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Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

I N T E R N A C I O N A I S

Havana, 29 Outubro, de 2014

Ébola ameaça desenvolvimento
da Libéria

Antonio Vigilante*

MONRÓVIA.— A epidemia do Ébola continua afetando a vida e os meios de sobrevivência da população da África Ocidental, enquanto o atendimento se focaliza não só nos aspectos sanitários da crise, mas também em suas consequências sociais e econômicas.

Com certeza, os aspectos humanos e médicos da crise continuam em primeiro plano. A perda dum familiar próximo ou de um parente é devastadora.

O setor da saúde está sob pressão para lidar com os doentes e, inclusive, para proteger seus próprios trabalhadores do contágio.

Também há consequências sanitárias para aqueles que não estão afetados pelo Ébola, já que o acesso ao atendimento médico diminui devido ao fechamento de hospitais e clínicas, a perda de pessoal médico e de enfermagem e ao aumento das tarifas dos profissionais privados da saúde.

A cobertura de vacinação, por exemplo, tinha caído para 50%, em julho.

As mulheres grávidas lutam por um atendimento materno especializado e nalguns casos são rejeitadas pelas poucas instituições que ainda funcionam.

O fechamento dos centros de saúde interrompeu o tratamento das pessoas com Aids, que recebem medicamentos antiretrovirais e daquelas pessoas com doenças crônicas. O sistema de saúde pública praticamente colapsou nalgumas partes das zonas mais afetadas pela epidemia.

Antes da crise atual, a economia da Libéria teve um crescimento impressionante, de até 8,7% em 2013. Neste ano projetava-se uma queda do crescimento do PIB para 5,9%, já que a produção mineira se estabilizou temporariamente, junto com a queda dos preços internacionais do caucho e do ferro.

O PIB cresceria 6,8% em 2015 e 7,2% em 2016, segundo essa projeção. Mas agora que a atividade econômica diminuiu, na maioria dos setores será preciso rever essas previsões de crescimento.

Também existe uma questão de fundo que nos preocupa. O impressionante crescimento recente da Libéria não foi equitativo nem inclusivo. Aproximadamente 57% dos cerca de quatro milhões de habitantes do país são pobres e 48% desse setor vive em situação de extrema pobreza.

A falta de desenvolvimento equitativo e includente significa que mais de metade dos habitantes, especialmente as mulheres, as meninas e os meninos, são particularmente vulneráveis aos choques e às crises. Definitivamente, isto faz com que o país todo seja menos sólido e tenha uma capacidade menor para defrontar crises de qualquer magnitude.

Parte do desafio que radica na recuperação dos meios de vida é de natureza psicológica. Afinal, o medo e o isolamento podem acabar com mais vidas do que o próprio vírus do Ébola, se as empresas não trabalham, se os meios de sobrevivência somem e os serviços públicos não funcionam.

A redução das receitas fiscais é acompanhada da diminuição na capacidade de resposta estatal às crises. Prevê-se que as receitas diminuam, na medida em que o Ébola continue dando cabo da vida dos liberianos e o governo mantenha as restrições às viagens, como parte do estado de emergência.

É possível que esta situação repercuta, em breve, no pagamento dos salários dos empregados públicos, o qual poderia paralisar o país ainda mais. A confiança no governo também está em jogo, na medida em que se torna cada vez mais incapaz de proteger seus cidadãos e prestar os serviços que estes necessitam com urgência.

Simultaneamente, os preços dos alimentos cultivados no país e dos importados aumentam, devido a que o estado de emergência, os bloqueios militares das estradas e as restrições para viajar obstaculizam o comércio. O ciclo vicioso da queda da demanda dos consumidores e a baixa nos níveis das receitas faz piorar esta tendência.

Com este panorama, é fundamental pôr em andamento mecanismos adequados de proteção social, pois a situação faz com que as famílias não possam pagar os serviços de alimentação e saúde.

Isto não só contribuiria com a melhora da estabilidade e a previdência social, mas também tornaria mais sólida e resistente a sociedade da Libéria em seu conjunto.

De fato, boa parte da população necessita assistência pública. Os últimos dados indicam que cerca de 78% da força de trabalho está numa situação de emprego vulnerável. Em contraste, os empregados com remuneração formal, aproximadamente 195 mil pessoas, representam só 5% do total de habitantes.

Aproximadamente 13% dos lares não têm acesso a uma alimentação suficiente e 28% são vulneráveis à insegurança alimentar. Se os setores mais pobres conseguem aceder a algum tipo de mecanismo de proteção social, isso lhes permitirá resistir melhor a crise atual, bem como as futuras.

Nas partes mais remotas do país, longe do bulício da capital, Monróvia, também é necessário fortalecer a capacidade das autoridades locais para manipularem a crise; por exemplo, mediante a melhora dos mecanismos de monitoramento e fornecimento de equipamentos de proteção àqueles que estão em contato direto com os pacientes do Ébola e com os cadáveres.

O ressurgimento da crise do Ébola em julho e seu agravamento gradual, até se tornar emergência nacional na Libéria concentraram a atenção e os recursos à disposição das autoridades para conter o vírus.

Nesta fase da crise torna-se necessário agir em todos os fronts para lidar com os devastadores desafios sanitários, sociais e econômicos antes que a Libéria e outros países afetados vejam desaparecer paulatinamente as conquistas ganhas com esforço, no item do desenvolvimento. (IPS)

* Este é um artigo de opinião de Antonio Vigilante, representante especial adjunto do secretário-geral da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento na Libéria.
 

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