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C U L T U R A

Havana.  9 Fevereiro de 2005

 

14a FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO
Aquarela (cultural) do Brasil em Havana
• Na inauguração • Doação de livros • Palestra de intelectuais • Lançamento de livros • Programa de cinema, fotografia, teatro e música

POR MIREYA CASTAÑEDA/ FOTOS DE ALBERTO BORREGO, — do Granma Internacional

EM muitas ocasiões, o discurso de abertura de um festival, feira ou congresso, aponta para o que acontecerá depois. Foi assim para a 14a Feira Internacional do Livro, quando Tilden Santiago, embaixador do Brasil, a qualificou de «festa verdadeira da cultura», onde vão se «viver dias inesquecíveis».

Aquarela (cultural) do Brasil em HavanaO amor, satisfação e interesse dos brasileiros por ser o país Convidado de Honra da Feira, evidenciou-se na abrangência de sua cultura, de riqueza inigualável. Livros, como é óbvio, e a presença de escritores de relevo, de ministros e presidentes de instituições culturais, mas também o presente de um amplo programa cultural que abrange o cinema, as artes plásticas, a música e o teatro.

Acontece que, segundo a opinião do embaixador Santiago, a Feira de Havana «é um monumento à mais importante capacidade humana: a criação e o amor ao conhecimento», tornada, aliás, «numa ponte de união entre as várias culturas».

Perante o público assistente à cerimônia de inauguração, efetuada na Praça de San Francisco de la Fortaleza de San Carlos de la Cabaña, o diplomata brasileiro afirmou que a presença desses artistas contribuirá para «tornar ainda mais estreitos os fortes laços de amizade que nos unem e que tiveram expressão genuína, verdadeiras raízes na fundação, sustentadas no melhor do pensamento e na criação dessa ligação que orgulha entre Villa-Lobos e Carpentier, Portinari e Nicolás Guillén; entre Glauber Rocha e Alfredo Guevara, entre Leo Brouwer e Egberto Gismonti».

MENSAGEM DE NIEMEYER

Foi também escutada gratamente a mensagem enviada pelo grande arquiteto Oscar Niemeyer, quem escrevera: «No momento em que se realiza nesta cidade a Feira Internacional do Livro, gostaria lembrar como a heróica Revolução cubana se converteu numa das páginas mais notáveis da história dos homens, louvada entusiasticamente — ela e seu líder Fidel Castro — pelos escritores mais eminentes de todo o mundo. Ela constitui hoje um exemplo de coragem, resistência e determinação para aqueles que lutam contra as ameaças do imperialismo norte-americano.

DOAÇÃO DE 18 MIL LIVROS

A sala Manuel Galich da Casa das Américas foi palco propício para que Pedro Correia do Lago, presidente da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil, fizesse uma doação de 18 mil livros (cerca de 7 mil títulos de arte, literatura, científicos e infantil e para jovens) à própria Casa, à Biblioteca Nacional e ao Instituto Superior da Arte.

A Biblioteca Nacional do Brasil conserva a mais rica colecção bibliográfica da América Latina, um fundo que atinge mais de oito milhões de livros.

A Casa receberá cerca de 2 mil volumes e é um reconhecimento do Brasil ao seu trabalho extraordinário «na divulgação de nossa cultura», afirmou Correia do Lago, durante a singela cerimônia à que assistiram o poeta Thiago de Mello, o cineasta Fábio Barreto e outras personalidades de ambos os países.

Ao agradecer o gesto, o presidente da instituição, Roberto Fernández Retamar, disse que o primeiro volume da colecção de Literatura Latino-americana da Casa, iniciada há mais de 40 anos, foi Memórias póstumas de Brás Cubas, de Joaquim Machado de Assis.

Quanto à doação, Thiago de Mello afirmou que instituição alguma «tem feito mais pela integração cultural de Nossa América» do que a Casa e anunciou que prepara uma antologia de poeetas hispano-americanos vertida para o português, que será outra contribuição para essa obra de integração cultural. «Se eu não tivesse sido capaz de aprender do coração latino-americano que bate nesta Casa, não teria forças para fazer este livro».

