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A vergonhosa história da OEA
Surgimento e trajetória da Organização dos Estados
Americanos. Papel desempenhado na região.
Cumplicidade e legitimação interamericana das
agressões dos EUA contra o povo cubano. O combate de
Raúl Roa pela dignidade. A OEA deve ser desmantelada
como única opção libertadora atual. Cuba jamais
reingresará
Oscar Sánchez Serra
DESDE seu surgimento como nação, os Estados Unidos
da América sempre contrapuseram ao ideário de
unidade e integração latino-americana sua pretensão
de dominação continental, ambição expressa, em 2 de
dezembro de 1823, na conhecida Doutrina Monroe,
resumida na frase “América para os Americanos”.
Não foi até o último quarto do século 19 que essa
filosofia pôde pôr-se em prática, quando a indústria
estadunidense cresceu como nenhuma outra, até se
tornar uma potência com ascensão acelerada, com o
qual pretendia não só dominar o continente, mas
também criar as condições para se lançar à luta por
uma nova partilha do mundo.
No
final de 1889, o governo norte-americano convocou a
Primeira Conferência Pan-Americana, que foi o ponto
de partida do “pan-americanismo”, visto como o
domínio econômico e político da América sob uma
suposta “unidade continental”. Isso levava à
atualização da Doutrina Monroe, no momento em que o
capitalismo norte-americano chegava a sua fase
imperialista. José Martí, testemunha excepcional do
surgimento do monstro imperialista, perguntava-se a
propósito daquela Conferência: Para que ir de
aliados, no melhor da juventude, na batalha que os
EUA se preparam para travar com o resto do mundo?
E tinha razão, entre 1899 e 1945, durante oito
conferências similares, três reuniões de consulta e
várias conferências sobre temas especiais, foi-se
estabelecendo o avanço da penetração econômica,
política e militar dos EUA na América Latina.
AUGE DO PAN-AMERICANISMO MONROÍSTA
No final da Segunda Guerra Mundial, da qual os EUA
saíram beneficiados, começa uma etapa de auge do
Pan-americanismo e do Sistema Interamericano que vai
desde a Conferência de Chapultepec, em 1945,
passando pela criação da OEA, em 1948, até a invasão
à República Dominicana, em 1965, consolidando-se a
subordinação dos governos do continente à política
externa dos EUA.
Por tal motivo, a Conferência Interamericana sobre
Problemas da Guerra e da Paz, em Chapultepec, em
março de 1945, teve um objetivo político definido:
juntar os países da região para enfrentar o processo
que viria com a criação da ONU.
Em consequência disso, na Conferência de São
Francisco, em abril de 1945, na qual foi fundada a
ONU, a diplomacia norte-americana, apoiada pelos
países latino-americanos, defendeu a “autonomia”
para o Sistema Interamericano e conseguiu que no
artigo 51 da Carta da organização mundial se
preservasse a solução das controvérsias mediante
métodos e sistemas “americanos”. A interpretação do
Conselho Diretivo da União Pan-Americana foi que tal
Carta nasceu compatível com o Sistema Interamericano
e a Ata de Chapultepec.
Em agosto de 1947, a Conferência Pan-Americana do
Rio de Janeiro aprovou uma resolução que deu origem
à ferramenta que daria vida à cláusula de
permissividade arrancada à ONU: o Tratado
Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), que
reafirmava o princípio de “solidariedade”
continental utilizado por Washington, com vista a
enfrentar qualquer situação que pusesse em perigo
“sua paz” na América e adotar as medidas
necessárias, inclusive, o uso da força. Com o TIAR,
foi imposta a decisão ianque no continente,
constituindo uma ameaça permanente para a soberania
dos países latino-americanos.
Entre 30 de março e 2 de maio de 1948, a Conferência
Internacional Americana de Bogotá, deu vida à
Organização dos Estados Americanos (OEA). Quando se
realizava essa reunião, foi assassinado o líder
liberal colombiano Jorge E. Gaitán, com muito
arraigo popular, fato que motivou a grande revolta
conhecida como o “Bogotazo”, brutalmente reprimida e
que serviu para manipular o curso e os resultados da
Conferência, pois os EUA promoveram a ameaça que
significava para a democracia o “auge” da União
Soviética e do comunismo, que culpavam pelas mortes
do Bogotazo.
