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Só TEXTO  / Assinatura jornal impreso

C U L T U R A

Havana. 1 de outubro, de 2009    

Um século inteiro de poesia

Yuri Rodríguez

• A leitura do El siglo entero (O século inteiro), volume do pesquisador, ensaísta e poeta Virgilio López Lemus que, sob o selo da Editorial Oriente, circula nestes dias nas livrarias do país, poderia ser considerada de apaixonada.

Neste livro, abrangente e minucioso, o autor se propôs oferecer uma visão de como a poesia pode refletir os assuntos de identidade e ser assim motivo de identidade por suas particularidades expressivas, num século em que nossa produção poética contribuiu para as letras em língua espanhola vozes relevantes e diversas, como José Lezama Lima, Nicolás Guillén e Dulce María Loynaz.

É bom salientar que o prefácio deste livro espelha a situação da Ilha nos primórdios do século 20. A devastação do país por causa da contenda bélica de 1895, a frustração da independência, as intervenções norte-americanas de 1898 e de 1906, bem como a presença da Emenda Platt na Constituição da República, são questões fundamentais a levar em conta por quem indagar o entorno que influiu na criação poética do início do século 20 e que a diferencia da das outras nações hispano-americanas, segundo argumenta López Lemus.

López Lemus emprega um estilo direto e claro, carente de ambigüidades ou de outros excessos que impeçam a compreensão do leitor. Esse estilo, sem procurar rebuscar linguagem, está presente nos seis capítulos e nas conclusões, em que, de acordo com períodos cronológicos, está dividido este volume, onde predominam o requinte na escrita e fluxo ameno, aspectos que se constatam nos livros anteriores de López Lemus e que denota a premissa primordial deste escritor: estabelecer uma comunicação diáfana com seus leitores assíduos.

Consequentemente, para uma melhor compreensão do leitor, o escritor começa a maioria dos capítulos aprofundando as normas da poesia na etapa analisada, as tendências poéticas, as temáticas e as formas que imperavam, sem deixar de assinalar os acontecimentos do processo econômico, social e político do país, que transformaram ou modificaram o ser nacional e, cuja marca ficou plasmada na obra poética.

López Lemus detém-se em cada capítulo para confirmar a repercussão que teve para a produção poética insular do momento, tanto as visitas de poetas, como Rubén Darío, Federico García Lorca e Juan Ramón Jiménez, Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Ernesto Cardenal, entre os mais renomados, como também a difusão de escritores ibero-americanos e de outros países, quer seja pela publicação de seus livros de poesia na Ilha, quer pela de textos seus nas revistas literárias da época.

Estes capítulos terminam com uma retrospectiva dos livros de poesia publicados ano após ano. Além disso, inclui a avaliação de obras de autores atualmente pouco conhecidos, das quais precisa saber seus sucessos ou limitações dentro do desenvolvimento da lírica nacional e, por outro lado, corrobora as contribuições daqueles livros de poesia que transcenderam por sua importância no corpus poético de Cuba.

Satisfaz também que, à vezes, López Lemus reflete aspectos não levados em conta pela crítica tradicional. Por exemplo, ao avaliar a produção neo-romântica de Montasgú y Galarraga, considerada em geral de pouca feitura e irrelevante, ele acha que contém um fundo renovador no despertar erótico da poesia, nas ânsias de uma expressão mais sincera da carnalidade.

Noutras ocasiões, sugere temas ainda não abordados, porém muito interessantes, como a comparação entre as semelhanças e diferenças entre Nicolás Guillén e Gastón Baquero, donos de mundos poéticos significativos.

Virgilio López Lemus confessou a dívida do El siglo entero, com dois de seus volumes anteriores — o ensaio Palabras del trasfondo. Estudio sobre el coloquialismo cubano (1988) e a antologia Doscientos años de poesía cubana. 1790-1990. Cien poemas antológicos (1999) — em que, segundo ele, há anos, já se estava criando subterraneamente este livro.

Este volume, de síntese orgânica, alheio aos estereótipos e sem pretensões concludentes, que se acrescenta às pesquisas da poesia como expressão da cubanidade no século 20, que, sem dúvida, contribuirá para nos conhecermos melhor, agora está ao dispor dos leitores. •

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