Presos Políticos do Império| MIAMI 5      

Só TEXTO    

Granma
Internacional
Edição em
Português

• NOTÍCIAS
• NACIONAIS
• INTERNACIONAIS
• ESPORTES
• CULTURA
• ECONOMIA
• CIÊNCIA E TECNOLOGIA
• TURISMO

• Nossa América
• Correio dos Leitores




• ASSINATURA À
EDIÇÃO IMPRESSA

52 números no ano



C U L T U R A

Havana. 24 de abril de 2003

Saramago, Galeano e Fidel Castro

POR HEINZ DIETERICH STEFFAN

POUCOS dias depois da ruptura pública do prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, com a Revolução cubana, após o fuzilamento de três seqüestradores de um navio e de drásticas penas a «jornalistas dissidentes», Eduardo Galeano no artigo Cuba dói, proclama seu afastamento de um «modelo de poder» que está «em decadência» e que «torna mérito revolucionário a obediência das ordens que baixam... da cúpula».

Galeano diz que jamais acreditou na «democracia do partido único», nem na onipotência do Estado como «resposta à onipotência do mercado»; que a revolução tem ido perdendo o «ar de espontaneidade e frescura que desde o início a empurrou»; que há «um desastre dos estados comunistas tornados estados policiais», o que significa uma «traição ao socialismo» e que o governo cubano tratou os grupos que colaboram com o Chefe do Escritório de Interesses dos EUA, James Cason, «como se fossem uma ameaça grave».

O escritor acredita no «sagrado direito à autodeterminação dos povos»; que a «abertura democrática» em Cuba é, «mais do que nunca imprescindível»; que devem ser os cubanos, «sem que ninguém venha do Exterior, os que abram novos espaços democráticos e conquistem as liberdades que ainda não têm» e que Rosa Luxemburgo tinha razão diante de Lenin, quando dizia que «liberdade é sempre a liberdade de quem pensa diferente»: Freiheit ist immer die freiheit des Andersdenkenden.

Se Rosa Luxemburgo tinha razão frente a Lenin ou não, é um longo debate. O que dispensa o debate é o status lógico da sua célebre afirmação sobre a liberdade do outro. Tal como o aforismo congênito de Voltaire acerca da liberdade, 150 anos antes, e o imperativo categórico de Immanuel Kant, trata-se de enunciados prescritivos abstratos e gerais que não servem para resolver uma dificuldade específica. Para agir ante um problema específico, se torna necessária uma ética material, quer dizer, uma ética de conteúdos, não de uma axiologia formal-abstrata.

No âmbito das verdades abstratas existe, sem dúvida, uma grande harmonia cósmica sobre o direito à dissidência, à liberdade de opinião e à democracia. Richard Nixon, Ronald Reagan, George Bush, Tony Blair e Ariel Sharon atuam justamente em nome destes valores, quando queimam vietnamitas com napalm, quando destroem com bombas em cacho crianças na Palestina ou quando pulverizam afegãos com bombas de combustão.

Não, a verdade é concreta e se se afirma que a «liberdade é sempre a liberdade do outro», devemos perguntar se este axioma vale quando o outro se chama Adolfo Hitler, ou Ariel Sharon, ou George Bush e seus executores subalternos.

Eis a essência da discussão sobre os fuzilamentos em Cuba. Saramago ficou no reino da axiologia abstrata, fiel a suas verdades absolutas, não carcomidas pelas incertezas, contradições e tragédias da vida real. «Até aqui cheguei», diz em uma reminiscência do consummatum est do nazareno: «Cuba seguirá seu caminho, eu fico».

É o evangelho segundo Jesus; mas não do lugar da vítima, que sustenta seu credo com absolutismo inquebrantável durante todo o via-crúcis de sua praxe de transformação social, até chegar a seu Gólgota; mas sim da posição do intelectual principista com base na fortaleza das verdades metafísicas abstratas.