Mas, tanto a Conferência do Rio quanto a de Bogotá
agravaram os problemas econômicos na América Latina,
cujos países, — entusiasmados com o Plano Marshall
para a Europa — começavam a exigir um de assistência
para a região. Contudo, o próprio secretário de
Estado, George Marshall encarregou-se de
defraudá-los.
Da discussão e adoção da Carta da OEA surgiu um
extenso documento de 112 artigos, assinado pelos 21
países participantes do encontro em Bogotá. A Carta
aprovou alguns dos princípios cardinais e justos do
Direito Internacional, porém, a pedido de
Washington, incluíram-lhe disposições que
transferiram à OEA os postulados principais do TIAR,
por tal motivo, desde seu nascimento, a OEA foi o
instrumento jurídico ideal para a dominação
estadunidense no continente.
Sua retórica diplomática relativa aos postulados
sobre a independência e soberania das nações e os
direitos do homem e dos povos, ficaram como letra
morta.
PÁGINAS DE UM DOSSIÊ SANGRENTO
Em 1954, a Guatemala foi invadida por tropas
mercenárias organizadas pela CIA, que derrubaram o
governo de Jacobo Árbenz. A OEA tinha aprovado uma
resolução que introduzia a possibilidade de
intervenção coletiva regional, violando sua Carta e
a da ONU. Diante disso, o organismo limitou-se a
“deixar agir” os EUA e adiou a análise da situação,
ignorando os interesses do país agredido.
Sua atuação contra Cuba desde o triunfo
revolucionário, o apoio à invasão da Baía dos Porcos
em 1961, as ações levadas a cabo na ordem política e
diplomática para nos isolarem, que terminaram com a
expulsão do nosso país em janeiro de 1962 e com a
ruptura das relações diplomáticas dos países da
região com Cuba, demonstravam tanto ódio, que
colocou a organização ainda mais em entredito.
Em abril de 1965, os fuzileiros ianques
desembarcaram em Santo Domingo para impedir a
iminente vitória do movimento popular
constitucionalista sobre as forças da reação
militarista. A OEA enviou seu secretário-geral, o
uruguaio José A. Mora, à capital dominicana com o
aparente propósito de conseguir uma trégua entre os
beligerantes, enquanto o Órgão de Consulta dilatava
a decisão, para facilitar que as forças militares
ianques tomaram o controle da situação. Depois de
múltiplas diligências, os Estados Unidos
conseguiram, por estreita margem de um voto, a
aprovação de uma resolução que dispôs a criação de
uma Força Interamericana de Paz, tendo lugar, pela
primeira vez, sob a anuência da OEA, uma intervenção
coletiva num país da área.
A OEA, que tinha entre seus postulados básicos o
princípio de não-intervenção de nenhum Estado nos
assuntos internos de outros, continuava em crise.
Em março de 1982, teve lugar a intervenção britânica
que deu início à Guerra das Malvinas e à primeira
agressão de uma potência extracontinental contra um
país do Sistema Interamericano, o qual, segundo o
TIAR, devia exortar à solidariedade continental ao
país agredido. E que aconteceu..? Os Estados Unidos
apoiaram política e militarmente a Grã-Bretanha e
impuseram sanções econômicas à Argentina. E que fez
a OEA? Adotou uma leve resolução apelando ao fim do
conflito, e só um mês depois foi que condenou o
ataque armado e instou os EUA a suspenderem de
imediato as medidas aplicadas à Argentina”.
Em outubro de 1983, um golpe militar derrubou o
primeiro-ministro de Granada, Maurice Bishop,
assassinado pelos golpistas. Os EUA enviaram a
Granada uma força invasora de 1.900 fuzileiros para
tomar o controle da ilha. O princípio de
não-intervenção era novamente violado. Na OEA, a
maioria aprovou essa ação como “medida preventiva”,
enquanto outros a rejeitaram. Finalmente, a invasão
foi condenada por transgredir a Carta de Bogotá.
A BANCARROTA DO PAN-AMERICANISMO
O fim da chamada Guerra Fria e o colapso da URSS
mudaram a geopolítica mundial e, a OEA, a pedido dos
Estados Unidos, tentou readaptar-se com o objetivo
de ser mais fiel às oligarquias, por tal motivo, em
1991 começou a promover os preceitos da democracia
representativa burguesa e do neoliberalismo. Sob
essas bandeiras, nasceram as Cúpulas das Américas,
por iniciativa dos EUA, as quais outorgaram
renovados mandatos à organização.
