Presos Políticos do Império| MIAMI 5      

     

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N o s s a   A m é r i c a

Havana, 5 Novembro de 2014

 

Não há restauração conservadora na América Latina

Alfredo Serrano Mancilla

ESTÃO tentando tudo, mas não conseguem. Pretendem fazê-lo os meios conservadores; os poderes econômicos fazem testes; anseia isso a velha direita mas com um novo relato; é a ambição que vem do Norte para continuar teledirigindo o Sul. Mas não. Não sabem como vencer nas eleições, fundamentalmente porque comentem uma grandíssima gafe: pensam que falam a outro povo, a um povo irreal que não habita cotidianamente nesses países nos quais já se produziram transformações sociais e econômicas em tempo recorde. Buscam novas fórmulas que abusam de uma imagem fresca, de um candidato mais jovem, com discurso pós-político, aparentemente carente de ideologia. E sempre sem querer entrar no confronto, como se a política fosse possível sem isso. O bando oposto à mudança de época pós-neoliberal na América Latina é consciente que é preciso lidar em um novo campo. O deslocamento no centro do novo eixo político é tão hegemônico que a própria direita busca se reinventar para disputar cada convocatória eleitoral. As novas lideranças regionais determinaram lavar sua narrativa abrindo mão daqueles temas como o investimento estrangeiro, a segurança jurídica, os tratados de livre comércio, os programas de austeridade. Não se atrevem em público nem sequer a questionar o papel do Estado em algumas áreas econômicas nem a interpelar as políticas públicas de redistribuição aplicadas em muitos países. Há alguns anos resolveram ir por outro caminho: não questionar o passado mas sim discutir o futuro, prometendo que "com eles tudo pode ser melhor"; e preferem realmente sintetizar toda sua crítica na insegurança cidadã, na falta de liberdade de imprensa, no tema do populismo (embora eles não saibam muito bem que querem dizer com isso). Contudo, deixam que sejam os grandes grupos da mídia os responsáveis e porta-vozes por dizerem aquilo de que "tudo está andando mal" embora correndo o risco de que essas afirmações não estejam em sintonia com o novo sentido comum de época. Esse jogo de papéis, às vezes, parece proporcionar resultados contraditórios. De fato, não chega a ser efetivo devido a que a imprensa opositora ainda acha que continua vivendo no passado neoliberal. Esta defasagem traz à baila as contradições do bloco conservador; os líderes da direita partidária opositora demonstram serem muito mais hábeis e flexíveis para mudar seu discurso do que a própria direita da mídia.

Até o momento, os conservadores continuam perdendo, apesar das tentativas de Capriles na Venezuela, de Rodas no Equador (venceu a prefeitura mas perdeu esmagadoramente na última eleição presidencial), de Doria Medina na Bolívia, de Marina Silva ou Aécio Neves no Brasil, e Lacalle no Uruguai (no primeiro turno). Muitos destes novos perfis seriam bons para qualquer filme de Hollywood, mas continuam sem vencer nas eleições. As últimas vitórias para derrocar um governo progressista só as conseguiram com golpes antidemocráticos, tanto nas Honduras como no Paraguai. Ainda continuam procurando fazê-lo com golpes disso que chamam de mercado; na Venezuela, com um dólar ilegal que ameaça constantemente, e com práticas usurárias do rentismo importador que submetem ao povo a uma inflação induzida; na Argentina com fundos que agem como abutres e com desvalorizações forçosas por práticas especulativas cambiárias ou enganosas. Vão continuar buscando por todo tipo de caminhos parademocráticos, mas também são condenados a buscar a fórmula para vencer nas urnas.

Depois da vitória rotunda recente de Evo Morales na Bolívia, reeleito por 61% dos votos, chega o triunfo de Dilma Rousseff no Brasil com 51,63%. A presidenta brasileira venceu por mais de três milhões de votos o representante do velho modelo neoliberal, Aécio Neves. Nem a genuína performance de Marina Silva no primeiro turno, nem o todo-poderoso esquema que defendeu Neves no segundo conseguiram banir o processo de mudanças no Brasil, iniciado com a vitória de Lula em 2002. São 14 anos, e é a quarta vitória consecutiva do Partido dos Trabalhadores, sem que a oposição possa tirar-lhes a vitória. Já não serve a explicação gasta de que "tudo se deve à bonança econômica mundial" ou ao "vento favorável"; são tempos de recessão econômica mundial e o apoio popular ao processo continua sendo majoritário. No Brasil, não é que tudo seja cor de rosa, mas as luzes predominam sobre alguma sombra; reduziu-se muito a pobreza nestes anos, e também a desigualdade, e melhoraram as condições econômicas e sociais de vida da maioria social. Isto não se consegue por arte de magia, mas havendo uma decisão política de mudar o modelo econômico democratizando-o e reinserindo-o mais soberanamente no mundo.

A este cenário é preciso adicionar o Uruguai porque — segundo dados oficiais — a Frente Ampla também é a força mais votada no primeiro turno (46,48%), sendo a máxima favorita para vencer no segundo turno contra a proposta neoliberal liderada por Lacalle Pou, em 30 de novembro próximo. Nesse país, nem o filho de um presidente da ditadura, Bordaberry (do Partido Colorado), nem o filho de um presidente da época neoliberal, Lacalle Pou (do Partido Nacional), puderam contra a proposta de continuidade das mudanças que vinha liderando Pepe Mujica. Portanto, a Aliança do Pacífico, como nova forma de integração neoliberal na América latina alentada pelos Estados Unidos e a União Europeia, terá que continuar esperando para ter novos achegados.

Por ora, o bloco de países progressistas continua sem perder eleições presidenciais. O chavismo com Nicolás Maduro na Venezuela, Cristina Kirchner na Argentina (à espera do que possa acontecer no ano próximo), Rafael Correa no Equador; Sánchez Cerén no El Salvador, Daniel Ortega na Nicarágua e, recentemente, Evo Morales na Bolívia. A última revalidação a obtem Dilma Rousseff no Brasil, e previsivelmente Tabaré Vázquez no Uruguai. Afinal, pode-se afirmar que o que há na América latina são tentativas de restauração conservadora, mas não restauração conservadora. (Extraído da Agência Latino-americana de Informação)•

 

 

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