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Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

I N T E R N A C I O N A I S

Havana, 17 Setembro, de 2014

Vietnã continua espantando o mundo
• Passados 69 anos da declaração da República Democrática do Vietnã (atualmente chamada República Socialista do Vietnã) a nação mais oriental da península da Indochina continua sendo o bojo da atenção

Lisanka González Suárez

SE na década de 50 do século passado os vietnamitas causaram espanto por terem vencido o colonialismo francês, na década de 70 despertaram a admiração e curiosidade por causa da derrota desferida à maior potencia do mundo, apesar do alto poder de fogo de que esta dispunha. Muitos especialistas e estrategistas militares se perguntaram como é que foi possível aquele desfecho entre um país pequeno e pobre e uma potência econômica como os Estados Unidos. Alguns não tiveram em conta a cultura e a história ancestrais dessa nação, cujos descendentes estiveram lutando, durante séculos, contra os franceses, os britânicos, entre outros, agora contra os estadunidenses, pois os vietnamitas sabiam como lutar para defender suas terras, suas famílias e seus recursos naturais.

Segundo as estatísticas, os norte-americanos despejaram sobre esse território sete milhões de bombas, três vezes mais que durante a Segunda Guerra Mundial.

Eles diziam que queriam fazer recuar o Vietnã até a Idade de Pedra — segundo me contou o primeiro embaixador de Cuba nesse país, Mauro García Triana — pelo qual nessa mesma etapa, que foi crítica e decisiva, incrementaram suas forças até chegar a ter 545 mil homens, mais quase meio milhão dos soldados do exército do sul e os sul-coreanos, filipinos, australianos e tailandeses que se uniram a eles, o que ultrapassava o milhão de efetivos, enquanto o Vietnã dispunha de meio milhão, contando com as forças de autodefesa e as das aldeias.

Um exemplo eloquente disso aparece no livro The 11 Days of Christmas (Os onze dias do Natal), de Marshall Mitchell III, historiador militar que voou em 321 missões de combate sobre o Vietnã, quando escreveu que, em 1972, o governo de Richard Nixon assumiu que "os vietnamitas do Norte se demoronariam imediatamente", após um ataque "de caráter brutal e em massa", missão que foi encarregada aos aviões B-52, considerados praticamente invencíveis; contudo, nas duas primeiras noites de incursão, foram derribadas oito dessas aeronaves. Em 11 dias foram derribados 15 desses aviões e mais cinco ficaram enormemente avariados; 28 norte-americanos foram mortos e 34 apreendidos em terra.

Alguns incrédulos começaram a chamar esse fato de "milagre", desqualificando a inteligência e a criativa estratégia militar empregada pelos vietnamitas, os quais foram, ainda, combatentes superiores em seu campo e converteram suas armas rústicas em verdadeiras armadilhas para um inimigo superior em meios e técnica.

O mundo enxergou o último invasor abandonar às pressas Saigão, pendurado da roda de um helicóptero, em abril de 1975. Um ano depois da tomada dessa cidade por parte das forças do norte, teve lugar a unificação do país, sob o nome de República Socialista do Vietnã.

ESTAMPAS DA GUERRA

Minha memória se mantém intata. Mal completava os 20 anos quando cheguei à República Democrática do Vietnã, em 1966, com a incerteza de se seria capaz de sobreviver, para contar o que tinha visto, mas com uns desejos enormes de estrear como a primeira mulher correspondente de guerra da publicação oficial das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba: a revista Verde Olivo.

Depois de uma longa viagem desde Moscou até Pequim e daí até Hanói, a primeira coisa que percebi, ainda antes de descer do avião, foi que as cores do campo eram parecidas com as dos campos cubanos. No caminho para a capital, antes de cruzar a ponte Long Bien sobre o rio Vermelho, fiquei estarrecida com a extrema pobreza dos vietnamitas e dei por mim acerca da grave situação econômica em que vivia o país.

Já em Hanói, as primeiras imagens que flagrei quebraram a concepção que eu tinha acerca do que era uma guerra. Esperava achar as ruas esburacadas, com trincheiras, e ocupadas por soldados e armas pesadas para enfrentar a aviação estadunidense que mais de dois anos antes tinha começado os ataques contra o país. Com certeza, os rostos dos moradores da cidade deviam refletir toda angústia e o temor que estavam vivendo. Imagens que eu tinha conformado mediante a leitura das crônicas da Segunda Guerra Mundial.