Neste momento, sobressai a criação da Carta
Democrática Interamericana em 1992, que levou a
nível de tratado a imposição do unipolarismo na
região, quer dizer, a OEA não mudou de rosto, pois
diante do golpe militar no Haiti, que derrubou o
presidente Jean-Bertrand Aristide, demonstrou o
mesmo grau de incapacidade e putrefação. Delegou o
tema ao Conselho de Segurança da ONU, que aprovou
uma força militar multinacional, liderada pelos EUA.
No século 21, ninguém duvida da irrelevância,
obsolescência e descrédito de uma organização que
tem sido cúmplice dos principais crimes de Estado
acontecidos na América Latina e no Caribe na segunda
metade do século 20. Apesar de que nalgumas ocasiões
os EUA a relegou, jamais a pôs de lado. Os EUA
precisam da OEA para influir e dividir a região e
para frear a consagração de seu único, inevitável e
verdadeiro destino histórico: a integração martiana
e bolivariana de seus povos.
A OEA CONTRA CUBA
Em 18 de março de 1959, dois meses e meio depois da
vitória popular de 1º de janeiro, o novo embaixador
de Cuba na Organização dos Estados Americanos, Raúl
Roa García, expressou a posição que definiu a
relação entre a triunfante Revolução e o organismo
hemisférico: (...) Em longos anos não se tinha
levantado e escutado a voz genuína de Cuba no
Conselho da OEA (...) É bom lembrá-lo pela sua
novidade histórica e pelo óbvio estímulo aos povos
ainda oprimidos. O derrubamento de uma tirania
mediante a luta armada não é um fato insólito na
nossa América, no entanto, a que derrubou a tirania
de Fulgencio Batista, sim é.
Esta posição cubana partia do conhecimento de sua
liderança revolucionária sobre a breve e triste
história da OEA nessa época, a serviço dos EUA, que
desde 1959 projetou um plano para utilizar a
organização contra a Revolução e contra o nosso
povo. Até esse momento, nenhum mecanismo
multilateral ou regional tinha feito ou tentado
fazer mais dano a um país que o que a OEA impôs a
Cuba.
A denominada “questão cubana” ocupou lugar
prioritário na agenda da OEA e, segundo os
interesses dos EUA, começou a colocar as bases para
o isolamento político-diplomático de Cuba e a
ativação do Tratado Interamericano de Assistência
Recíproca (TIAR), para tentar “legitimar” uma
agressão militar direta contra Cuba.
Em agosto de 1959, os governos do Brasil, Chile,
Estados Unidos e Peru, fizeram a convocatória para
uma Reunião de Consulta de Ministros das Relações
Exteriores para abordar a situação no Caribe. A
Revolução cubana havia promulgado a Primeira Lei de
Reforma Agrária, eliminando os grandes latifúndios,
entre os quais, os da United Fruit, onde tinham
interesses econômicos os irmãos Allan Dulles,
secretário de Estado e Foster Dulles, chefe da CIA.
A 5ª Reunião de Consulta, em Santiago do Chile, não
adotou nenhum documento condenando nosso país, mas
criou o “âmbito conceitual” que serviria aos
propósitos da política ianque contra o nosso país,
estabeleceu a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos e a Comissão Interamericana de Paz recebeu
novas faculdades, o qual fazia parte da estratégia
de criação ou aperfeiçoamento de ferramentas para a
aplicação de diretivas ianques contra Cuba no seio
da OEA.
Efetuaram-se várias reuniões e Roa, prevenido dos
objetivos desses encontros sobre o Caribe, declarou,
primeiro em Washington: O governo de Cuba tem
certeza de que todas essas acusações visam (...)
criar um ambiente internacional hostil, e organizar
em Cuba uma conjura internacional de tipo
intervencionista, para intervir, obstaculizar ou
fazer fracassar o desenvolvimento da Revolução
Cubana. Depois, em San José, reafirmou suas
palavras com uma acusação reveladora: Se o
objetivo é fazer justiça, deveriam sancionar-se,
conjuntamente, Trujillo e o governo dos Estados
Unidos.
