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Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

I N T E R N A C I O N A I S

Havana. 2 Maio de 2006 

 

UM PRIMEIRO DE MAIO CONTRA PROJETO DE
LEI ANTIIMIGRANTE
Os sem voz ocuparam praças e
cidades nos EUA

POR NIDIA DIAZ — do Granma Internacional

TAL e como tinha sido anunciado, neste 1º de Maio, Dia Internacional dos Trabalhadores, teve lugar no território dos Estados Unidos — único país do mundo onde não se comemora — um protesto nacional, apesar das medidas de coerção adotadas pela administração Bush.

Segundo informações da internet e correios eletrônicos, serão impostas aos empregados públicos multas e outras disposições disciplinares se aderirem à marcha e se se somarem à sui generis greve (não trabalho, não escola, não compras) que organizações de direitos humanos e de defesa dos imigrantes convocaram contra a Lei que o Congresso estadunidense está discutindo sobre os indocumentados e a emigração em geral.

Essas mesmas fontes, algumas das quais pediram anonimato, revelaram que aos estudantes hispânicos e de outras nacionalidades, bem como a seus pais, lhes serão impostas altas multas e a perda de alguns benefícios se permitem que seus filhos, como está previsto, deixem de freqüentar as escolas.

Medidas que, embora possam deter alguns, não impediram que os imigrantes tenham saído às ruas, aos milhares, para protestar contra as pretensões de aprovar uma lei que os criminaliza não só a eles mas também a seus empregadores, que prevê o aumento da repressão nas fronteiras e que lhes negará a cidadania a seus filhos, ainda que tenham nascido no território dos Estados Unidos.

Informações da agência Reuters indicam que desde o amanhecer muitas lojas fecharam voluntariamente para evitar distúrbios. Acrescenta que em Union Square, Nova York, seu mercado ao ar livre, normalmente buliçoso, operava de maneira muito mais reduzida que o habitual e que nas calçadas de Broadway, a maioria das lojas de produtos baratos de importação, normalmente caóticas, estava fechada.

"Todo mundo aqui é imigrante. O único americano autêntico é o índio", disse Rene Ochart, natural de Porto Rico, porteiro do elegante Hotel Pierre, no Upper East Side de Manhatan.

Entretanto, o diretor do Movimento Latino, Juan José Gutiérrez, advertiu que é impossível condenar um segmento da população a viver e trabalhar em condições de esclavos modernos, toda vez que a legislação que tratam de impor os xenófobos e a extrema direita política é baseada em extrair o suor dos imigrantes sem dar-lhes, sequer, a garantia, entre outras questões, de um dia serem cidadãos do país no qual contribuem para criar riquezas.

A luta é para conseguir a anistia e a eventual cidadania para esses milhões de indocumentados que ocupam as vagas de trabalho que o nacional loiro e anglo-saxão não quer.

Do que se trata neste Primeiro de Maio é de demonstrar o que significa para a economia norte-americana Um Dia Sem Imigrantes.

Nesse sentido, desde muito cedo, começaram a mobilizar-se desde Los Angeles até Nova York e ao redigir este comentário redes de televisão e agências de imprensa internacionais falavam que em Chicago as manifestações ultrapassaram as 300 mil pessoas, com a previsão de reunir, no fim da jornada, perto de um milhão.

Soube-se que a imensa maioria das companhias cancelaram a entrega e distribuição de mensagens e suspenderam as reuniões de negócios previstas para esse dia.

Uma das coisas que caracteriza o protesto desta segunda-feira é que os organizadores pediram aos participantes deixarem nas casas as bandeiras de seus respectivos países e levarem particularmente a americana, com o objetivo de enviar ao Legislativo e à Casa Branca a mensagem de que os Estados Unidos também é o país deles.

Os cartazes deixaram constância de uma consigna pontual: Hoje marchamos e amanhã votamos!

Na cidade de Aurora, a segunda com mais latinos no Illinois, depois de Chicago, milhares de imigrantes indocumentados lotaram as ruas. Ali, segundo declarou à mídia Lourdes Espinoza, ativista comunitária, "mais de 70% dos latinos donos de casas não têm seguro social e têm muitos problemas pelo que exigem a Dennis Hastert, congressista de Illinois e presidente da Casa dos Representantes, que escute a voz dos imigrantes, já que eles estão presentes.