Entre os títulos da 14a Feira Internacional do Livro, sobressaem Poemas preferidos pelo autor e seus leitores, de Thiago de Mello, publicado pela editora Arte y Literatura. Enquanto isso, a editora Casa das Américas reeditou Memórias póstumas de Brás Cubas e lança Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado; Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector; A grande arte, de Rubem Fonseca e Benjamim, de Chico Buarque.

A sala Nicolás Guillén da antiga fortaleza colonial, acolheu o encontro com o escritor Fernando Morais, de quem foi lançado seu romance Olga, sobre Olga Benário, parceira da vida e luta do líder comunista brasileiro Luis Carlos Prestes, entregue pelo ditador Getúlio Vargas à Alemanha hitleriana e assassinada num campo de concentração.

FREI BETTO EVOCA 20 ANOS DO LIVRO «FIDEL E A RELIGIÃO»

Nesse mesmo espaço, Encontro com..., dirigido pela jornalista Magda Resik, o teólogo, jornalista e escritor Frei Betto ministrou uma maravilhosa palestra intitulada «A razão crítica de Cervantes através da loucura de D. Quixote», em comemoração ao 400o aniversário dessa obra de repercussão universal.

Frei Betto participou, aliás, na sala Fernando Ortiz, do painel «Pensamento brasileiro do século 20», onde se prestou homenagem a um grupo de cientistas sociais desse país, entre eles, Florestán Fernández, Paulo Freyre, Darcy Ribeiro e Celso Furtado.

Trata-se de homens que renovaram a historiografia brasileira — apontou — e referiu-se especialmente a Paulo Freyre, com quem escrevera o livro A escola chamada vida, sobre educação popular.

Grande amigo de Cuba, Frei Betto evocou, num encontro com a imprensa, os 20 anos da publicação de seu livro Fidel e a Religião, resultante de uma longa entrevista com o líder da Revolução cubana. E salientou o efeito político e ideológico do texto. O livro foi editado em 32 países e traduzido para 23 línguas.

Mostrou-se muito satisfeito com a copiosa assistência do público à Feira e manifestou seu agradecimento por dedicá-la a seu país, que é — afirmou — «campeão da desigualdade social, onde habitam mais de 180 milhões de pessoas, delas, 20 milhões são analfabetas, o número per capita de livros é de 2,6 e as edições são pequenas e custosas».

Anunciou que, em março, será lançado o livro 13 contos diabólicos e um angelical. No estande do Brasil, com representação de 85 editoras, há dois de seus textos mais recentes: Lula, um operário na presidência e Batismo de sangue.

ALÉM DO LIVRO

A fotografia brasileira possui um espaço importante na festa do livro e da literatura. No saguão do teatro Nacional há uma exposição do artista da lente Paulo Laborne, Mulheres do Brasil, enquanto no Amadeo Roldán foi inaugurada uma amostra fotográfica sobre Villa-Lobos.

A Orquestra Sinfônica Nacional ofereceu em sua sede habitual, o Amadeo Roldán, um concerto especial em homenagem a Villa-Lobos, que contou com o violonista Turíbio Santos (solista) e no palco do teatro nacional se encenou a peça Lunario Perpétuo, de Antônio Nóbrega.

A sétima arte esteve de festa com três propostas: Cinema e literatura brasileira, Cinema brasileiro contemporâneo e Restrospectiva de Glauber Rocha.

Tanto arte, quantro cinema música e literatura basileira, foram comentados pelo embaixador Tilden Santiago: «Sabemos da significação desta Feira Internacional do Livro. No nosso caso, trabalhamos não só para promovermos o mundo brasileiro das editoras, mas também para nos comunicarmos com a cultura de nosso país».

Acontece que tanto para o Brasil quanto para Cuba a cultura é expressão da alma dos povos.

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