CONJURA E VINDICAÇÃO EM SAN JOSÉ
De 22 a 29 de agosto de 1960, teve lugar em San
José, Costa Rica, a 7ª Reunião de Consulta. Entre os
pontos da agenda, aparecia o fortalecimento da
solidariedade continental e do sistema
interamericano, especialmente diante das ameaças de
intervenção extraterritorial, e a consideração das
tensões internacionais existentes na região do
Caribe, para garantir a harmonia, a unidade e a paz
da América, e outros.
A reunião adotou uma Declaração que nos seus
parágrafos operativos 4 e 5 assinalava:... o
Sistema Interamericano é incompatível com toda forma
de totalitarismo e a democracia somente conseguirá a
realização de seus objetivos no continente quando
todas as repúblicas americanas adequem sua conduta
aos princípios enunciados na Declaração de Santiago
do Chile e todos os Estados-membros da organização
regional têm a obrigação de se submeter à disciplina
do sistema interamericano, voluntária e livremente
acertada e que a firme garantia de sua independência
política procede da obediência às disposições da
Carta da Organização dos Estados Americanos.
Em San José ficaram estabelecidas as condições
necessárias, conforme os termos ianques, para impor
a exclusão do governo cubano. À maneira de protesto,
ao anunciar a decisão de se retirar daquele
vergonhoso conciliábulo, o chanceler Roa sentenciou
com uma memorável e contundente frase a ruptura
definitiva com a OEA: (...) Os governos
latino-americanos deixaram Cuba sozinha. Vou embora
com meu povo, e com meu povo vão embora também os
povos da nossa América.
Em resposta aos resultados da reunião de San José,
mais de um milhão de cubanos reunidos na Praça da
Revolução, numa histórica Assembleia Geral do Povo
de Cuba, adotaram a Primeira Declaração de Havana,
mediante a qual foram rechaçadas as pretensões
hegemônicas dos EUA contra Cuba, sua política de
isolamento contra nossa nação e o servilismo da OEA
ante essas patranhas.
A EXPULSÃO E A TENTATIVA DE ISOLAMENTO
Em dezembro de 1961, o Conselho Permanente da OEA
decidiu, a pedido da Colômbia, convocar a 8ª Reunião
de Consulta de Ministros das Relações Exteriores
para janeiro de 1962 (de 23 a 31), em Punta del
Este, onde foram adotadas nove resoluções, quatro
delas contra Cuba, mas a 4ª era a “jóia” da OEA,
intitulada Exclusão do atual governo de Cuba de
sua participação no Sistema Interamericano, que
era a máxima aspiração ianque para deslegitimar no
âmbito político e diplomático nossa Revolução. A
resolução foi aprovada com 14 votos a favor (os
Estados Unidos tiveram que comprovar o voto do Haiti
para obter a maioria mínima), um contra — Cuba — e
seis abstenções: Argentina, Brasil, Bolívia, Chile,
Equador e México. As duas últimas nações expressaram
que a expulsão de um Estado-membro não procedia,
pois não existia uma reforma prévia da Carta da
organização.
O presidente de Cuba nessa época, Osvaldo Dorticós,
levantou a bandeira que tinha alçado antes, naquele
mesmo cenário, o chanceler Roa e expressou: (...)
Se o objetivo é que Cuba se submeta às determinações
de um país poderoso, se o objetivo é que Cuba
capitule, que renuncie às aspirações de bem-estar,
progresso e paz que anima sua Revolução socialista e
entregue sua soberania, se o que tentam é que Cuba
rejeite países que têm demonstrado uma amizade
sincera e respeito cabal; se o objetivo é escravizar
um país que conquistou sua liberdade, depois de
século e meio de sacrifícios, é bom saiberem de uma
vez: “Cuba não capitulará. (...) Viemos aqui
convencidos de que se tomaria uma decisão contra
Cuba, mas isso não afetará o desenvolvimento da
nossa Revolução. Viemos aqui para passar de acusados
a acusadores, para acusar o culpado, que não é outro
que os Estados Unidos. (...) A OEA é incompatível
com a eliminação do latifúndio, com a nacionalização
dos monopólios imperialistas, com a igualdade
social, com o direito à educação, com a erradicação
do analfabetismo (...) e nesse caso, Cuba não deve
estar na OEA (...) Poderemos não estar na OEA, mas
Cuba socialista estará na América, poderemos não
estar na OEA, mas o governo imperialista dos EUA
continuará contando a 90 milhas de suas costas com
uma Cuba revolucionária e socialista (...)