Em Washington, uma das mais de cem cidades que se mobilizaram, milhares de manifestantes com bandeiras norte-americanas, escutaram discursos na Alameda Nacional, em frente do Capitólio.

Igualmente, em Atlanta, a concentração e marcha por um Dia Nacional de Ação pela Justiça na Imigração, reuniu dezenas de milhares de pessoas, enquanto em Dallas, Texas, 350 mil se reuniram no domingo.

Por seu lado, a CNN mostrou em seus noticiários milhares de cidadãos que marchavam cedo por avenidas de Nova Orleans e Los Angeles, com cartazes contra o projeto legislativo HR4437, conhecido como Lei Antiimigrante.

A agência mexicana Notimex informou que ao meio-dia da segunda-feira, 1º, mais de 5 mil imigrantes marcharam em Orlando, no centro da Flórida, embora esclarecesse que mais pessoas continuavam aderindo ao protesto.

Acrescenta a fonte que, de acordo com o canal 2 WESH, da televisão local, o reverendo John Book, evangelista estadunidense com um programa de televisão, foi preso ao início da marcha, acusado de ter violado uma propriedade privada e de se resistir à detenção sem violência, indicou a WESH em seu site da internet.

Ao menos centenas de policiais vigilavam a marcha, uma das previstas ao longo do estado da Flórida, de onde esta manhã partiu uma passeata, desde Homestead, no sul da cidade, enquanto outras deviam sair de Bell Glade, Fort Meers e Miami.

Estima-se que nesse estado residem 850 mil imigrantes indocumentados. Em Homestead, cidade rural da Flórida onde metade da população de 36 mil habitantes é composta por imigrantes, houve igualmente manifestações maciças contra o draconiano projeto de lei.

A agência AFP, por seu lado, refere-se ao temor crescente entre grupos de imigrantes que consideram que as autoridades podem adotar represálias e se produzam demissões maciças, pelo que informaram acerca da realização de "correntes humanas" e vigílias durante o almoço ou depois do trabalho ou na escola, neste 1º de maio. Isto é, embora freqüentando o trabalho ou a escola, mostraram sua firme recusa à controversa legislação.

Ainda, informou-se que o senador Barack Obama, único negro que integra a Câmera alta, subiu a um palanque improvisado sobre um caminhão do sindicato dos Teamsters, em Illinois, e falou à multidão acerca da necessidade de "tirar as pessoas das sombras" e oferecer-lhes um caminho à cidadania.

Na Califórnia, o estado com maior número de imigrantes nos Estados Unidos, informações da imprensa indicam que prevendo a greve, várias das maiores empresas decidiram fechar suas portas ou diminuir suas operações.

Nesse caso se encontram, entre outras, Goya Foods, a maior companhia de comidas hispânicas preparadas do país, a qual suspendeu as entregas. A Gallo Wines em Sonoma, Califórnia, dispensou 150 trabalhadores e a McDonald's reduziu o pessoal em alguns de seus restaurantes e disse que respeitará o direito de seus empregados de fazer greve.

Em Virgínia, Maryland, a Igreja católica, embora chamasse a não participar do boicote, pediu às igrejas dobrar os sinos em memória dos imigrantes que morreram tentando cruzar ilegalmente a fronteira.

Ainda sem ter acabado o dia, já se falava do sucesso da greve convocada e da existência de um movimento dos sem voz que cresce nas entranhas do império, ao que tanto o Legislativo quanto a Casa Branca terão, mais cedo ou mais tarde, que prestar atenção.

Eles, os hispânicos e os imigrantes em geral não estiveram sozinhos nesta imensa jornada de pressão para impedir a aprovação do injusto projeto de lei que converteria os imigrantes em criminosos e aos que pudessem entrar, a partir de sua aprovação, em esclavos modernos sem direito algum. Junto deles, em todas as capitais e cidades da América Latina marcharam seus irmãos, potenciais imigrantes, vítimas de um modelo político e econômico que os marginaliza e que não lhes dá outra opção que a de emigrar à procura do sustento que não encontram na terra que os viu nascer.
 

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