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14a
FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO
Aquarela (cultural) do Brasil em Havana
• Na
inauguração • Doação de livros • Palestra de
intelectuais • Lançamento de livros • Programa de
cinema, fotografia, teatro e música
POR
MIREYA CASTAÑEDA/ FOTOS DE ALBERTO BORREGO,
— do Granma Internacional
EM
muitas ocasiões, o discurso de abertura de um
festival, feira ou congresso, aponta para o que
acontecerá depois. Foi assim para a 14a
Feira Internacional do Livro, quando Tilden
Santiago, embaixador do Brasil, a qualificou de «festa
verdadeira da cultura», onde vão se «viver dias
inesquecíveis».
O
amor, satisfação e interesse dos brasileiros por ser
o país Convidado de Honra da Feira, evidenciou-se na
abrangência de sua cultura, de riqueza inigualável.
Livros, como é óbvio, e a presença de escritores de
relevo, de ministros e presidentes de instituições
culturais, mas também o presente de um amplo
programa cultural que abrange o cinema, as artes
plásticas, a música e o teatro.
Acontece que,
segundo a opinião do embaixador Santiago, a Feira de
Havana «é um monumento à mais importante capacidade
humana: a criação e o amor ao conhecimento»,
tornada, aliás, «numa ponte de união entre as várias
culturas».
Perante o
público assistente à cerimônia de inauguração,
efetuada na Praça de San Francisco de la Fortaleza
de San Carlos de la Cabaña, o diplomata brasileiro
afirmou que a presença desses artistas contribuirá
para «tornar ainda mais estreitos os fortes laços de
amizade que nos unem e que tiveram expressão genuína,
verdadeiras raízes na fundação, sustentadas no
melhor do pensamento e na criação dessa ligação que
orgulha entre Villa-Lobos e Carpentier, Portinari e
Nicolás Guillén; entre Glauber Rocha e Alfredo
Guevara, entre Leo Brouwer e Egberto Gismonti».
MENSAGEM DE
NIEMEYER
Foi também
escutada gratamente a mensagem enviada pelo grande
arquiteto Oscar Niemeyer, quem escrevera: «No
momento em que se realiza nesta cidade a Feira
Internacional do Livro, gostaria lembrar como a
heróica Revolução cubana se converteu numa das
páginas mais notáveis da história dos homens,
louvada entusiasticamente — ela e seu líder Fidel
Castro — pelos escritores mais eminentes de todo o
mundo. Ela constitui hoje um exemplo de coragem,
resistência e determinação para aqueles que lutam
contra as ameaças do imperialismo norte-americano.
DOAÇÃO DE 18
MIL LIVROS
A sala Manuel
Galich da Casa das Américas foi palco propício para
que Pedro Correia do Lago, presidente da Fundação
Biblioteca Nacional do Brasil, fizesse uma doação de
18 mil livros (cerca de 7 mil títulos de arte,
literatura, científicos e infantil e para jovens) à
própria Casa, à Biblioteca Nacional e ao Instituto
Superior da Arte.
A Biblioteca
Nacional do Brasil conserva a mais rica colecção
bibliográfica da América Latina, um fundo que atinge
mais de oito milhões de livros.
A Casa receberá
cerca de 2 mil volumes e é um reconhecimento do
Brasil ao seu trabalho extraordinário «na divulgação
de nossa cultura», afirmou Correia do Lago, durante
a singela cerimônia à que assistiram o poeta Thiago
de Mello, o cineasta Fábio Barreto e outras
personalidades de ambos os países.
Ao agradecer o
gesto, o presidente da instituição, Roberto
Fernández Retamar, disse que o primeiro volume da
colecção de Literatura Latino-americana da Casa,
iniciada há mais de 40 anos, foi Memórias
póstumas de Brás Cubas, de Joaquim Machado de
Assis.
Quanto à doação,
Thiago de Mello afirmou que instituição alguma «tem
feito mais pela integração cultural de Nossa
América» do que a Casa e anunciou que prepara uma
antologia de poeetas hispano-americanos vertida para
o português, que será outra contribuição para essa
obra de integração cultural. «Se eu não tivesse sido
capaz de aprender do coração latino-americano que
bate nesta Casa, não teria forças para fazer este
livro».
