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N o s s a   A m é r i c a

Havana, 31 Março de 2014

 

Mais médicos cubanos para os pobres do Brasil

Um país cuja importância para as gerações vindouras não podemos calcular, mesmo fazendo as mais ousadas combinações...
Stefan Zweig de seu livro BRASIL PAÍS DO FUTURO

Lisanka González Suárez-Fotos de Anabel Díaz Mena

SÃO as 2h da tarde e parece que não é domingo, dia de descanso e lazer. Os grupos de homens e mulheres vestindo batas brancas que vão e vem com a rapidez de quem pode perder o trem, fazem com que a Unidade Central de Colaboração Médica (UCCM), usualmente tranquila, pareça um fervedouro.

A subdiretora de Análises e Sistema e de Serviços Médicos da Unidade há quase 8 anos, Yvonne Rodríguez García, está atenta ao movimento, grande parte do qual parece girar em torno a ela. Mas evidentemente é incapaz de perder o controle, qualidade adquirida com certeza ao transitar da base por diversas responsabilidades nos serviços de saúde pública do país, passando por duas missões internacionais, no Paquistão e em Honduras, todo o suficiente para adquirir o prumo e a sensatez que se transbordam em momentos dum importante e priorizado encargo: “É que nesta semana devem sair para o Brasil todos os médicos que faltam”, explica-me. (Quando esta edição esteja circulando já devem encontrar-se no país sul-americano os 11.430 médicos cubanos que integram o Programa Mais Médicos e que estiveram chegando ali desde o segundo semestre de 2013).

Descarto a possibilidade de que a extração de tal quantidade de profissionais da saúde possa afetar a qualidade dos serviços aos pacientes cubanos, conhecendo de primeira mão a reorganização e transformações que estão acontecendo no sistema e o que refletem os indicadores: temos um povo saudável.

QUEM INTEGRA O PROGRAMA

Os médicos que fazem parte do programa de colaboração com o Brasil procedem de toda Cuba, e da mesma forma que os que integraram brigadas médicas noutras nações foram escolhidos a partir das propostas dos hospitais ou policlínicas onde trabalham, eleição fundamentada tanto na voluntariedade como na disponibilidade real, pois é requisito não suspender um serviço, como se assinalava antes. Além do anterior, mais de 80% dos escolhidos possuem uma experiência não menor a 15 anos, entretanto 100%  deles cumpriram ao menos uma missão no exterior, e aproximadamente 30% têm mais de uma. 

Ao país sul-americano vão trabalhar exclusivamente no atendimento primário de saúde em 4.070 municípios de seus 26 estados mais o Distrito Federal de Brasília e 32 distritos especiais indígenas.

Em julho de 2013, a presidente Dilma Rousseff lançou o programa “Mais hospitais e unidades de saúde, mais médicos e mais formação, que de acordo com informações de imprensa responde a demandas da população em quase todo o país. E onde se prioriza a contratação de médicos estrangeiros para ampliar o serviço do Sistema Público Único de Saúde.

A convocatória internacional para cobrir vagas em zonas rurais é uma solução compreensível se levarmos em conta que o Brasil tem um déficit de 54 mil médicos, o que afeta especialmente muitas zonas que não contam com um profissional da saúde.

Sobre isso, a presidente brasileira afirmou em 21 de março que os resultados produzidos pelo programa Mais Médicos evidenciam a decisão acertada do governo de garantir o atendimento de saúde a cidadãos de todo o país, segundo indica uma notícia da agência Prensa Latina.

“Sabia que ia ter muitas críticas — disse — mas tinha a certeza de que o povo brasileiro entenderia que estávamos no caminho certo”, de levar médicos brasileiros e estrangeiros a municípios do interior e às periferias das grandes cidades. E anunciou que no mês de abril contarão com 13.225 médicos, o que incrementará a cobertura a 46 milhões de pessoas.

DISPERSOS POR TODA A GEOGRAFIA BRASILEIRA

Os médicos cubanos gozam de reconhecimento mundial em todo o mundo não apenas por sua preparação mas também por sua qualidade humana. A comunidade que conta com um colaborador da Maior das Antilhas sabe que seus habitantes serão atendidos sem discriminação, em qualquer local onde sejam necessários, inclusive em locais inóspitos e recônditos, ainda quando chegar a eles ponha em risco suas vidas.

“Há pessoas hostis que tentam aproveitar situações intranscedentes, tergiversando-as ou exagerando-as”, aponta a doutora Rodríguez ao abordar o tema. Que podem representar um, dois ou três casos comparados com a atitude dos mais de 111 mil médicos que estão lá…? Já a população nos reconheceu. Sempre ocorreu assim, porque o colaborador cubano está mudando até estilos dentro do atendimento médico no Brasil.

Os profissionais da Ilha estão dispersos por toda a geografia brasileira, não nas grandes capitais dessas cidades, mas na periferia, isso foi um princípio básico da colaboração, estar nos lugares afastados e de difícil acesso.

“O Brasil não é apenas o que vemos nas telenovelas de que tanto gostamos, é muito mais, é um país tão grande quando um continente e cheio de contrastes”, ressalta Yvonne, e nossos médicos váo onde estão os mais pobres e carentes, o mesmo em toda a parte da Amazônia, que na periferia das cidades de Brasília,  São Paulo, Belo Horizonte, Vitória, Fortaleza, Bahia e outras mais”.