Mas não foi assim. Nenhuma cara triste nem ruas esburacadas. Os sons característicos de uma cidade vivente — que me faziam lembrar qualquer uma das mais prósperas do interior de Cuba — eram amortecidos pela música que provinha de alto-falantes; as pessoas caminhavam descontraídas, com essa calma costumeira do asiático, particularmente casais jovens de mãos dadas, que iam à praça do Lago Central, em torno do qual podiam beber um gostoso café com gelo, centenas de bicicletas e um bonde lotado de pessoas circulava pela grande avenida de Hanói, enfeitada por pequenas lojas de venda de flores.

Tinham decorrido doze anos depois do fim da guerra contra o colonialismo francês, e sobre a pequena nação pairavam múltiplos problemas, sendo o mais premente deles a reunificação. O paralelo 17 tinha dividido o Vietnã em duas partes e separado então os 17 milhões que ocupavam o território do Norte dos cerca de 15 que moravam no Sul. Famílias, bens, terras, rios, montanhas literalmente partidas por uma linha artificial.

A luta armada na parte meridional se havia incrementado, como a única forma de fazer cumprir os Acordos de Genebra de 1954, que estabeleciam a realização de eleições dois anos depois da saída dos franceses da Indochina. Isso foi travado pela ingerência dos Estados Unidos, cujo primeiro passo, em 1961, foi o envio ao Sul de uma missão militar de cerca de 400 assessores, que foi aumentando gradualmente.

Quando se produziu o incidente do Golfo de Tonking, em agosto de 1964, praticamente os norte-americanos estavam quase derrotados no Sul, onde a luta teve um rápido desenrolar. Daí em diante, os caças estadunidenses começaram a despejar sua carga mortífera em qualquer lugar do Norte; em cooperativas camponesas, aldeias, creches, escolas, hospitais, pagodes, pontes, portos, usinas, lugares ‘estratégicos’, cada vez mais perto da capital, em decorrência do qual morriam crianças, mulheres, idosos, as vítimas inocentes das guerras.

Poucas semanas após minha chegada ao país dos anamitas, o número de aviões abatidos no território beirava o número de mil. Vários meses depois, fui testemunha do primeiro bombardeio à periferia da capital, após muitas tentativas, a qualquer hora do dia e da noite, preferentemente ao meio-dia, quando os vietnamitas dormiam sua inviolável sesta.

Os bombardeios se intensificaram e ainda continuaram quando parti de Hanói, oito meses mais tarde, mas consegui ver os pilotos capturados, desfilando pelas ruas de uma cidade à qual pretenderam fazer desaparecer.

UM NOVO "MILAGRE"?

Depois de 39 anos da vitória, o Vietnã volta a brilhar e a assombrar o mundo, devido aos avanços conseguidos, pelo qual alguns voltam a qualificar este fato de o milagre vietnamita.

A partir da década de 80, quando começou o processo e renovação ou Do Moi, a direção dessa nação fez mudanças audaciosas e inteligentes, mediante reformas econômicas que acarretaram um salto extraordinário, nos últimos anos, multiplicando a economia mais de 3,5 vezes, com constantes e altos índices do Produto Interno Bruto (PIB), que colocaram a nação como um dos países com menores índices de pobreza, ainda que sua população tenha aumentado de 32 ou 33 milhões para 90 milhões de pessoas até 2013, segundo estimativas.

Em um país onde ainda se tentam sarar as feridas de tantos anos de luta, com uma economia de guerra, praticamente devastado, havia muito por fazer, embora os vietnamitas nunca abrissem mão da produção de suas usinas nem da colheita dos seus campos.

Mas promovendo as forças produtivas e segundo os especialistas do tema, liberando todas as potencialidades da sociedade para o desenvolvimento e lançando mão com eficiência das oportunidades da globalização para sua inserção internacional, conseguiram dar passos sólidos no caminho do desenvolvimento da economia.

Não se trata de um novo milagre. Mais uma vez a mesma tenacidade, inteligência e audácia demonstradas na guerra, na paz conseguiram colocá-los em um lugar proeminente entre as nações desse continente com uma das economias mais fortes do Sudeste asiático, adequada ao momento e às suas necessidades e com uma orientação socialista.

O sonho do presidente Ho Chi Minh de converter o Vietnã em um país dez vezes mais belo já se tornou realidade.
 

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