Entre os
títulos da 14a Feira Internacional do
Livro, sobressaem Poemas preferidos pelo autor e
seus leitores, de Thiago de Mello, publicado
pela editora Arte y Literatura. Enquanto isso, a
editora Casa das Américas reeditou Memórias
póstumas de Brás Cubas e lança Dona Flor e
seus dois maridos, de Jorge Amado; Perto do
coração selvagem, de Clarice Lispector; A
grande arte, de Rubem Fonseca e Benjamim,
de Chico Buarque.
A sala Nicolás
Guillén da antiga fortaleza colonial, acolheu o
encontro com o escritor Fernando Morais, de quem foi
lançado seu romance Olga, sobre Olga Benário,
parceira da vida e luta do líder comunista
brasileiro Luis Carlos Prestes, entregue pelo
ditador Getúlio Vargas à Alemanha hitleriana e
assassinada num campo de concentração.
FREI BETTO
EVOCA 20 ANOS DO LIVRO «FIDEL E A RELIGIÃO»
Nesse mesmo
espaço, Encontro com..., dirigido pela jornalista
Magda Resik, o teólogo, jornalista e escritor Frei
Betto ministrou uma maravilhosa palestra intitulada
«A razão crítica de Cervantes através da loucura de
D. Quixote», em comemoração ao 400o
aniversário dessa obra de repercussão universal.
Frei Betto
participou, aliás, na sala Fernando Ortiz, do painel
«Pensamento brasileiro do século 20», onde se
prestou homenagem a um grupo de cientistas sociais
desse país, entre eles, Florestán Fernández, Paulo
Freyre, Darcy Ribeiro e Celso Furtado.
Trata-se de
homens que renovaram a historiografia brasileira —
apontou — e referiu-se especialmente a Paulo Freyre,
com quem escrevera o livro A escola chamada vida,
sobre educação popular.
Grande amigo de
Cuba, Frei Betto evocou, num encontro com a imprensa,
os 20 anos da publicação de seu livro Fidel e a
Religião, resultante de uma longa entrevista com
o líder da Revolução cubana. E salientou o efeito
político e ideológico do texto. O livro foi editado
em 32 países e traduzido para 23 línguas.
Mostrou-se
muito satisfeito com a copiosa assistência do
público à Feira e manifestou seu agradecimento por
dedicá-la a seu país, que é — afirmou — «campeão da
desigualdade social, onde habitam mais de 180
milhões de pessoas, delas, 20 milhões são
analfabetas, o número per capita de livros é de 2,6
e as edições são pequenas e custosas».
Anunciou que,
em março, será lançado o livro 13 contos
diabólicos e um angelical. No estande do Brasil,
com representação de 85 editoras, há dois de seus
textos mais recentes: Lula, um operário na
presidência e Batismo de sangue.
ALÉM DO LIVRO
A fotografia
brasileira possui um espaço importante na festa do
livro e da literatura. No saguão do teatro Nacional
há uma exposição do artista da lente Paulo Laborne,
Mulheres do Brasil, enquanto no Amadeo Roldán
foi inaugurada uma amostra fotográfica sobre
Villa-Lobos.
A Orquestra
Sinfônica Nacional ofereceu em sua sede habitual, o
Amadeo Roldán, um concerto especial em homenagem a
Villa-Lobos, que contou com o violonista Turíbio
Santos (solista) e no palco do teatro nacional se
encenou a peça Lunario Perpétuo, de Antônio
Nóbrega.
A sétima arte
esteve de festa com três propostas: Cinema e
literatura brasileira, Cinema brasileiro
contemporâneo e Restrospectiva de Glauber Rocha.
Tanto arte,
quantro cinema música e literatura basileira, foram
comentados pelo embaixador Tilden Santiago: «Sabemos
da significação desta Feira Internacional do Livro.
No nosso caso, trabalhamos não só para promovermos o
mundo brasileiro das editoras, mas também para nos
comunicarmos com a cultura de nosso país».
Acontece que
tanto para o Brasil quanto para Cuba a cultura é
expressão da alma dos povos. |