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C U L T U R A

Havana. 3 de Setembro, de 2014

Julio Cortazar
Cem anos do ‘cronopio’ maior

A América Latina comemora o centenário do grande ‘cronopio’: Julio Cortazar, escritor lembrado por seus textos lúdicos, de romances plausíveis de rearmar e contos que vencem por nocaute, pontos de partida de uma obra que incorporou o compromisso político e expressou uma nova noção do intelectual orgânico, aquele que planta a ideia das utopias possíveis.

Julio Cortázar com Roberto Fernández Retamar, na sede da Casa das Américas, Cuba, 1979.

"Eu compreendi que o socialismo, que até esse momento me tinha parecido uma corrente histórica aceitável e, inclusive, necessária, era a única corrente dos tempos modernos que era baseada no fato humano essencial", refletia o escritor, em uma carta endereçada ao poeta cubano Roberto Fernández Retamar, em 1967.

Em 26 de agosto de 1914, no prelúdio da Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha ocupou Bruxelas, nasceu na Bélgica, de pais argentinos, Julio Florêncio Cortazar Descotte, rapaz que na infância compôs seus primeiros exercícios literários, aos quais acrescentaria a escrita de sonetos, seu gosto pelo jazz e pelo boxe.

"Quando já tinha 30 ou 32 anos — à parte de uma grande quantidade de poemas que andam por aí, perdidos ou queimados — comecei a escrever contos", relata Cortazar a Luis Harss, no livro Los Nuestros (Os Nossos).

Na época da sua primeira publicação: Presencias (Presenças – 1938), sob o pseudônimo de Julio Denis, se dedicou a dar aulas na cidade e província de Buenos Aires, uma altura na qual levava no seu interior um sentimento de inconformidade política que mais adiante converteria em maturidade política.

Sua oposição ao peronismo — que depois afirmou não ter compreendido — o levou a ocupar a Faculdade de Filosofia, na província de Mendoza, em 1945, como uma forma de protesto. Mais tarde, exilou-se na França, junto da sua companheira Aurora Bernárdez, e trabalhou como tradutor na Unesco.

No fim dessa década publicou seu primeiro conto; Casa tomada, na revista Anales, de Buenos Aires, dirigida por José Luis Borges e se torna mais prolífico a partir desse tempo, publicando Bestiario (1951); Manual de Instrucciones (Manual de Instruções – 1953); Final de juego (Fim do jogo – 1956); Las armas secretas (As armas secretas – 1959); Historia de Cronopios y Famas (História de Cronopios e Famas) e Rayuela (1962).

A UTOPIA REALIZÁVEL

Cortazar junto de sua terceira esposa, Carol Dunlop.

Foi em 1961 quando teve lugar um ponto de inflexão na vida do escritor, ao visitar Cuba, acompanhado de sua segunda esposa, Ugné Kervelis, tradutora lituana, da esquerda, apaixonada pela América Latina, a qual o acompanhou em um processo de reflexão que o levou a se converter em um defensor da Revolução Cubana.

"Sem raciocinar, sem análise prévia, me deparei de repente com o sentimento maravilhoso de que meu caminho ideológico coincidisse com meu retorno latino-americano; de que essa revolução, a primeira revolução socialista que eu podia acompanhar de perto, fosse uma revolução latino-americana", disse em uma carta a Fernández Retamar, publicada na revista da Casa das Américas.

"Esse é o momento em que estendi os laços mentais e em que eu me perguntei, ou me disse, que eu não havia tentado entender o peronismo", reflete em uma conversa com Omar Prego, publicada em La Fascinación de las palabras (O Fascínio das palavras – 1985).

Esse contato com a Revolução Cubana faz acordar em Cortázar um novo tipo de sensibilidade que representa uma guinada em sua obra, que se torna evidente em textos como Reunión (Reunião), relato incluído no volume Todos los fuegos, el fuego (Todos os fogos, o fogo); ou o poema Yo tuve um hermano (Eu tive um irmão); ou a adivinha Sílaba viva, dedicados a Ernesto Che Guevara.

O escritor desafiará as correntes intelectuais, ao assumir a literatura como um espaço no qual será travada a batalha política, propondo novamente a interpretação do mundo através da estética que o caracterizou, o uso de meta textos e a ordem combinatória de linguagens.

CONTRA OS VAMPIROS MULTINACIONAIS

Na hora de defender seus ideais políticos, Cortazar advertiu em uma entrevista na revista Crisis (1973) que "cada pessoa tem suas metralhadoras específicas. A minha, por exemplo, é a literatura, disse, referindo-se a sua obra recente, Libro de Manuel (Livro de Manuel), na qual sustenta ter juntado as águas dos problemas latino-americanos.

A obra incorpora elementos de não ficção, ao introduzir no texto depoimentos de torturas e notas da imprensa, as quais denunciavam o atropelo aos movimentos da esquerda no Cone Sul, em meio de um relato sobre um grupo de revolucionários latino-americanos que moravam em Paris.

"Este relato foi escrito quando os grupos guerrilheiros estavam em plena ação. Eu conheci pessoalmente alguns dos protagonistas aqui em Paris; e fiquei aterrorizado por seu sentido dramático, trágico, de sua ação", comenta Cortazar a Prego acerca de seu romance, cujos direitos de autor foram doados na Argentina aos presos políticos.

Em 1975 publicou Fantomas, contra os vampiros multinacionais, uma utopia realizável, romance curto onde incorpora a ficção, a historieta e documentos fac-similares, com o objetivo de criar um relato que divulgasse a sentença do Tribunal Russell II, que em setembro de 1973, em Bruxelas, berço do escritor, denunciou os atropelos aos direitos humanos na América Latina.

O autor lança mão de várias linhas narrativas recriando o formato pulp fiction, em uma história sobre uma queimada mundial de livros, um fato de ficção que aponta o dedo para os vilões reais: as empresas multinacionais e os governos lacaios do Cone Sul, dirigidos na época por ditaduras militares.

Fantomas defronta o mal se aliando a intelectuais latino-americanos, entre eles o narrador Cortazar, o qual desmascara os verdadeiros vilões com um documento verídico: as atas reais do Tribunal Russell II, continuação do primeiro que denunciara os crimes do Vietnã, em 1966.

A sentença condena "os governantes dos Estados Unidos da América e especialmente o senhor Kissinger, cuja responsabilidade no golpe fascista do Chile se torna evidente para o Tribunal".

Já nos fins da década de 1970, Julio Cortazar, acompanhado de sua terceira companheira, Carol Dunlop, é uma voz de peso internacional, e faz oposição à ditadura argentina de José Rafael Videla, critica a Guerra das Malvinas e em 1983, como respaldo à Revolução Sandinista, publica Nicarágua, tan violentamente dulce (Nicarágua, tão violentamente doce).

Em 12 de fevereiro de 1984, em Paris, despediu-se do mundo o ‘cronopio’ maior, escritor que renovou as formas do relato e sobre elas a reflexão de que "o bom das utopias é que são realizáveis". (Reproduzido de Telesur).
 

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