Presos Políticos do Império| MIAMI 5      

     

Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

I N T E R N A C I O N A I S

Havana, 9 de Abril, de 2014

Mão de ferro para governar a França
• Após o voto de castigo para os socialistas, nas últimas eleições municipais, o presidente francês deu uma guinada para a direita. A nomeação de Manuel Valls desatou uma cisão no seio da coalizão composta pelo Partido Socialista e os Verdes

Eduardo Febbro

A França votou na direita e o presidente socialista François Hollande elegeu acompanhar os eleitores que deram ao Partido Socialista uma das maiores punições eleitorais de sua história, nas eleições municipais de finais de março. No dia a seguir de uma derrota inédita, onde o Partido Socialista (PS) perdeu mais de 155 municipalidades de mais de 9 mil habitantes, em benefício da direita, o governo do primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault apresentou sua demissão. A seguir, Hollande nomeou Manuel Valls, que até domingo 30 de março ocupava o cargo de ministro do Interior, novo chefe do Executivo. A mudança é tão radical como incerta a aposta do presidente, que optou por um homem com mão de ferro, que nada tem a ver com a social-democracia mole que encarnou até hoje, durante seus dois anos de presidência. Manuel Valls, que é o ministro mais popular do governo, é o que realmente se conhece como um social liberal, isto é, um adepto do trabalhista britânico de Tony Blair. Em uma breve alocução televisionada, Hollande prometeu "um governo reduzido e de combate". Este último termo expressou-se de imediato no terreno real. A nomeação de Valls desatou uma cisão no seio da coalizão, composta pelos verdes e os socialistas. Dois ministros verdes do anterior governo, Cécile Duflot e Pascal Canfin, respectivamente ministros de Habitação e Desenvolvimento, anunciaram que não iam fazer parte do Executivo de Valls. Ambos consideraram que sua nomeação "não é a resposta adequada aos problemas dos franceses".

A direita socialista aplaude. Não é para menos. O eleitorado que levou Hollande a galgar o poder, em 2012, o abandonou nas eleições municipais. Porém o presidente, além de suas palavras, promoveu um social-liberal. Hollande disse em seu discurso que tinha entendido a "clara mensagem" das urnas: um protesto pela "mudança insuficiente, a excessiva lentidão, a falta de trabalho, a escassa justiça social e demasiados impostos". Contudo, os fatos não permitem vaticinar nenhuma mudança substancial da política que implementou até hoje. O Le Nouvel Observateur elogia a promoção de Valls: "Deve-se justamente ao fato de que Hollande não pensa questionar esta política de saneamento das contas públicas, de diminuição do custo da mão-de-obra e de melhoramento da competitividade do nosso aparelho industrial que Manuel Valls se tornou inevitável". Este canto à austeridade, como receita para sair da crise, continua com um elogio ao socialismo liberal que identifica a figura de Manuel Valls: por acaso há alguém melhor que o ex-ministro do Interior, herdeiro do blairismo e social-liberal reivindicado, para encarnar este expurgo. O presidente deixou escapar uma lágrima para sua esquerda quando prometeu um "pacto de solidariedade" e uma diminuição dos impostos, daqui até 2017. Com o "pacto de solidariedade", Hollande busca atenuar as consequências da pedra angular de seu mandato, o famoso e polêmico "pacto de responsabilidade" mediante o qual se instaura uma diminuição das cotações sociais que pagam as empresas, em troca de que contratem pessoal. O pacto também prevê cortes nas despesas públicas, avaliados em 50 bilhões de euros.

Em resumo, o presidente que foi eleito contra as imposições liberais e os cortes teledirigidos de Bruxelas interpretou o voto como um reclame de mais austeridade, mais reformas, mais autoridade e maior obediência ao sistema financeiro. Como aconteceu com a direita, quando Nicolas Sarkozy foi eleito, em 2007, entre o François Hollande candidato da esperança igualitária e o François Hollande presidente há um abismo ou uma zombaria coletiva.

Parece que os presidentes que a França elege ultimamente têm a vocação de fazer exatamente o contrário do que prometem em suas plataformas eleitorais.

Porta-bandeira da esquerda liberal no campo econômico, Manuel Valls assume o poder com um amplo apoio popular (63%) mas com escassas divisões próprias. Nas eleições primárias do PS para designar em 2011 seu candidato presidencial, Valls conseguiu apenas 5,6% dos votos. O novo primeiro-ministro é a ovelha negra da (chamada, n.r) esquerda do PS, dos ecologistas e dos aliados da Frente da Esquerda, de Jean Luc Mélenchon. Sua passagem pelo Ministério do Interior deixou muitas polêmicas e decepções. Sua forma de atuar ante o tema migratório e seus alardes públicos com o número de expulsões de estrangeiros serviram-lhe para ser alcunhado de "coveiro" da linha firme porém humanista que Hollande prometeu aplicar com o tema dos estrangeiros (outro descumprimento). As estatísticas demonstram que sua ação não foi diferente da de Sarkozy. Em 2013, Manuel Valls ordenou o desalojo de 20 mil ciganos, muito mais que Sarkozy.

Hollande promoveu um homem onde se conjugam dois sentidos: eficácia e autoridade. Um traje perfeito para consolar as urgências neoliberais de Berlim e Bruxelas. Talvez o recém eleito chefe do Executivo possa dar corpo e alma a um projeto político e de sociedade e seja muito mais que o vendedor de um catálogo de ajustes, cortes e sacrifícios. Mas nada poderá apagar o campo de ruínas que hoje apresenta a presidência: em 2008, os socialistas administravam 509 municipalidades de mais de 10 mil habitantes e a direita, 433. Em 2014 ficaram somente com 349, contra 572 para os conservadores. E por primeira vez em sua história, a extrema direita da Frente nacional venceu em 14. Hollande dilapidou essa fortuna que é a legitimidade popular. As correntes progressistas acabam de enterrar suas últimas expectativas. Aqueles que lembrem a gloriosa noite da praça da Bastilha, quando, há dois anos, o "povo da esquerda" saiu para festejar a vitória de François Hollande, sentem que isso aconteceu há um século, em outro país, em outra dimensão da realidade. Ser da esquerda ou moderadamente social democrata virou infinita serpentina de desencantos. (Excertos extraídos do Rebelion)
 

IMPRIMIR ESTE MATERIAL


Diretor Geral: Pelayo Terry Cuervo. Diretor Editorial: Gustavo Becerra Estorino
HOSPEDAGEM: Teledatos-Cubaweb. Havana
Granma Internacional Digital: http://www.granma.cu/

  Inglês | Francês | Espanhol | Alemão | Italiano | Só TEXTO
Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

© Copyright. 1996-2013. Todos os direitos reservados. GRANMA INTERNACIONAL/ EDICAO DIGITAL

Subir