O enviado especial da Folha de São Paulo ao interior de Pernambuco, Daniel Carvalho, em sua reportagem sobre la demanda de médicos no interior do país, assim o reflete:

  “…A doutora cubana Teresa Rosales se surpreende  com a recepção de seus pacientes em Brejo da Madre de Deus, no distrito de São Domingos, região pobre e castigada pela seca no interior pernambucano. “Eles [pacientes] ficam de joelhos no chão, agradecendo a Deus. Dão beijos”, afirma a médica que atendeu 231 pessoas neste primeiro mês de trabalho dos profissionais que vieram para o Brasil pelo Programa Mais Médicos do governo federal.

 Algo tão natural para os médicos da Ilha, como atender a um camponês, a um indígena, fazer um reconhecimento físico para dar um diagnóstico adequado, é causa de assombro entre os mesmos pacientes, tal como o descreve o jornalista. 

“…Durante os últimos quatro anos, o posto não tinha o básico: médicos. Quem andava quilômetros de caminhos de barro até chegara à unidade de saúde sempre voltava para casa sem atendimento… As fileiras das consultas são longas. Foi Deus quem mandou esse homem, expressou, segundo o jornalista, a agricultora Maria Inácia Silva, 69 anos, que tinha visto um médico por última vez em 2005. Ela se declara impressionada pela forma em que foi atendida pelo cubano Nelson López, 44 anos, novo médico do povoado de Capivara, em Frei Miguelinho.

E Carvalho observa: “A diferença do atendimento está desde a organização dos móveis: o paciente se senta numa cadeira ao lado da mesa do médico para que o móvel não seja uma barreira entre eles...”.

Não surpreende que a própria presidente do gigante do Sul tenha recomendado recentemente em sua conta na rede social Facebook um artigo publicado no jornal G1 do estado da Bahia, que detalha o trabalho dos médicos cubanos que vão trabalhar nesse território.

NUNCA VAMOS RENUNCIAR À SOLIDARIEDADE

O presidente Raúl Castro falou durante o recente Congresso da Central dos Trabalhadores de Cuba sobre a importância da colaboração médica para a economia do país e anunciou que ao pessoal da Saúde Pública aumentaria o salário  “por quanto a renda fundamental do país nestes momentos obedece ao trabalho de milhares de médicos prestando serviços no exterior”, o que a partir do 1o. de junho se materializará com um alto incremento, segundo tornou público a imprensa nacional por estes dias.

“Muitas vezes — afirma a funcionária da Unidade Central de Colaboração Médica — repito que se a colaboração médica é a primeira entrada econômica do país é o fruto da grande visão que teve nosso comandante Fidel. Lembro quando disse que nós não temos nem ouro nem petróleo, o que temos é um pessoal bem formado, bem educado e com capacidade plena de ajudar aos outros. Na verdade o que faz um médico cubano no exterior não se paga com nada, mas se ajudamos de maneira muito direta o considero muito justo, mas hoje que estamos noutro momento não vamos renunciar nunca à solidariedade”. •

ENTREVISTAS
COMO SEMPRE O FIZEMOS
DIOSVANY JUNCO BRINGA. 43 anos, de Santa Clara, Villa Clara, especialista em Medicina Geral Integral, 20 anos de experiência. Foi diretor da policlínica “XX Aniversario” de sua cidade natal. Cumpriu missão em Belize e na Venezuela.

“A gente sente mais saudade pela família”, aponta em meio de seu curto tempo, pois na noite será o portador da bandeira do ato de despedida do grupo que partirá no dia seguinte.

De suas duas missões tem lembranças imperecedouros, embora ambas tenham sido bem diferentes. Em Belize trabalhou no hospital sede da capital, e como ele diz foi desarmado, pois o idioma foi um verdadeiro desafio... Mas o venci porque nós os cubanos crescemos perante as dificuldades. A Venezuela foi uma escola para mim, comecei como médico de consultório em Zulia, em Maracaibo, depois fui assessor dos consultórios de médicos populares e mais tarde assumi outras atividades, como chefe das missões nesse Estado.

Interesso-me por suas expectativas no Brasil: “O gigante da América do Sul, como a Venezuela, é um país de grandes contrastes, com uma população imensa e hoje do ponto de vista médico está desatendida. Tem um número significativo de profissionais da saúde mas estão concentrados nas capitais e aos bairros da periferia não vão e é para aí onde vamos e o faremos como mesmo o fizemos sempre.

MODIFICAR HÁBITOS NOCIVOS PARA A SAÚDE

•JUAN CARLOS CABRALES ARIAS, 47 anos, de Arroyo Naranjo, Havana, especialista em Medicina General Integral.

 Sempre se criam grandes expectativas em torno às missões, independentemente de que tenho já uma na Venezuela, onde estive mais de 7 anos até 2011. Após retornar estive trabalhando na Direção Provincial de Saúde de Havana.

No Brasil, espero, na medida em que seja possível com o trabalho de promoção e educação, sem modificar seus costumes, ajudar a eliminar alguns hábitos de vida nocivos para a saúde similares no mundo inteiro. Na Venezuela, fazíamos isso, praticamente sozinhos, na medida em que foi passando o tempo se prepararam promotores da comunidade e ministramos cursos a jovens nos quais nos auxiliávamos para esse trabalho. Isto é importante, sem modificar seus costumes, com muito respeito, mas orientá-los e ajudá-los. O problema fundamental do Brasil nestes momentos é que não tem o pessoal médico nalguns lugares, mas sim tem o a equipe básica que conhece bem a população.
 

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