Presos Políticos do Império| MIAMI 5      

     

Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

N o s s a   A m é r i c a

Havana, 30 Julho de 2014

 

China, Rússia, o Brics e a
América Latina

Miguel Guaglianone

A distribuição geopolítica do mundo está mudando cada vez mais rapidamente. A evidente e progressiva perda de poder das nações centrais (EUA e a União Europeia) se enfrenta a novos protagonistas mundiais que buscam e geram conexões e alianças para consolidar esse protagonismo.

A China está fazendo sentir esse protagonismo, mais do que com sua discreta atuação política em nível internacional (característica tradicional das relações exteriores, chinesas desde o próprio império celeste) através de seu crescente crescimento econômico, que a tornou na segunda potência do planeta, a seguir dos Estados Unidos, o possuidor do maior volume de Bônus do Tesouro estadunidense do mundo e concorrente triunfante em nível industrial e comercial.

O caso da Rússia é diferente, embora a Federação (a partir de sua singular economia) se consolidasse como exportador importante. Contudo, nos últimos tempos — e sob o hábil guia político de Vladímir Putin — conseguiu gerar uma grande capacidade para as relações internacionais, e acrescentou com isso seu poder político. O melhor exemplo disto, nos últimos tempos, foi sua intervenção no conflito sírio, com uma proposta política audaciosa que evitou o ataque aéreo a esse país por parte da Casa Branca, deixando sem argumentos o próprio Obama, fazendo mudar completamente a situação do conflito sírio.

Unidas a estas duas potências, as nações emergentes Índia, Brasil e a África do Sul, formam o grupo dos Brics, uma aliança estratégica que se fortalece a partir de novos acordos e decisões, e que se converteu num polo de poder capaz de enfrentar a hegemonia das potências centrais (sobretudo a dos Estados Unidos).

No caso da América Latina, o processo de integração iniciado com o século está "em pleno desenvolvimento", através do fortalecimento dos organismos multilaterais que nossas nações têm criado.

O Mercosul, Alba, Unasul e a Celac são as ferramentas que permitem as ações conjuntas dos nossos povos, abrindo o caminho para o sonho dos libertadores da Pátria Grande, e formando, a partir deste outro, um novo fator de poder no xadrez mundial.

E é curioso como estes movimentos contra hegemônicos se aproximam uns dos outros, como atraídos pelo propósito comum de levar o mundo ao sistema multipolar de equilíbrios geopolíticos, tendentes a formar uma rede que lhes permita potencializar-se mutuamente.

E não são só reflexões teóricas: o jogo final da Copa do Mundo no Brasil contou com a presença de pelo menos dez chefes de Estado do mundo todo. E não por acaso estiveram entre eles Vladímir Putin e Xi Jinping, presidentes da Rússia e da China.

Putin, culminando uma turnê sem precedentes por países latino-americanos, que incluiu Cuba, Argentina e o Brasil e uma visita não programada à Nicarágua. No caso de Cuba, a visita foi seguida à decisão prévia de perdoar 90% da dívida que este país tinha com a outrora União Soviética, desde a época da Guerra Fria. E a visita também incluiu uma entrevista pessoal de Putin com Fidel Castro, o líder histórico da Revolução cubana.

No caso de Xi Jinping, sua turnê latino-americana começou concluído o Mundial e incluía o Brasil, Argentina, Venezuela e Cuba, sendo esta sua segunda visita ao continente, um ano depois de ter estado na Costa Rica e no México. Depois, participou da primeira reunião de chefes de Estado do quarteto, que coordena neste período o trabalho da Celac (Costa Rica, Cuba, Equador e Antígua e Barbuda).

Os dois presidentes participaram da 6ª Cúpula do Brics que se realizou em Fortaleza, Brasil.

Todos estes vínculos de movimentos diplomáticos significam:

A importância que a América Latina tem hoje para a China e para a Rússia (por razões políticas, econômicas e comerciais),

A cada vez mais consolidada existência do Brics e suas relações com a América Latina.

A aproximação simultânea entre os novos atores do cenário mundial. E tudo isto, ante a impotência total dos EUA, para quem a América Latina (apesar das declarações de seu secretário de Estado) deixou de ser seu quintal, pois nada podem fazer ante o crescimento do poder dos Brics e a presença progressiva em nível mundial da Rússia e da China.

Como dissemos no início, estamos perante grandes mudanças na distribuição do poder no mundo e possivelmente a partir dessas mudanças seja possível manter a esperança de que poderemos evitar a destruição do planeta, para a qual o sistema imperante nos arrasta a todos.

O reacomodo do poder mundial pode constituir (sem nenhuma garantia de que assim será) uma forma de ajudar a deter o suicídio coletivo com o qual, tanto o sistema econômico como os fatores de poder que controlam o planeta desde o fim da Segunda Guerra Mundial, ameaçam a humanidade. (Excertos extraídos do Barômetro Internacional)
 

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