Derrotados na Baía dos Porcos, em 1961, fracassados
os planos da Operação Mangosta que levaram à Crise
dos Mísseis em 1962, com o bloqueio econômico,
comercial e financeiro já proclamado e com bandos
terroristas combatendo nas montanhas do Escambray,
aos Estados Unidos apenas restavam internacionalizar
sua abjeta política, para o qual utilizou a
9ªReunião de Consulta de Ministros das Relações
Exteriores, em Washington, em julho de 1964,
mediante uma resolução inspirada no TIAR, que já
tinha substituído a Carta da OEA, dispondo que os
governos dos Estados Americanos rompessem relações
diplomáticas ou consulares com o governo de Cuba.
Apenas o México manteve uma posição digna e não
acatou os desígnios do império.
A CARTA DEMOCRÁTICA E O FRACASSO DE UMA MÁ POLÍTICA
Precisamente, em 11 de setembro de 2001, quando
desabava o World Trade Center em Nova Iorque,
promulgou-se a Carta Democrática Interamericana, a
mais recente e solapada manobra ianque contra a Ilha
na OEA, que estabeleceu as regras que os países
tinham a obrigação de cumprir para serem membros do
bloco hemisférico. Antes não se podia ser
marxista-leninista; agora havia que adotar como
requisito a democracia representativa burguesa e o
“Deus Mercado”. No fundo, promovia-se, de forma
similar, a exclusão de Cuba.
Contudo, a Revolução chegou ao século 21 vitoriosa
do mais longo e cruento assédio que nenhum povo da
história da humanidade conhecera. É um símbolo de
que os poderes imperiais não são onímodos nem
eternos. A nobreza e a vontade do nosso povo são
reconhecidas em todo o planeta. A OEA havia
fracassado rotundamente.
Cuba tem fluidas relações diplomáticas com todas as
nações do hemisfério e foi aclamada no Grupo do Rio,
porque nenhum povo do continente jamais nos excluiu
. Nosso país não se amedrontou, não claudicou, não
mudou um ápice sua decisão soberana, não negociou
sua liberdade, sua independência e sua livre
determinação. Não é uma posição até a morte, é um
princípio, e foi ratificado pelo Chanceler da
Dignidade, Raúl Roa, em agosto de 1959, ao dizer:
(...)
A Revolução Cubana não está à direita nem à esquerda
de ninguém: está em frente de todos, com posição
própria e inconfundível. Não é terceira, nem quarta,
nem quinta posição. É nossa própria posição.
O FINAL DO MINISTÉRIO DE COLÔNIAS DOS ESTADOS UNIDOS
Em 2 de setembro de 1960, após se materializar a
conjura da OEA contra Cuba, em San José, Fidel
convocou o povo de Cuba a uma magna Assembleia
Geral, efetuada na Praça da Revolução José Martí, e
leu o histórico proclama conhecido como a Primeira
Declaração de Havana, em cujo oitavo e último
parágrafo dispositivo, definiu:
(...) A Assembleia Geral Nacional do Povo de Cuba
reafirma sua fé em que a América Latina irá logo
para frente, unida e vitoriosa, livre das ataduras
que convertem suas economias em riqueza alienada ao
imperialismo norte-americano e que lhe impedem ouvir
sua verdadeira voz nas reuniões, onde chanceleres
domesticados, fazem de coral infame ao amo
despótico. Ratifica, portanto, sua decisão de
trabalhar em prol desse destino latino-americano
comum, que permitirá aos nossos países edificar uma
solidariedade verdadeira, baseada na livre vontade
de cada um deles e nas aspirações conjuntas de
todos. Na luta por essa América Latina livre, frente
às vozes obedientes dos que usurpam sua
representação oficial, agora surge, com potência
invencível, a voz genuína dos povos, voz que abre
caminho nas entranhas de suas minas de carvão e de
estanho, de suas fábricas e usinas açucareiras, de
suas terras dominadas, onde rotos, cholos,
gaúchos, jíbaros, herdeiros de Zapata e de
Sandino, empunharam as armas da liberdade, voz que
revive em seus poetas, novelistas e estudantes, em
suas mulheres e crianças, em seus idosos desvelados.
