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Havana, 28 Maio de 2014

 

Novo governo de El Salvador ante o quebra-cabeça das gangues

Edgardo Ayala e Claudia Marroquin

EM 1º de junho, Salvador Sánchez Cerén, da esquerda, deve tomar posse da presidência de El Salvador, e com certeza encontrará rachaduras na trégua entre as gangues, que o governo anterior permitiu e que por dois anos manteve controlada a criminalidade.

 O pacto vive seu momento mais crítico desde sua criação, em março de 2012, com problemas na trégua, embora não na ruptura, pelo menos por agora.

 “Na medida em que se enfraquece o diálogo, aumenta a violência, e as novas autoridades deverão tomar a decisão de que o processo de paz entre as gangues continue”, disse à IPS um dos dois mediadores da trégua, Raúl Mijango. O outro foi o bispo católico Fabio Colindres.

 Sánchez Cerén, dirigente e governante da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), antiga guerrilha, durante a campanha eleitoral que terminou com sua vitoria, em 9 de março, disse que enfrentará este fenômeno com o que chamou a “mão inteligente”; uma mistura de repressão e prevenção.

 Até à chegada de Funes, em 2009, a estratégia contra a delinquência foi a de mão forte, sob os sucessivos governos da Aliança Republicana Nacionalista (Arena), que governou o país desde 1989.

 O novo governo deverá urgentemente reduzir os homicídios, não só como exigência da população, senão porque neste ano inicia a campanha eleitoral para as eleições de prefeitos e deputados de 2015, e o aumento dos crimes vai contra os candidatos da FMLN.

 Mara Salvatrucha e Barrio 18, as duas principais gangues do país, pactuaram há dois anos, o cessar das agressões mútuas e contra civis, policiais e militares.

 Por seu lado, o governo acedeu a transferir para prisões menos restritivas os líderes desses dois grupos.

 Desde então, os assassinatos diminuíram, de uma média de 14, para cinco por dia. O Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Delito informou, em maio, que durante o ano 2012 a taxa de homicídios salvadorenha diminuiu para 41,2 em cada 100 mil habitantes, diante dos 69,2 em cada 100 mil, do ano precedente.

 Porém, desde fevereiro deste ano, a criminalidade aumentou e a média diária de assassinatos beira atualmente os 10.

 Mais de 50% dos homicídios de El Salvador são cometidos por membros das gangues e 35% das vítimas pertencem também a esses bandos, segundo dados policiais, em números não verificados por organizações independentes.

 Calcula-se que existem 60 mil membros de gangues neste país, de 6,2 milhões de habitantes.

 O governo que conclui argumenta que o aumento dos crimes tem a ver com expurgos entre as duas frações que compõem Barrio 18, os sulistas e os revolucionários, em luta pelo controle territorial, que se resolve à bala nas comunidades do país onde têm presença.

 O presidente que termina, Mauricio Funes, disse num programa de rádio que a trégua praticamente estava interrompida, e seu ministro de Justiça e Segurança, Ricardo Perdomo, revelou que as gangues agora têm fuzis e armas de maior poder para enfrentar a polícia.

 Em 6 de abril, por exemplo, no município Quezaltepeque, no departamento La Libertad, um policial morreu e mais três foram feridos durante um ataque.

 Mas as grandes gangues salvadorenhas negam que o pacto tenha morto ou que existam pugnas, como a que indica Funes e seus colaboradores.

 “Apesar dos ataques recebidos, a trégua ainda se mantém”, segundo um comunicado tornado público, em 29 de abril e assinado por líderes de Mara Salvatrucha (MS), pelas duas frações de Barrio 18 e pelas gangues Mao Mao, La Maquina e Miradas Locos 13.

 “Vocês acham que se as duas frações estivessem em guerra, estaríamos agora juntos?”, questionou o representante dos sulistas.

 Contudo, estes porta-vozes reconheceram que a trégua não é perfeita, que há alguns que não acatam as diretrizes dos líderes presos ou na rua.

 Por essa razão, não negaram nem confirmaram que membros destes bandos tenham participado do ataque aos policiais em Quezaltepeque.

 De fato, também aceitaram que existe um conflito com um grupo dos revolucionários, no município de Zacatecoluca, no departamento de La Paz, o que estaria provocando uma violência pouco usual nessa zona.

 “Mas este conflito, de caráter local, não explica o aumento de mortos em nível nacional”, afirmaram.

“Nós mantemos o compromisso com a sociedade”, assinalou o porta-voz da MS.

 Contudo, o sacerdote católico Antonio Rodríguez, que tem trabalhado na reinserção de membros destes bandos no município de Mejicanos, bairro no norte de San Salvador, assinalou que o comunicado lido pelos três porta-vozes não representa a diretoria nacional das gangues.

 “Os sulistas estão incômodos com esse pronunciamento porque não é representativo”, assinalou o sacerdote, evidenciando as rachaduras do processo.

 Rodríguez foi inicialmente um crítico da trégua, depois a apoiou, junto a Mijango e Colindres, para posteriormente desligar-se deles.

 Agora, este sacerdote da congregação Pasionista aderiu ao esforço do ministro Perdomo para relançar o processo de pacificação entre gangues, onde também participam o bispo auxiliar de San Salvador, Gregorio Rosa Chávez, e representantes de igrejas evangélicas e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, entre outros.

 “É um pacto da sociedade civil, não entre gangues”, disse Rodríguez.

 Na entrevista coletiva clandestina, os dirigentes das gangues foram claros: “Fala-se da existência de dois processos de pacificação, nós somente reconhecemos um, o iniciado em março de 2012”. (IPS) 

 

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