Presos Políticos do Império| MIAMI 5      

     

Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

C U L T U R A

Havana. 28 de Maio, de 2014

Havana também tem seu amor impossível

Mireya Castañeda

O amor sempre tem sido tema recorrente na literatura. A poesia e a narrativa se apoderaram dos impossíveis, dos sentimentos inatingíveis, cercados, proibidos. E o impossível age como uma espécie de ímã nos leitores.

 Os grandes pares da literatura universal têm surgido graças ao que não podia ser: Romeo e Julieta, Tristão e Isolda, Catherine e Heathcliff, Dante e Beatriz, Florentino Ariza e Fermina Daza.

 Esses “impossíveis” também nos permitiram descobrir outras épocas, outras histórias, outras vidas, outros preconceitos. O decurso do tempo, ainda que torne as obras em clássicos, reverte o impossível.

 Para os jovens de hoje resultaria inimaginável separar-se por uma rivalidade familiar, ao estilo dos Montescos e Capuletos, descritos por Shakespeare em Romeo e Julieta; ou talvez Lev Tolstoi não tivesse necessitado que em Anna Karenina, um dos grandes romances do século 19, a sociedade russa se escandalizasse por seu amor a Vronski; nem Gabriel Garcia Márquez desvelasse no seu romance O amor nos tempos da cólera as rígidas normas sociais que por décadas impediram a paixão de Florentino Ariza e Fermina Daza.

 Havana também tem seu amor impossível. Uma história real que agora o reconhecido arquiteto cubano Mario Coyula (Havana, 1935) tem levado à ficção, em seu primeiro livro intitulado Catalina, publicado pela editora Unión, em Cuba, neste ano e em 2011 por Espuela de Plata, Sevilha, Espanha.

 A história real refere um amor escandaloso entre Catalina Lasa e Juan Pedro Baró (em sua época). Os dois pertenciam à alta sociedade havanesa, da primeira década do século 20.

 Entre Catalina, casada com Luis Estévez Abreu, e o rico fazendeiro Juan Pedro desatou-se uma paixão que deu passagem a muitos comentários.

 Ela pediu ao esposo para se separarem, mas este não quis aceitar, pois a lei do divórcio ainda não tinha sido aprovada em Cuba. Contudo, ela partiu e foi viver com seu novo amor.

 Acusada de bigamia, os amantes abandonaram o país em segredo e conseguiram chegar à Itália, onde foram recebidos pelo papa, que felizmente anulou o casamento religioso. Em 1917, foi aprovada na Ilha a Lei do Divórcio. Foi reconhecida a separação de Catalina de seu primeiro esposo e nesse mesmo ano eles retornaram a Havana.

 Em 1926, foi concluído o belo palacete que Baró mandou construir para Catalina, na avenida Paseo e rua 17, no bairro de Vedado, na capital.

 A obra foi realizada pelos destacados arquitetos da época, Evelio Govantes e Félix Cabarrocas, inspirada em suas formas exteriores, ao estilo da Renascença italiana. Na decoração interior, com ênfase no art déco, participou o destacado designer francês René Lalique e seus jardins foram desenhados pelo galo Forrestier.

 Dois anos depois que Catalina se instalasse no palacete ficou doente e Baró a levou para Paris, onde morreu em 3 de novembro de 1930. Tinha 55 anos.

 Depois da morte de Catalina, Baró encarregou a construção de um magnífico mausoléu art déco, na necrópole de Colombo, e quando dez anos depois ele morreu, em Havana, suas sepulturas foram fechadas com louças de betão, fundidas in situ.

 O mausoléu é “uma jóia, uma obra de arte de Lalique, amigo de Catalina e de Baró”, disse Mario Coyula em uma breve entrevista nos jardins da União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac).

 No romance, Coyula convida, como narrador e arquiteto, a visitar “mais que os edifícios isolados, as cidades que eles visitaram, os ambientes urbanos, Havana, Paris, Londres, Veneza, a parte mais sensual”.

 Catalina é uma obra polifônica, onde se superpõem e compaginam três vozes narrativas: o fantasma da bela Catalina, o de seu marido Juan e o arquiteto, personagem que, obsessivo pela recordação da mítica beleza de Catalina, inicia uma tenaz e indiscreta perseguição do seu espectro.

 A partir do magnífico mausoléu, a bela Catalina de Lasa e seu segundo esposo, Juan Pedro recordam suas vidas e viagens, fazendo também referências a situações posteriores a seu tempo, inclusive atuais.

 Coyula soube misturar os tempos e as personagens, por isso é preciso ler com muito cuidado. Um romance sem diálogos, “estão dentro do texto. A única maneira de diferenciar a mudança de diálogo e descrição ou quando intervém mais de uma personagem é quando se começa com maiúscula. Desta forma, as personagens entram e saem, pelos pensamentos”.

 O romance parte de uma história real, a ficção — adverte o escritor — aparece quando os mortos recordam. No início, no capítulo 2, Catalina diz: “morri em Paris em 8 de julho de 1939”.

 Catalina e Juan Pedro têm toda a auréola de um amor impossível. Um par que agora entra na literatura cubana, através do reconhecido arquiteto Mario Coyula, que agora virou romancista. Sem duvida, um ímã para os leitores.

 

IMPRIMIR ESTE MATERIAL


Diretor Geral: Pelayo Terry Cuervo. Diretor Editorial: Gustavo Becerra Estorino
HOSPEDAGEM: Teledatos-Cubaweb. Havana
Granma Internacional Digital: http://www.granma.cu/

  Inglês | Francês | Espanhol | Alemão | Italiano | Só TEXTO
Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

© Copyright. 1996-2013. Todos os direitos reservados. GRANMA INTERNACIONAL/ EDICAO DIGITAL

Subir