A essa voz irmã, a Assembleia Geral Nacional do Povo
de Cuba respondeu: Presente! Cuba não falhará. Cuba
está aqui hoje para ratificar, perante a América
Latina e o mundo, como um compromisso histórico, seu
dilema irrenunciável: Pátria ou Morte.
Em meio aos aplausos e aprovação de mais de meio
milhão de braços, Fidel expressou: (...) Agora só
falta uma coisa. E com a declaração de San José, que
vamos fazer? O povo respondeu em coro: Rasgá-la!
Rasgá-la! Pegou aquela declaração vexatória e
rasgou-a diante da multidão. Ficavam claras as
coisas entre Cuba e a OEA. As palavras finais da
Declaração era a premonição do que ocorreria quase
meio século depois, ao ver a Revolução Cubana
estertorar a organização que se prestou para a suja
tarefa de coveiro imperial.
TERAPIA CONTRA O DESPRESTÍGIO
Desprestigiada e desvalorizada, em pleno ocaso do
império, encontrou sua salvação numa iniciativa do
presidente William Clinton, que em 1994 propôs as
cúpulas com todos os chefes de Estado e de Governo
do hemisfério, cuja organização, condução e
acompanhamento confiou à Organização dos Estados
Americanos, com o fim de resgatá-la da inópia em que
se encontrava.
Após a 4ª Cúpula das Américas (Mar del Plata 2004),
onde foi enterrada a Área de Livre Comércio das
Américas, a OEA recebia outra bofetada que passaria
a seu nefasto legado. Depois, seu silêncio, face à
incursão colombiana no Equador em 1º de março de
2008, também a abalou e, como outras tantas vezes, o
governo ianque amparou o fato, enquanto o Grupo do
Rio respondeu pela depauperada e velha dama,
deixando-a para sempre sem voz.
Durante a 5ª Cúpula, em Porto Espanha, Trinidad e
Tobago, em abril passado, a OEA também não soube
estar à altura da situação nos fatos que conduziram
à chacina de camponeses em Pando, Bolívia, em
setembro de 2008. Foi a jovem Unasul, a nova voz
vigorosa que vindicou os direitos dos ignorados de
sempre. Mais uma vez calou aquela que o agudo
Chanceler da Dignidade, Raúl Roa García, qualificara
de “ Ministério de Colônias” dos EUA.
Diante de uma realidade que já lhe é alheia, a OEA
deparou-se com a firme posição dos países da região
pela injusta exclusão de Cuba do encontro
trinitário. Nem ela nem seu secretário-geral, o
chileno José Miguel Insulza, conseguiram impedir que
o questionamento à política norte-americana em
relação à Ilha fosse o grande protagonista. Insulza,
alertou Fidel, não tinha consciência de que (...) O
trem passou há tempo, e ele ainda não sabe...
O que aconteceu ali demonstrou aos estadunidenses
(acostumados a não aprenderem com os fracassos) que
a América Latina e o Caribe vivem uma realidade bem
diferente da de 1960 e 1962, na qual a região
exercia como dócil cenário. A OEA e seu porta-voz,
Insulza, não o compreenderam, e repetiram a velha
prática de falar em nome do amo: os EUA têm vontade
de falar com eles (Venezuela e Bolívia). Mas deve
ser um diálogo sem condições. Muitos dos problemas
surgiram porque se elevaram condições. E isso é
verdade tanto no caso de Cuba quanto no dos outros.
Assim reencaminhava seus passos para o que foi o
centro da conflituosa relação entre Estados Unidos e
a região, inclusive Cuba: um diálogo com condições,
impostas por Washington.
A OEA impôs a dupla moral, a corrupção política e
administrativa, tornou ingovernáveis as democracias,
converteu-as em ditaduras e quando não prestaram
mais, transformou-as em democracias mais minguadas e
submissas ainda, pois na nova era neoliberal, com os
capitais oligárquicos transnacionalizados, estas
faziam parte de uma rede de poder muito mais
sofisticada, cujos fios não provinham
necessariamente das Casas de Governo o dos
Parlamentos, mas das corporações do continente.
SANGUE POR TODOS OS POROS
Washington e a OEA foram coerentes com seu tenebroso
passado quando perceberam as primeiras ameaças.