A posição do romancista lusitano é um reduto intelectual de luxo, quase escolástico, poderia dizer-se, mas consistente. A do escritor uruguaio é um falso compromisso entre o diagnóstico da realidade e a terapia; é inconsistente. Onde tem de dar respostas específicas para o problema cubano, refugia-se em desideratos gerais, quer dizer, combina afirmações críticas com aspirações utópicas, que estão fora da realidade do problema. Se Saramago é um mosteiro na colina, Galeano é um castelo no ar.

Galeano diz que não acredita na «democracia do partido único». O partido único em Cuba não nasce, como ele sabe, do leninismo, mas sim da compreensão de José Martí, de que qualquer divisão política de Cuba acaba no colonialismo.

Se o autor não acredita na «democracia do partido único», qual a superestrutura política que acredita então como boa para Cuba? Na democracia do pluripartidarismo? Não, tampouco? Então, com que vai substituir a superestrutura política atual de Cuba?

Eduardo Galeano afirma que devem ser os cubanos, «os que abram novos espaços democráticos e conquistem as liberdades que ainda não têm», «sem que ninguém venha se intrometer» Que beleza!

George Bush, que meteu, não as mãos, mas sim 270 mil agressores armados com tanques e bombardeios estratégicos no Iraque, que acaba de confirmar em uma fábrica de caças F-18, que Washington deve manter todas as vantagens «que tem em armas, tecnologias e espionagem», respeitará, sem dúvida, este desejo do autor de Las venas abiertas de América Latina, de que os cubanos possam construir sua democracia sem intervenções «do Exterior».

Cita afirmativamente a revolucionária Rosa Luxemburgo — assassinada a coronhadas, em janeiro de 1919, pelos fascistas alemães e jogada ao canal Landwehr em Berlim, como se fosse um animal —quando diz que «sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e uma liberdade de reunião limitadas, a vida vegeta... em todas as instituições públicas».

Floresceria a vida nas instituições públicas cubanas se tivessem eleições gerais, liberdade de imprensa e de reunião limitada, a poucas milhas de Miami e de Washington, onde a família Bush roubou as eleições e donde têm concebido mais de 600 tentativas de assassinato contra o presidente cubano Fidel Castro?

Num dos seus textos, Galeano diz que não pretende ser objetivo, quer dizer, reserva-se o direito de ser objetivo ou não científico. Por isso, possivelmente, não vê nenhum problema em expor «a abertura democrática» em Cuba que substituiria a superestrutura política cubana com a «nostra democracia» do Terceiro Mundo que os iraquianos começam a desfrutar.

Claro, ainda não sabem manipular a nova democracia e o direito à dissidência responsavelmente, mas a pedagogia dos soldados norte-americanos mudará isto rapidamente. Há alguns dias os soldados mataram vinte civis no Iraque numa manifestação pacífica, sem respeitar sua «liberdade de reunião limitada» e sem nenhum julgamento, nem sequer sumário.

Ante a cômoda posição principista de Saramago e a patética posição subjetivista de Galeano, existe uma terceira posição perante os fuzilamentos: discordar com a pena de morte e ser solidário com os esforços heróicos do projeto cubano, de não cair como «fruta madura no seio dos Estados Unidos», como previram os criadores da doutrina Monroe, há 200 anos.

O futuro de Cuba não está na podre institucionalidade da civilização burguesa, nem no controle por parte de suas elites corrutas. Seu futuro está na abertura para a democracia de participação pós-capitalista e sobre esta nada dizem Galeano e Saramago.

Como diria Lenin: «Um passo na frente, dois em recuo».

Extraído de Rebelión

IMPRIMIR ESTE MATERIAL


Diretor Geral: Frank Agüero Gómez. Diretor Editorial: Gabriel Molina Franchossi.
HOSPEDAGEM: Teledatos-Cubaweb. Havana
Granma Internacional Digital: http://www.granma.cu/
Tambén no: http://granmai.cubaweb.com/

  Revistas | Index | Correio-E | Inglês | Francês | Espanhol | Alemão
© Copyright. 1996-2003. Todos os direitos reservados. GRANMA INTERNACIONAL/ EDICAO DIGITAL

Subir