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N o s s a   A m é r i c a

Havana, 21 Outubro de 2014

 

ELEIÇÕES BOLÍVIA
Por que venceu Evo?

Atilio A. Boron

A esmagadora vitória de Evo Morales tem una explicação muito simples: venceu porque seu governo tem sido, sem dúvida alguma, o melhor da convulsa história da Bolívia. “Melhor” quer dizer, naturalmente, que tornou realidade a grande promessa, tantas vezes descumprida, de toda democracia: garantir o bem-estar material e espiritual das grandes maiorias nacionais, dessa heterogênea massa plebéia oprimida, explorada e humilhada durante séculos. Não se exagera nada ao dizermos que Evo é o ponto de viragem na história boliviana: há uma Bolívia antes de seu governo e outra, diferente e melhor, a partir de sua chegada ao Palácio Quemado. Esta nova Bolívia, cristalizada no Estado Plurinacional, enterrou de vez a outra: colonial, racista, elitista que nada nem ninguém poderá ressuscitar.

 Um erro frequente é atribuir esta verdadeira proeza histórica à boa fortuna econômica que teria chegado para a Bolívia a partir dos “ventos favoráveis” da economia mundial, ignorando que pouco depois da ascensão de Evo ao governo, a economia mundial entrou em um ciclo recessivo do qual ainda hoje não conseguiu sair. Sem dúvida que seu governo fez um certeiro manejo da política econômica, mas o que segundo nossa opinião é essencial para explicar sua extraordinária liderança tem sido o fato de que com Evo se desencadeia uma verdadeira revolução política e social, cujo sinal mais destacado é a instauração, pela primeira vez na história boliviana, de um governo dos movimentos sociais.

 O MAS não é um partido no sentido estrito, mas sim uma grande coalizão de organizações populares de diverso tipo que, ao largo destes anos, se foi alargando até incorporar à sua hegemonia setores da classe média que no passado se haviam oposto fervorosamente ao líder dos cultivadores de coca.

 Por isso não surpreende que no processo revolucionário boliviano (é bom lembrar que a revolução sempre é um processo, jamais um ato) tenham vindo à baila inúmeras contradições que Álvaro Garcia Linera, o companheiro de fórmula de Evo, as interpreta como as tensões criativas próprias de toda revolução.

 Nenhuma está isenta de contradições, como tudo aquilo que vive; mas o que diferencia a gestão de Evo foi o fato de que as foi resolvendo corretamente, fortalecendo o bloco popular e reafirmando seu predomínio no âmbito do Estado. Um presidente que quando se enganou — por exemplo durante o “gasolinaço”, de dezembro de 2010 — admitiu seu erro e, após escutar a voz das organizações populares, anulou o aumento dos combustíveis decretado poucos dias antes. Essa pouco frequente sensibilidade para escutar a voz do povo e responder em consequência é o que explica que Evo tenha conseguido transformar sua maioria eleitoral em hegemonia política; isto é, em capacidade para forjar um novo bloco histórico e construir alianças cada vez mais amplas, mas sempre sob a direção do povo organizado nos movimentos sociais.

 Obviamente que o anterior não poderia ter-se sustentado tão só na habilidade política de Evo ou no fascínio de um relato que exaltasse a epopeia dos povos originários. Sem uma adequada ancoragem na vida material tudo aquilo teria esvaído em deixar rastos. Mas foi combinado com muitos significativos avanços econômicos que lhe trouxeram as condições necessárias para construir a hegemonia política que hoje tornou possível sua esmagadora vitória. O PIB passou de US$ 9.525 bilhões, em 2005, para US$30.381 bilhões, em 2013, e o PIB per capita pulou de US$1.010 para US$2.757 entre esses mesmos anos. A chave deste crescimento — e desta distribuição! — sem precedentes na história boliviana se encontra na nacionalização do petróleo e o gás. Se no passado a partilha da renda petroleira e do gás deixava nas mãos das transnacionais 82% do produzido, enquanto o Estado ficava apenas com 18% restante, com Evo essa relação se inverteu e agora a fatia do leão fica nas mãos do Estado. Portanto, não surpreende que um país que tinha déficits crônicos nas contas fiscais tenha terminado o ano 2013 com US$14.430 bilhões em reservas internacionais (em 2005 tão só dispunha de US$ 1.7 bilhão). Para bem entender o significado deste número basta dizer que as mesmas equivalem a 47% do PIB, a porcentagem mais alta da América Latina. Na trilha do anterior a extrema pobreza caiu de 39%, em 2005, para 18%, em 2013, e existe a meta de erradicá-la por completo para o ano 2025.

 Evo continuará no Palacio Quemado até o ano 2020, momento em que seu projeto de refundação teria ultrapassado o ponto de não retorno. Resta ver se retém a maioria ou 75% do Congresso, o que tornaria possível aprovar una reforma constitucional que lhe abriria a possibilidade de uma reeleição indefinida. Em face disso não faltarão aqueles que ponham a boca no trombone, acusando o presidente boliviano de ditador ou de pretender perpetuar-se no poder. Vozes hipócritas e falsamente democráticas que jamais manifestaram essa preocupação pelos 16 anos de gestão de Helmut Kohl na Alemanha, ou os 14 do lobista das transnacionais espanholas, Felipe González. O que na Europa é uma virtude, sinal inapelável de previsibilidade ou estabilidade política, no caso da Bolívia se converte em um vício intolerável que desnuda a suposta essência despótica do projeto do MAS. Nada de novo: há uma moral para os europeus e outra para os índios. Assim tão simples. (Excertos extraídos da Agência Latino-americana de Informação)

 

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