Ángela Oramas
Camero
• O Castelo da Real Força, situado
na área mais antiga de Havana, atrai a atenção das
centenas de turistas que o visitam a cada semana,
não apenas por sua arquitetura harmônica de
inspiração renascentista ou por ser a obra militar
mais antiga da cidade, mas também pela lenda que
envolve a artístico cata-vento giratório, a
Giraldilla, que coroa a torre de vigia.
Com o decurso dos séculos, ela se
converteu num dos mais grandiosos e fortes emblemas
da capital de Cuba. A estatueta hoje viaja pelo
mundo no rótulo do rum cubano, enquanto faz parte de
caprichosos suvenirs que evocam uma feliz estada em
Havana.
A obra original é exibida no próximo
Museu da Cidade, outrora Palácio dos Capitães-Generais.
Enquanto a reprodução principal é a que observamos
desde 1926 na Fortaleza, outra cópia foi enviada à
municipalidade de Sevilha em 1992.
A história em retrospetiva até 1630,
assinala o comandante da Ilha, Juan Bitrián de
Viamonte, quando pediu ao fundidor havanês Jerónimo
Martín Pinzón que realizasse o pequeno cata-vento em
bronze, a Giraldilla, a qual uma vez colocada na
torre de vigia cumpriu a função de indicar os
melhores sopros de vento contra-alísios aos navios
ancorados na baia, principalmente às Frotas que
esperavam sair.
A alegórica figura de mulher está
inspirada na moura Giralda da Catedral de Sevilha.
Em sua mão direita porta leva uma varinha que tem
numa ponta o símbolo da cruz da Ordem Militar
espanhola de Calatrava. A outra mão está no quadril
esquerdo e tem a cabeça erguida, a maneira de
orgulho e flerte. Nada, que a dama do Castelo da
Força é um abacaxi.
De seu nascimento em 1630, provocou
os mais diversos mitos e lendas. Para povoadores de
outrora, a imagem sugeriu a representação de Vitória.
Mas a mais bonita de todas as estatuarias tem origem
muito antes da própria criação, quando dona Isabel
de Bobadilla, filha do conde de la Gomera, e esposa
de Hernando de Soto, foi investida de governadora de
Cuba. Acontece que De Soto partiu em 1538 para a
conquista da Flórida e na procura da Fonte da
Juventude e apressado, diante do ambicioso projeto,
deixou sua esposa ocupando o cargo. Daí que Isabel
se tornasse a única mulher que governou Cuba.
De Soto não encontrou a Fonte da
Juventude e mordido pelos mosquitos morreu à beira
do Mississippi. Por seu lado, Isabel caiu no
desespero e absoluta tristeza. Por isso, dia e noite
oteava o horizonte da baía havanesa à espera do
amado. Um dia, cansada e decepcionada, arrumou a
tralha e foi para as Canárias, sem dar razão de tal
assunto.
Depois de um tempo, os vizinhos da
capital cubana converteram-na em fantasma e por isso,
nas noites de lua cheia, viam-na flutuar, tal qual
pintura de Chagal, no Castelo da Força e na baía. A
lenda se fortaleceu quando apareceu a Giraldilla em
pé na torre Real.
Então disseram que era dona Isabel
feita em bronze, girando segundo o vento, e
obstinada na busca visual do remoto governador
espanhol. Enquanto para outros, a dama do Castelo
evocava o destino das Frotas do Novo Mundo, Sevilha,
até onde navegavam, contra os ventos alísios, os
comboios do tesouro arrebatado a incas e astecas.
O Castelo da Real Força dá pano para
manga. Foi a segunda importante fortaleza das Índias
e a primeira edificada na Chave do Novo Mundo. Logo
depois de sua terminação, o castelo serviu de fundo
à primeira encenação em Cuba, a comédia Os bons
no céu, e os maus no chão, na noite de São João,
em 1598. Contam que o público não parava de
fazer barulho e o governador, incômodo, disse que
mandaria ao cepo quem não fizesse silêncio. Quando a
obra finalizou a uma hora da madrugada, o público
começou a gritar: que comece de novo, que comece
de novo.
O porquê desta fortaleza? Finalizava
o século 16. Os reis da Espanha desautorizaram as
viajens em solitário das naus que do Novo Mundo,
América, levavam as mercadorias preciosas que
partiam de Cartagena, Veracruz ou Portobelo. Tal
fato fez com que Havana ganhasse súbita relevância
militar, pois todos os navios deviam se reunir no
porto de Carenas para atravessar os oceanos em
comboio até Sevilha. Era 1543.
Desta maneira, a ousadia de
corsários e piratas ficou definitivamente derrotada,
não seria possível o assalto no mar de uma frota,
composta por não menos de dez naus. Precisou da
urgente fortificação do porto de Carenas e da própia
cidade de Havana, onde permaneciam os tesouros da
coroa durante semanas, e às vezes, meses.
Por ordem do rei Felipe II da
Espanha, em 1558, e no final do canal de entrada ao
porto, começou a edificação do Castelo da Real Força,
dirigida pelo engenheiro Bartolomé Sánchez e, três
anos depois, a execução foi continuada pelo
sevilhano Francisco Calona para concluí-la em 1577.
Entretanto, prosseguiu a escavação do fosso que
rodeia o castelo, até 1579. Em 1634, já contava com
uma torre de vigilância mais alta. A partir daí e
por caprichos dos chefes da fortaleza que ali
viveram com a família, foi ampliado o andar
superior. Hoje, a Força é sede de exposições de
armas antigas e artesanatos dos tempos remotos. •