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Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

 C U B A

Havana. 13 de Julho, de 2012

Nelson Mandela e Teófilo Stevenson

Angel Dalmau Fernández

EM novembro de 1994 tive o privilégio de apresentar minhas cartas credenciais como primeiro embaixador de Cuba ante o presidente da África do Sul, nação recém libertada do horrível sistema de segregação racial, conhecido no mundo todo como apartheid. Aquele presidente foi Nelson Mandela, homem extraordinário da África e do mundo. Estive acompanhado pela minha esposa, Silvia, o conselheiro da embaixada, Marcos Rodríguez, que há vários anos ocupa o cargo de vice-ministro das Relações Exteriores, e sua esposa Rosa María.

Nelson Mandela e Teófilo StevensonNaquele breve encontro diplomático, Mandela fez três perguntas: Como está Cuba? Como está meu irmão Fidel? e Como está Teófilo Stevenson?.

Acontece que Mandela foi boxeador de peso completo quando jovem, e durante quase suas três décadas de preso político na ilha de Robben e noutros cárceres, foi seguidor da brilhante carreira esportiva de Stevenson, sendo seu ídolo como melhor boxeador amador de peso completo.

O regime racista foi obrigado a libertar a Mandela em 1990, por razões conhecidas, entre elas as batalhas de Cuito Cuanavale e a presença militar cubana no sul de Angola, entre 1987 e 1988. Em julho de 1991 compartilhou tribuna com o comandante-em-chefe Fidel Castro, durante um ato central por ocasião da comemoração de 26 de julho em Matanzas. Nessa visita a Cuba, Mandela e Teófilo se conheceram pessoalmente e ficaram amigos.

Alguns meses depois do interesse expresso por Mandela sobre Teófilo, o campeão cubano cheagou a África do Sul para participar dum seminário da Associação Internacional de Boxe Amador (AIBA), que teria lugar numa das províncias próximas da Pretória, capital do país. Recebemos Teófilo no aeroporto e o atendemos muito bem. Eu o conhecia pessoalmente e aquela foi uma ocasião especial para que todos os cubanos que trabalhávamos na embaixada pudéssemos conhecê-lo melhor. Entre nós se encontrava um amigo pessoal de Teófilo, o doutor Jimmy Davis, e compartilhamos muitos momentos agradáveis, cheios de anedotas vinculadas ao boxe e ao esporte em geral.

Quando recebemos a notícia da visita de Teófilo, liguei para um amigo sul-africano, ajudante pessoal do presidente Mandela. Expliquei-lhe o assunto, destacando o interesse pessoal de Mandela por Stevenson. Com certeza, horas depois, o amigo respondeu que Stevenson e eu seriamos recebidos por Mandela no Palácio de Governo.

Chegamos ao lugar e uma mulher nos recebeu e nos informou que o presidente estava atendendo um visitante importante não previsto para esse dia, mas que não demoraria muito e nos pediu desculpas. Vinte minutos depois apareceu aquele gigante da humanidade com seu inconfundível sorriso, com seus braços abertos avançou diretamente em direção ao campeão cubano, exclamando Teófilo! e os dois abraçaram-se. Depois das saudações, perguntou-me por Fidel. Nos convidou para sentar-nos e expressou: "Desculpem minha demora, aconteceu que um presidente africano queria ver-me e embora não estivesse no meu programa do dia, aos amigos sempre há que recebê-los, mas agora — disse olhando para Teófilo — já podemos conversar sobre coisas importantes e agradáveis".

Eu sabia que Stevenson podia comunicar-se diretamente em inglês, mas jamais o tinha visto em ação, e, antes de chegar ao lugar, me ofereci como intérprete caso fosse necessário. Sorridente, ele me respondeu: "Se diz alguma coisa que eu não entendo, então te pergunto, mas acho que não vai ser necessário. Obrigado, Dalmau".

E com certeza, não foi necessário. Fiquei na poltrona escutando a conversa entre aqueles dois homens sobre suas experiências pessoais como boxeadores, durante quase os 45 minutos que durou o encontro. Contudo, não só conversaram sobre boxe, mas também sobre os problemas urgentes da humanidade, devido às injustas desigualdades impostas pelos ricos sobre os pobres. Nalgum momento eu também participei do diálogo, mas em verdade, o meu maior interesse era escutar, ciente de que um encontro como aquele era algo especial, e eu tinha o privilégio de ser testemunha.

Entre outras coisas, Mandela falou da sociedade não racial que eles, na máxima direção de seu partido, o Congresso Nacional Africano (ANC) e seu aliado, o Partido Comunista Sul-Africano, aspiram a conseguir no seu país; também explicou que apesar da existência de diferentes cores da pele em seu país e em muitos outros países do mundo, a palavra multirracial implica a existência de muitas raças, e que este último termo é, em se próprio, discriminatório, porque o gênero humano é só um. Teófilo assentiu com a cabeça, expressando estar de acordo com Mandela.

Enquanto desfrutava aquele encontro, que parecia entre velhos amigos, apesar de que Mandela era 33 anos maior que Stevenson, lembrei episódios da autobiografia recém publicada, naquele então, sobre Mandela, no livro intitulado El largo camino hacia la libertad, onde constantemente aparece a modéstia como virtude cimeira desse grande homem. E assim também era Stevenson, o boxeador amador mais famoso da história, que sempre esteve acompanhado dessa virtude que cresce ainda mais quando convive com pessoas que por seus méritos ficam registradas para sempre na historia da humanidade, tais como Nelson Mandela.

Aquele encontro entre boxeadores terminou com uma fotografia de ambos, que Mandela solicitou dizendo que a queria para mostrá-la a seus netos, porque então não lhe creriam que esteve conversando com o melhor boxeador amador de todos os tempos, e ele — Mandela — desejava dar-se importância com seus netos, e com um forte abraço, que Mandela fez extensivo a Fidel através de Teófilo. Jamais soube se, precisamente por modéstia, a mensagem chegou nalgum momento a seu destinatário.
 

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