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Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

I N T E R N A C I O N A I S

Havana, 20 de agosto, de 2014

Israel está apagando do mapa a Palestina

Eduardo Galeano*

PARA justificar-se, o terrorismo de Estado fabrica terroristas, semeia ódio e colhe desmentidos. Tudo indica que esta chacina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los. Desde 1948, os palestinos vivem condenados a uma humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem licença. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, perderam tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em alguém que não podem votar são punidos. Gaza está sendo castigada. É uma armadilha sem saída, desde que Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo semelhante tinha acontecido em 1932, quando o Partido Comunista ganhou as eleições de El Salvador.

Massacrados, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e a partir desse momento viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem. São filhos da impotência os mísseis caseiros que os militantes de Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que tinham sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à beira da loucura suicida, é o pai das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a eficaz guerra de extermínio está negando, há anos, o direito à existência da Palestina. Aos poucos, Israel está apagando a Palestina do mapa.

Os colonos invadem, e trás eles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma das guerras defensivas, Israel tem feito desaparecer um pedaço da Palestina, e a guerra continua. A devoração se justifica pelos títulos da propriedade que a Bíblia outorgou, pelos 2 mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita. Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, o país que jamais acata as sentenças dos tribunais internacionais, o país que zomba das leis internacionais, e o único país que tem legalizado a tortura de prisioneiros.

Quem lhe outorgou o direito de negar todos os direitos? De onde vêm a impunidade com que Israel executa a chacina de Gaza? O governo espanhol não teria podido bombardear impunemente o País Basco para acabar com a ETA, nem o governo britânico teria podido arrasar Irlanda, para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do holocausto implica uma apólice de impunidade eterna? Ou será que essa luz verde provém da potência mandona que tem em Israel o mais incondicional de seus súditos? O exercito israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe a quem mata. Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis se chamam danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais.

Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são crianças. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está testando com sucesso nesta operação de limpeza étnica. E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Em cada cem palestinos mortos, um israelense. Pessoal perigoso adverte o outro bombardeio, a cargo dos meios de manipulação em massa, que nos convidam a crer que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinas. E esses mesmos meios também nos convidam a crer que são humanitárias as 200 bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada o Irã foi que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada comunidade internacional, por acaso existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos utilizam quando fazem teatro? Ante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial se mostra mais uma vez. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações sem sentido, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, prestam tributo à sagrada impunidade. Ante a tragédia de Gaza, os países árabes se lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos.

A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama alguma que outra lágrima, enquanto em segredo festeja essa jogada perfeita. Porque a caça de judeus sempre foi costume europeu, porém há mais de meio século essa dívida histórica esta sendo cobrada aos palestinos, que também são semitas e que jamais foram, nem são, antissemitas. Eles estão pagando, com seu sangue, uma conta alheia. (sinpermiso)

* Eduardo Galeano, escritor e jornalista. Alma crítica da América Latina e figura do movimento antiimperialista internacional. Entre seus livros mais conhecidos internacionalmente:trilogia Memoria del fuego (1986), El futbol a sol y sombra (1995), Las venas abiertas de América Latina (1971), Patas arriba. La historia Del mundo al revés (1999).

** Este artigo foi publicado em 2012 em vários sites alternativos e por sua vigência o Granma Internacional o reproduz para esta edição.
 

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