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Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

I N T E R N A C I O N A I S

Havana, 2 de Abril, de 2014

Salvador Sánchez Cerén: “A luta foi necessária para o futuro”

Emir Sader

DEPOIS de um longo processo de contagem e avaliação dos recursos apresentados pela oposição, o Supremo Tribunal Eleitoral de El Salvador decretou que o candidato da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), Salvador Sánchez Cerén era o escolhido para ser o próximo presidente desse país. Tomará posse em 1º de junho, para dirigir o segundo governo nacional sucessivo da FMLN e para se converter no primeiro guerrilheiro que galga a presidência de El Salvador.

 Na sua residência, Cerén nos concedeu a primeira entrevista exclusiva, depois que foi eleito presidente, em 9 de março, em uma renhida disputa, no segundo turno, com o candidato do partido Arena, da oposição.

 Presidente, o senhor tem um ponto comum com o presidente do Uruguai, Pepe Mujica e com a presidente do Brasil, Dilma Roussef, que é o fato de terem sido participantes da luta armada contra ditaduras e agora são presidentes da República de um país latino-americano.

“É a história que já vivemos os povos da América Latina. Nas décadas de 60 e de 70 do século passado, a luta foi necessária para abrir as possibilidades do futuro em que agora estamos. Sem esse esforço não teriam acabado esses regimes autoritários que impediam o desenvolvimento democrático dos nossos países. E, portanto, o desenvolvimento produtivo e social. Para mim também é muito grato fazer parte dessa lista, da qual faz parte, ainda, outro centro-americano, o presidente Daniel Ortega, da Nicarágua, que também participou dessa gesta heróica dos anos 60. Isso faz parte da história do povo latino-americano”.

 O senhor vai tomar posse, em 1º de junho, como novo presidente de El Salvador. Quais são os temas programáticos fundamentais de seu governo para os próximos cinco anos no país?

 “No começo mesmo da campanha eleitoral determinamos fazer um processo de consultas à população acerca de quais são seus problemas principais, quais seriam as soluções e que programas ela considerava que deveriam continuar. Fizemos a consulta em nível nacional, conversamos com as famílias, visitamos cada lar, fizemos mesas técnicas acerca do meio ambiente, de saúde, educação. Desse processo, no qual estiveram envolvidas por volta de 200 mil pessoas, nós elaboramos nosso programa de governo, a partir das necessidades que nos foram expostas nessa consulta. A partir daí fizemos nosso programa, que se chama Salvador Allende. Foram determinados uns dez eixos, entre eles temas como o meio ambiente, o Estado de direito, a reforma do Estado, no sentido de fortalecer as instituições e alargar as relações internacionais. Mas entre eles definimos três grandes temas. O primeiro é o emprego. O desemprego anda em torno de 6%, não é um nível elevado, mas há uma enorme informalidade, que é também uma forma de desemprego. Embora este governo fizesse esforços importantes, se geraram em torno de 113 mil empregos, além do surgimento de 13 mil novas empresas. Mas a população considera que o nível de desemprego ainda é alto. Por isso estamos colocando a necessidade de uma transformação produtiva, para o qual se precisa de investimentos públicos na infraestrutura, na saúde e na educação. Além de desenvolver políticas junto do empresariado privado. Somos um país que garante a liberdade empresarial. Garantimos também a segurança jurídica, com regras claras. Ainda, garantimos a segurança financeira. E temos que romper todos os entraves burocráticos. Vamos fazer uma revisão de todas as leis que têm a ver com os investimentos, porque muitas delas estão desatualizadas, dando continuidade ao que está fazendo este governo. Isso permitiria, além da atração do capital estrangeiro, acometer uma transformação produtiva, que permita dar maior valor agregado ao produto que estamos exportando. Não só exportar matérias-primas mas sim produtos de maior valor agregado. Dessa forma, estimularíamos o comércio, a indústria, o setor da indústria agropecuária, com o objetivo de dinamizar a estrutura produtiva do país, num plano que não seja só para cinco anos, mas sim para colocar as bases para que num período de mais ou menos 15 anos pudéssemos fazer realmente uma transformação produtiva. Para isso é necessário, ainda, que o Estado permita que se possam incorporar novas tecnologias à produção do nosso país. Para isso estamos criando centros de pesquisa e inovação que, junto dos empresários, possam facilitar novas técnicas para melhorar a qualidade dos produtos”.

Quais serão os outros eixos fundamentais do seu governo?