A organização que havia favorecido o golpe de Estado
de 1952 em Cuba, a que foi tão indeterminada face à
ação militar contra o governo constitucional de
Jacobo Árbenz na Guatemala; a que apoiou o sátrapa
Anastasio Somoza e, em 1961, não condenou a invasão
mercenária a Cuba, enquanto evitava toda crítica ao
golpe de Estado contra o presidente eleito do
Equador, Velazco Ibarra, continuava sendo exatamente
a mesma que auspiciava com sua indulgência a invasão
militar à República Dominicana em 1965 e o envio de
boinas verdes e armas à Guatemala em 1966, e à
Bolívia em 1967, ao passo que aplaudia as formaturas
de centenas de torturadores e repressores da Escola
das Américas do Canal do Panamá.
Contemplou os golpes de Estado patrocinados pelo
governo dos Estados Unidos no Uruguai, Argentina e
Chile. Ficou calada diante da morte de Salvador
Allende, diante do assassinato e desaparecimento
forçoso de milhares de sul-americanos durante a
tenebrosa Operação Condor. Não promoveu a paz na
América Central durante a década de 1980, num
conflito onde morreram quase mil pessoas. Não apoiou
as investigações para esclarecer a suspeitosa morte
do general Torrijos no Panamá, nem seus embaixadores
deixaram de tomar café quando as inglórias invasões
a Granada, em 1983, e ao próprio Panamá, em 1989.
Apoiou Pedro “El Breve”, durante as difíceis
jornadas que viveu a Venezuela em abril de 2002,
depois da tentativa golpista, vencida pela resposta
exemplar do povo, que resgatou seu presidente. Essa
atitude evidenciou até onde era capaz de chegar sua
hipocrisia e submissão ao poder imperial, ao não
aceitar o caráter genuíno do processo bolivariano
venezuelano, que lhe deu uma ótima lição, submetendo-se
como nenhum outro governo ao escrutínio de seus
eleitores, e sair vitoriosos.
A OEA, empenhada em questionar a legitimidade
democrática das eleições para favorecer a política
estadunidense de derrubar a Revolução Bolivariana,
pôs a nu toda a imoralidade da famosa Carta
Democrática.
Só faltava a este pútrido histórico o caso
particular da Bolívia, com abundantes e claras
evidências do comprometimento dos EUA numa guerra
suja para derrubar Evo Morales, o primeiro
presidente indígena da América. À OEA e ao senhor
Isulza sobrou pudor (?) para evitar chamar as
coisas pelo nome (golpe de Estado, por exemplo) e
preferiram indicar com linguagem arlequinada que
(...) na Bolívia ou se põe de imediato fim às
hostilidades e se inicia a negociação, ou a situação
ficará muito difícil (...). Em sua cumplicidade por
omissão, a OEA ignorou as suficientes evidências de
que a DEA e a CIA estavam por trás dos planos de
magnicídio na Bolívia.
ENTERRAR O PESTILENTO CADÁVER
Em toda esta longa história, há comprometimento
demais com a morte, o genocídio e a mentira para que
a OEA sobreviva a estes tempos. É um cadáver
político e deve ser enterrado quanto antes. No
entanto, não falta quem no seu afã de ressuscitar o
morto, procuram salvá-lo pela via de “perdoar a vida
a Cuba”, devolvendo-lhe o espaço do qual não deveu
ser privada. Não faltam sequer os tecnicismos, como
que, quem foi excluído foi o governo, e não o país,
como se a pessoa jurídica de um Estado pudesse ser
separada de sua mesma existência. A realidade é que
sem a OEA, os Estados Unidos perderiam um de seus
principais instrumentos político-jurídicos de
controle hegemônico sobre o hemisfério ocidental.
Desmantelar a OEA e fundar uma nova organização de
países latino-americanos e caribenhos, sem os EUA,
seria a única maneira para que América Latina e o
Caribe possam determinar seu destino sem porem em
perigo sua identidade e avanço realmente para uma
grande pátria unida, que Martí e Bolívar indicaram
como meta histórica.
Quanto a Cuba, não precisa da OEA. Não quer entrar
nela nem reformada. Escorre sangue e infâmia por
todos seus poros. Nunca voltaremos a esse vetusto
casarão de Washington, testemunha de tantas
vergonhas compradas e tantas humilhações. Raúl o
expressou com palavras de Martí: Antes de ingressar
na OEA, primeiro se unirá o mar do Norte com o Mar
do Sul e nascerá uma cobra de um ovo de águia.
A vergonhosa
história da OEA (I)
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