ele incluiu entre os cinco acontecimentos
que mais influência tiveram em sua vida: a presença
dele na Guerra Civil Espanhola. Ali ingressou no
Partido Comunista e depois permaneceu na Espanha
vários meses e escreveu umas magníficas reportagens
e crônicas sobre as lutas do povo espanhol contra o
fascismo.
Os estudiosos se referiram a
seu grande poema à Espanha, à herança que recebe da
grande poesia espanhola do Século de Ouro, e a sua
relação com intelectuais espanhóis, com Rafael
Alberti, com o próprio Lorca, com Altolaguirre, com
Miguel Hernández. Com todos manteve relações que, de
um ou de outro modo, marcaram-no e o acompanharam,
no caso dos que viveram uma longa vida, sempre, como
o caso de Rafael Alberti.
E falamos também sobre a
presença em Cuba de um numeroso grupo de
intelectuais espanhóis que tiveram que fugir da
Espanha, como consequência da vitória do fascismo e
permaneceram em Cuba, talvez nem tanto como fosse
desejável, porque eram homens bons, com enorme
talento, mas por exemplo, numa das disposições de
nossa Universidade (de Havana) se impedia a
contratação de professores estrangeiros e estes
homens não puderam ter um meio de vida, como lhes
teria correspondido, de acordo com seus
conhecimentos, seu talento. Perderam-se para a
academia e foram parar no México, Argentina e outros
países. De todas as maneiras, deixaram uma marca
aqui, alguns no mundo editorial como é o caso de
Manuel Altolaguirre".
Nicolás Guillén é o Poeta
Nacional. Relacionada com a primeira pergunta...
Considera que os jovens estão aproximando-se de sua
obra?
"Penso que pouco a pouco vão
aproximando-se. Creio que, depois do desaparecimento
da União Soviética e do campo socialista, e como
consequência de oscilações do pensamento para a
direita, em nível global, Guillén foi um pouco
esquecido, não por nós, claro. A Fundação foi
constituída em 1991, coincidindo quase com o período
especial, e que dúvida nós poderíamos ter da
importância do enorme valor da poesia de Guillén
para a nação cubana, mas creio que a sociedade
cubana refletiu algo do que estava sucedendo
mundialmente. Estávamos convictos que era um
movimento pendular. Desde faz três edições, durante
o Colóquio e o Festival de Música e Poesia, viemos
celebrando uma sessão na Universidade de Havana.
Neste ano, os assistentes escutaram estupefatos um
painel de quatro estudantes, do quarto ano, sobre o
"Diario que a diario". Foram brilhantes, originais.
Por isso, creio que os estudos sobre Guillén estão
garantidos. Não se vai deixar de estudar e apreciar
Nicolás Guillén em Cuba, creio que seria de certo
modo um suicídio cultural e estou convencido que
isso não vai acontecer.
Nada melhor que Salvador
Bueno (1917-2006), ensaísta, pesquisador literário e
que foi diretor da Academia
Cubana da Língua, para sintetizar o valor da obra de
Nicolás Guillén: "Toda sua obra criadora está
destinada à confirmação de uma autêntica poesia
cubana de sentido popular. Afincado em nosso povo,
homem do povo, concebeu por especial merecimento de
seu trabalho, a produção de uma lírica feita de
procedência espanhola e africana. Percebiam seus
leitores, desde seus primeiros livros, aquele
vibrante colorido, a musicalidade vibrante, o ritmo
de fonte africana e os elementos folclóricos. Todos
estes traços fundamentais não foram esquecidos, mas
integrados arraigadamente em sua posterior poesia
social. De tal modo, o poeta de Camagüey chegava a
uma essencial poesia que sintetizava nossa
nacionalidade..."
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