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T U R I S M O

Havana. 3 de Setembro de 2009    

NA HAVANA VELHA
A dama do Castelo


Ángela Oramas Camero

• O Castelo da Real Força, situado na área mais antiga de Havana, atrai a atenção das centenas de turistas que o visitam a cada semana, não apenas por sua arquitetura harmônica de inspiração renascentista ou por ser a obra militar mais antiga da cidade, mas também pela lenda que envolve a artístico cata-vento giratório, a Giraldilla, que coroa a torre de vigia.

Com o decurso dos séculos, ela se converteu num dos mais grandiosos e fortes emblemas da capital de Cuba. A estatueta hoje viaja pelo mundo no rótulo do rum cubano, enquanto faz parte de caprichosos suvenirs que evocam uma feliz estada em Havana.

A obra original é exibida no próximo Museu da Cidade, outrora Palácio dos Capitães-Generais. Enquanto a reprodução principal é a que observamos desde 1926 na Fortaleza, outra cópia foi enviada à municipalidade de Sevilha em 1992.

A história em retrospetiva até 1630, assinala o comandante da Ilha, Juan Bitrián de Viamonte, quando pediu ao fundidor havanês Jerónimo Martín Pinzón que realizasse o pequeno cata-vento em bronze, a Giraldilla, a qual uma vez colocada na torre de vigia cumpriu a função de indicar os melhores sopros de vento contra-alísios aos navios ancorados na baia, principalmente às Frotas que esperavam sair.

A alegórica figura de mulher está inspirada na moura Giralda da Catedral de Sevilha. Em sua mão direita porta leva uma varinha que tem numa ponta o símbolo da cruz da Ordem Militar espanhola de Calatrava. A outra mão está no quadril esquerdo e tem a cabeça erguida, a maneira de orgulho e flerte. Nada, que a dama do Castelo da Força é um abacaxi.

De seu nascimento em 1630, provocou os mais diversos mitos e lendas. Para povoadores de outrora, a imagem sugeriu a representação de Vitória. Mas a mais bonita de todas as estatuarias tem origem muito antes da própria criação, quando dona Isabel de Bobadilla, filha do conde de la Gomera, e esposa de Hernando de Soto, foi investida de governadora de Cuba. Acontece que De Soto partiu em 1538 para a conquista da Flórida e na procura da Fonte da Juventude e apressado, diante do ambicioso projeto, deixou sua esposa ocupando o cargo. Daí que Isabel se tornasse a única mulher que governou Cuba.

De Soto não encontrou a Fonte da Juventude e mordido pelos mosquitos morreu à beira do Mississippi. Por seu lado, Isabel caiu no desespero e absoluta tristeza. Por isso, dia e noite oteava o horizonte da baía havanesa à espera do amado. Um dia, cansada e decepcionada, arrumou a tralha e foi para as Canárias, sem dar razão de tal assunto.

Depois de um tempo, os vizinhos da capital cubana converteram-na em fantasma e por isso, nas noites de lua cheia, viam-na flutuar, tal qual pintura de Chagal, no Castelo da Força e na baía. A lenda se fortaleceu quando apareceu a Giraldilla em pé na torre Real.

Então disseram que era dona Isabel feita em bronze, girando segundo o vento, e obstinada na busca visual do remoto governador espanhol. Enquanto para outros, a dama do Castelo evocava o destino das Frotas do Novo Mundo, Sevilha, até onde navegavam, contra os ventos alísios, os comboios do tesouro arrebatado a incas e astecas.

O Castelo da Real Força dá pano para manga. Foi a segunda importante fortaleza das Índias e a primeira edificada na Chave do Novo Mundo. Logo depois de sua terminação, o castelo serviu de fundo à primeira encenação em Cuba, a comédia Os bons no céu, e os maus no chão, na noite de São João, em 1598. Contam que o público não parava de fazer barulho e o governador, incômodo, disse que mandaria ao cepo quem não fizesse silêncio. Quando a obra finalizou a uma hora da madrugada, o público começou a gritar: que comece de novo, que comece de novo.

O porquê desta fortaleza? Finalizava o século 16. Os reis da Espanha desautorizaram as viajens em solitário das naus que do Novo Mundo, América, levavam as mercadorias preciosas que partiam de Cartagena, Veracruz ou Portobelo. Tal fato fez com que Havana ganhasse súbita relevância militar, pois todos os navios deviam se reunir no porto de Carenas para atravessar os oceanos em comboio até Sevilha. Era 1543.

Desta maneira, a ousadia de corsários e piratas ficou definitivamente derrotada, não seria possível o assalto no mar de uma frota, composta por não menos de dez naus. Precisou da urgente fortificação do porto de Carenas e da própia cidade de Havana, onde permaneciam os tesouros da coroa durante semanas, e às vezes, meses.

Por ordem do rei Felipe II da Espanha, em 1558, e no final do canal de entrada ao porto, começou a edificação do Castelo da Real Força, dirigida pelo engenheiro Bartolomé Sánchez e, três anos depois, a execução foi continuada pelo sevilhano Francisco Calona para concluí-la em 1577. Entretanto, prosseguiu a escavação do fosso que rodeia o castelo, até 1579. Em 1634, já contava com uma torre de vigilância mais alta. A partir daí e por caprichos dos chefes da fortaleza que ali viveram com a família, foi ampliado o andar superior. Hoje, a Força é sede de exposições de armas antigas e artesanatos dos tempos remotos. •
 

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