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C U L T U R A

Havana. 5 Novembro, de 2014

O ouro da cultura cubana

Rafael Lam

EM 12 de outubro de 2014 comemorou-se o 522º aniversário da chegada do almirante Cristóvão Colombo à América. Em alguma medida foi o acontecimento mais transcendental e importante, segundo o escritor cubano Alejo Carpentier.

"Porque existe na história universal um homem anterior e um homem posterior ao encontro das culturas na América. Por uma série de circunstâncias o solo caribenho virou palco da primeira simbiose, do primeiro encontro registrado na história entre três raças (ou grupos de descendência) que, como tais, nunca se haviam encontrado: a branca da Europa, a índia-indígena, nativa da América, o que era uma novidade total, e a africana que, se bem era conhecida na Europa, era desconhecida deste lado do Atlântico".

"Portanto, uma simbiose monumental de três raças de uma importância extraordinária pela sua riqueza e possibilidade de contribuições culturais e que havia de criar uma civilização inteiramente original". (in Correio da UNESCO, dez. 1981).

O que é que procuravam os espanhóis em Cuba?

Os reis da Espanha, apoiados em Cristóvão Colombo, esperavam achar no ultramar: "pérolas preciosas, ouro, prata, especiarias e outras coisas quaisquer e mercadorias".

Os marinheiros da frota espanhola acabaram sabendo pelos índios que no Sul estava a "ilha de Cuba, aonde escutei que esse pessoal que era muito grande e de grande tratamento e havia nela ouro e especiarias e navios grandes e mercadores".

Para lá rumou Colombo e em 28 de outubro de 1492 "entrou em um rio formoso" — sendo possivelmente a baía de Gibara, no noroeste de Cuba.

Pelos gestos dos aborígines, Colombo acabou compreendendo que aquela terra era tão grande que não se podia bordejar com as naus nem em vinte dias. Então pensou que estava em uma das penínsulas da Ásia oriental. Mas ali não havia nem cidades ricas, nem reis, nem ouro, nem especiarias.

Os espanhóis, que andavam à procura da rota da seda, as especiarias e as riquezas, o que acabaram achando foi algodão, que teciam as mulheres, ervas para beber cozimentos, o fumo, as culturas do milho e a batata (alimentos que séculos depois passaram a fazer parte da dieta dos europeus e de quase todo o mundo)

Passado o tempo acabaram tirando de Cuba um açúcar de qualidade superior, que adoçaria os povos. Que é que poderia ser mais gostoso, após uma comida bem farta, que uma sobremesa com o açúcar cubano? Uma taça de café de uma cor negra intensa, acompanhada da doçura de um açúcar tirados dos canaviais cubanos?

O renome especial de que Cuba goza assenta em alguns dos seus produtos de fama mundial e em sua cultura musical.

O sábio cubano Fernando Ortiz escreveu: "Não se pode afirmar que seja por causa da petulância patriótica se acaso um escritor cubano diz que a música popular de Cuba, feita para dançar, vem tendo desde há séculos grande ressonância, tanto no Novo Mundo quanto no Velho, pois esse é um fato irrecusável. Cuba tem uma musicalidade nacional genuína e de valores cosmopolitas. Os cubanos temos exportado com a nossa música mais sonhos e deleites do que com o fumo; mais doçuras e energias do que com o açúcar. A música afro-cubana é fogo, deleite e fumo; é geleia, gracejo e alívio; como um rum sonoro que se bebe pelos ouvidos, que no tratamento torna iguais e junta as pessoas e nos sentidos dinamiza a vida".

Já desde o ano 1946, no primeiro livro escrito sobre a música em Cuba, Alejo Carpentier redigia: "Órfã de tradição artística aborígine, muito pobre quanto a plásticas populares, pouco favorecida pelos arquitetos da colônia, a Ilha de Cuba teve o prazer de criar, em troca, uma música com fisionomia própria que, desde muito cedo, conheceu de um extraordinário sucesso de difusão. A popularidade atingida no mundo todo, por certos bailados cubanos de inícios do século 20, não constituiu um fato novo para o país. Anteriormente, as contradanças cubanas tinham sido alvo de uma acolhida semelhante pelo público da Europa e das Américas, ao serem apresentadas sob os nomes diversos de habaneras, danças havanesas, tangos havaneses, americanas e mais, criando gêneros que foram cultivados na França, na Espanha, no México, na Colômbia e na Venezuela, principalmente.

Cuba deu ao mundo as ‘guarachas’ crioulas de meados do século 18, nas quais se inscrevem ritmos que ainda conservam a sua vigência.

"Muitos dos instrumentos de percussão que vieram enriquecer todas as baterias das orquestras de música para dançar eram muito usados no século 18".

Estas palavras de Carpentier revelam-nos que, em todos os momentos de sua história, Cuba elaborou um folclore sonoro de uma surpreendente vitalidade, recebendo, mesclando e transformando contribuições diversas, que acabaram dando origem a gêneros fortemente caracterizados.

O romancista e musicólogo cubano tem razão ao afirmar que "antes que Cuba tivesse seu primeiro teatro ou seu primeiro jornal, já havia músicos notáveis e sabidos".

Em Cuba nunca faltou uma música de vanguarda na América, mais de um milhão de negros escravos vindos da África traziam bem conservada uma jazida de sonoridades de espantar.

Cuba produziu muitos gêneros musicais transformadores, reclamados desde tempos longínquos. Criou, ainda, um arsenal na percussão que também espanta, com mais de 25 conjuntos instrumentais. Tudo isso criou uma música rica, vivente e universal.

Habanera, danzon, son, guaracha, crioula, bolero, rumba, conga, mambo, cha-cha-cha, pachanga, muitos desses ritmos são ecumênicos, deram a volta ao mundo. Alimentaram as músicas da América e estão na dieta musical de muitos países.

Toda música rica cria também ritmos e músicos eminentes de grande relevância: Ernesto Lecuona, Eduardo Sánchez de Fuentes, Moisés Simons, Jorge Anckermann, Antonio María Romeu, Antonio Arcaño, Miguel Matamoros, Ignacio Piñeiro, Arsenio Rodríguez, Enrique Jorrin, Adalberto Álvarez, Rafael Lay, Juan Formell, Chucho Valdés, José Luis Cortés.

E cria também orquestras e grupos insignes como El Septeto Habanero, Septeto Nacional, Conjunto Casino, La Sonora Matancera, Arsenio Rodríguez, Jóvenes del Cayo, Roberto Faz e entre as orquestras charangas a de Antonio María Romeu, Arcaño y sus Maravillas, Neno González, Fajardo y sus Estrellas, La América, Melodías del 40, La Aragón, Sensación. Los Van Van, Irakere, Son 14, Dan Den, Charanga Habanera, NG La Banda.

Ainda, podemos deparar-nos com canções antológicas como: Siboney, La Comparsa, a habanera "Tú", La bella cubana, La Bayamesa, El manisero, La Guajira Guantanamera, Quiéreme mucho, Lágrimas negras, La engañadora, El bodeguero, La vida es un sueño, Quizás, quizás, quizás, Como arrullo de palma, Deuda, Dos gardenias, La gloria eres tú, Longina, Nosotros, Una rosa de Francia, Contigo en la distancia, Veinte años, Pequeña serenata diurna, Para vivir e muitas outras.

A cultura tem surpresas. Cuba, que foi uma colônia da Espanha acabou, com sua música, colonizando o colonizador. Com o decurso do tempo, os europeus acabaram compreendendo que Cuba tinha um tesouro maior que o ouro e a prata. A riqueza material vai e vem; o patrimônio imaterial é eterno.
 

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