Presos Políticos do Império| MIAMI 5      

     

Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

I N T E R N A C I O N A I S

Havana, 7 de Maio, de 2014

O movimento silenciado das
tropas estadunidenses perto da Ucrânia

Vicenç Navarro

A administração Obama determinou enviar 600 soldados estadunidenses a países do Leste da Europa, antigamente membros da União Soviética (e da sua outrora esfera de influência) e agora membros da OTAN, a aliança militar estabelecida para conter aquilo que era chamado e definido como "vocação imperialista" da União Soviética.

Estes países são Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia. Tais soldados estão desdobrados regularmente numa base militar estadunidense na Itália e fazem parte da 173ª Brigada de Infantaria. Seu deslocamento para aqueles países é, supostamente, para fazer exercícios militares com as forças armadas desses países. A administração Obama também enviou forças navais ao Mar Negro, onde a Rússia tem uma base naval na Crimeia. Esta mobilização de tropas responde, na teoria, àquilo que a administração Obama apresenta como uma violação dos acordos de Genebra, atingidos pela União Europeia, EUA, Rússia e a Ucrânia.

A administração Obama está acusando o governo de Putin de não ter respeitado o acordo, ao continuar apoiando os cidadãos do leste da Ucrânia, conhecidos como os pró-russos, naquela parte do país. Na referida acusação assume-se que a Rússia tem suficiente influência (e até controle) sobre os chamados pró-russos nas zonas do leste da Ucrânia, que fazem divisa com a Rússia, para que estes deponham as armas e abandonem os edifícios públicos. Alguns, como o senador republicano John McCain, do estado do Arizona, chegaram, inclusive, a acusar o presidente Putin de estar atrás destes grupos pró-russos, manipulados diretamente de Moscou, do gabinete do próprio Putin.

Nem McCain nem o presidente Obama seriam capazes de pensar que os chamados pró-russos não são meros fantoches da administração russa e que têm ideias próprias, com condições específicas para implementar o acordo de Genebra. Eles, depois de tudo, não estavam em Genebra, mas sim estava o governo a Ucrânia, e tinham feito demandas — que continuam fazendo — as quais não foram incluídas no tratado de Genebra.

O envio de tropas aos países do Leste da Europa, contudo, responde menos ao que ocorre em Moscou do que ao que ocorre em Washington. Na capital dos EUA, a administração Obama está perdendo o controle da política estadunidense na Ucrânia. A extrema direita e a que se chama direita moderada se estão mobilizando, continuando uma longa campanha que consiste em apresentar o presidente Obama como fraco, o qual não está mostrando a liderança de que os EUA e o mundo ocidental precisam.

Esta mobilização é a que motivou que a administração Obama enviasse o vice-presidente Joe Biden à Ucrânia, para externar a solidariedade com o governo (de fato) em Kiev. Mas isso não acalmou o Partido Republicano e o senador McCain. Este último ridicularizou a viagem de Biden, indicando que era uma visita mole e não dura, quer dizer, que Biden não se tinha comprometido com movimentos de tropas que indicassem ao governo russo que o governo dos EUA não tolera que Putin teime nas suas supostas estratégias de expansão. O problema, segundo John McCain, é que Obama é excessivamente mole, algo que os outros conservadores e porta-vozes conservadores, como David Brooks, o jornalista conservador do The New York Times, têm chamado noutras ocasiões de falta de masculinidade ("The manhood question").

Essa mentalidade é a que, lamentavelmente, está exercendo agora uma enorme influência em Washington. E poderia conduzir a um conflito armado. Não duvidem de que isso seja possível. E, realmente, durante um longo tempo vem sendo preparada a expansão da OTAN para o leste da Europa, cercando a Rússia.

Uma das pessoas que mais criticou a manutenção da OTAN e sua expansão para o Leste foi, nada mais nada menos, que um dos ideólogos mais importantes da Guerra Fria, George Kennan, e um dos fundadores e arquitetos da OTAN. Seu argumento era que, após a queda da União Soviética e a derrocada do regime comunista, a OTAN havia deixado de ter justificação. Segundo Kennan, a OTAN já tinha conseguido seu objetivo. Mantê-la e, ainda pior, expandi-la para o Leste, cercando agora a Rússia era, segundo ele, um erro crasso, pois era uma provocação à Rússia, país que, para Kennan, se devia converter em aliado dos EUA.

Segundo Kennan, a Guerra Fria tinha sido um sucesso, pois ele achava que seu objetivo máximo era dar cabo do comunismo, o mesmo comunismo que já tinha sido derrotado na nova Rússia. Converter a Rússia em antagonista e pô-la à defensiva era — acrescentava Kennan — um erro crasso. Como eu já indiquei noutros artigos, posturas semelhantes têm sido assumidas por Helmut Kohl, o unificador da Alemanha, e por Helmut Schmidt.

A OTAN — segundo estes autores — está provocando a Rússia, convertendo-se num instrumento de instabilidade, em vez de um ente de defesa ou segurança. Kennan morreu aos 101 anos, há apenas uns anos (em 2005). Foi embaixador dos EUA em Moscou, em 1952 e conhecia bem a Rússia. Previu que a expansão da OTAN para o Leste levaria a um conflito armado, devido a que a Rússia se podia sentir encurralada. E assim está acontecendo. Tal como indicou antes de morrer, e assistindo à manutenção e expansão da OTAN, Kennan bradou porque essas medidas significavam o fim de um projeto que tinha feito parte de sua vida.

Ainda eu pareça contraditório, Kennan achava que a Guerra Fria tinha a ver com a contenção do comunismo, quando realmente tinha mais a ver com a expansão dos EUA. Daí que o comunismo sumisse, porém a expansão para o Leste continuasse. O problema não é o imperialismo de Putin, mas sim o governo federal dos EUA.

Apresentar agora o governo russo como o maior culpado pela crise na Ucrânia acho que é um erro crasso, que pode conduzir a uma guerra, questão que não pode ser descartada, quando não só a Casa dos Representantes mas também o Senado dos EUA acabem sendo dominados pelo Partido Republicano, no qual o Tea Party é muito influente. Isso significaria que uma guerra poderia ser possível, com consequências imprevisíveis. Bem claro assim. (Excertos extraídos de Rebelion).
 

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