 “São a educação e a segurança. Porque as empresas estão precisando de recursos humanos com maior qualificação. Por seu lado, o tema da segurança é um dos problemas mais graves, devido à extorsão que sofrem as empresas, que têm que pagar, tirando mais recursos dos empreendimentos. Em El Salvador foram aplicadas receitas chamadas de “mão dura”, que era aplicar todo o rigor da polícia, mas em vez de diminuir, a violência aumentou. Nós dizemos que é preciso usar as duas mãos: uma mão é a das oportunidades. Temos um programa que é chamado “Não mais territórios esquecidos”, onde fazemos empreendimentos para gerar chances para os empreendedores, para que melhorem as receitas das famílias, para que os jovens tenham chances. Tudo isso acompanhado de um trabalho eficiente no sistema penitenciário, que permita uma reabilitação dos detentos. Falamos, ainda, de uma firmeza do Estado, com vista a garantir o trabalho da Polícia Nacional, com maiores capacidades, mais efetivos, melhores condições de trabalho, munida de armamento moderno, de maior mobilidade, com mais capacidade científica, para se tornar mais efetiva. E no caso da gravidade da situação de segurança, apoiar-se no Exército, nalguns casos, porque a Constituição da República estabelece que, caso houver risco de ameaça nacional, pode ser usado o Exército, mas como apoio da Polícia Nacional”.

 O senhor convocou para um governo de unidade nacional. O que significaria isso hoje em El Salvador?

 “Nós surgimos na vida política a partir de um Acordo de Paz, que é o produto de um entendimento que deu cabo do conflito, abrindo um nova etapa à qual temos chamado de transição democrática, isto é, de construção de instituições que fortaleçam a democracia em El Salvador. A partir de 1992, quando assinamos os Acordos de Paz, sempre tentamos conseguir o entendimento, o diálogo, a concertação. Nosso governo sempre será um governo inclusivo, que dará representação no Gabinete a outras forças políticas que já trabalharam conosco. Os Acordos de Paz converteram-se em políticas de Estado. El Salvador é uma sociedade com muita diversidade, há aqui forças conservadoras que ainda têm muito peso, eis as forças que acompanham a FMLN, que é um partido moderno, aberto às ideias, favorável ao diálogo. Muitos perguntam: com essa polarização, como é possível conformar um governo de unidade nacional? Os salvadorenhos temos conseguido entender que, embora sejamos forças diversas, com pontos de vista políticos e ideológicos diferentes, temos sempre a capacidade de pôr o país no centro. Aquilo que procuraremos não são as diferenças, mas sim aqueles temas que unem os salvadorenhos. O tema do emprego é um tema que une o país. O tema da segurança é fulcral para todos os partidos. Há pontos comuns em torno dos quais podemos construir entendimentos de longo prazo, com as forças empresariais, com as forças políticas da oposição, com as organizações dos trabalhadores. (Extraído de Página 12).

 

Recuadro...

• A Aliança Republicana Nacionalista (Arena) aceitou, em 26 de março, a derrota nas eleições salvadorenhas, onde foi eleito Salvador Sánchez Cerén, da FMLN:

O partido de direita comprometeu-se a ser uma oposição “séria, inteligente, honesta e leal às aspirações nacionais”, depois que a Vara constitucional rejeitasse vários recursos apresentados contra o processo, apresentados pelos ex–candidatos presidenciais.

 Através de um comunicado, expressaram que “acatarão a resolução da Vara Constitucional da Suprema Corte de Justiça, que declara sem lugar o recurso impetrado pela nossa fórmula presidencial, que pedia a recontagem dos votos, um por um”.

 Depois de um longo processo, que teve começo em 9 de março, quando teve lugar o segundo turno eleitoral, a direita finalmente aceita a derrota e garante que trabalhará em prol da governabilidade, a democracia e o desenvolvimento do país

 A Arena insistiu em desconhecer o triunfo da FMLN, fazendo um apelo perigoso às Forças Armadas, fechamento de ruas, queima de pneus, até a apresentação de dez recurso ante o Supremo Tribunal Eleitoral (TSE), na Vara Constitucional e diante de outros entes do Estado.

 O TSE entregou as credenciais de presidente e vide-presidente a Salvador Sánchez Cerén e a Oscar Ortiz, os quais dirigirão os destinos desta nação centro-americana no período 2014-2019. No segundo turno eleitoral, em 9 de março passado, a FMLN obteve uma percentagem de 50,11% (1.495,815 votos) e a Arena, 49,89% (1.489,451 votos).

 

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