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C U L T U R A

Havana. 28 de Maio, de 2014

Luis Carbonell: único e incomparável
• O declamador da poesia antilhana morreu em 24 de maio em Havana, aos 90 anos de idade

Pedro de La Hoz

LUIS Mariano Carbonell sempre tem estado aí. Primeiramente com suas mangas da camisa do tipo guaracha, suas estampas faiscantes de humor e essa alcunha que o representa como o declamador da poesia antilhana.

 Não advertíamos então, quando se anunciava no show televisivo, que ele ocupava um lugar privilegiado, que a etiqueta ficava grande para ele, que Luis era todo menos um tópico do folclore.

 Ele era, é e será, um poeta. Um criador na extensão da palavra. Um trovador iluminado com a graça de saber chegar ao coração e à inteligência com uma inflexão, um acento, um simples gesto das mãos ou com uma leve mutação do rosto.

 Depois soubemos muito mais dele e receberíamos sua obra multiplicada no palco e na tertúlia familiar, ou através de outros aos que aconselhava e definia repertórios e estilos musicais. Porque Luis também tem sido um dos nossos melhores (e ocultos) músicos.

 Em 26 de julho de 2013 completou 90 anos e agora, que se prontificava para comemorar os 91 com novos projetos, o corpo não resistiu mais. Foram várias e complicadas as doenças nos últimos meses, enfrentadas por ele com o mesmo espírito de resistência que lhe permitiu recuperar-se, há uma década, de um acidente cerebrovascular.

 Mas não vou falar de sua morte, na madrugada de 24 de maio, nem da consternação popular por causa disso, nem das honras que recebeu de seus colegas da União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac). (Sexta-feira, 23, conversou com o poeta Miguel Barnet com a dor de quem pressentia próximo o final, e contudo havia otimismo em sua voz).

 Vou contar então de sua origem, dos dias iniciais em Santiago de Cuba, quando no seio de uma família de professores, sonhou em ser pianista, e aprendeu sob a tutela de Josefina Farrés. Foi um sonho do qual Luis não abriu mão quando foi viver para Havana, posposto, contudo, quando sua forma de recitar o levou a consagrar-se e a revolucionar a declamação.

 Fez isto a partir dum rigoroso conhecimento da métrica e do ritmo interior dos versos que aprendia e das estampas que foi incorporando ao seu repertório, ate definir um ar, uma projeção, um estilo.

 Desde Santiago a poesia fazia parte de sua vida. Uma de suas irmãs recitava versos e Luis afirmou que se ela se tivesse dedicado a isso profissionalmente, hoje seria reconhecida.

 O grande pulo de Luis teve lugar em 1947 quando se apresentou nos Estados Unidos e juntou sua carreira às de Ernesto Lecuona, Gilberto Valdés, Ester Borja e as estrelas que faziam parte da empresa artística do autor de María la O.

 A lírica que reivindicou as contribuições do negro à cubanidade começou a fazer parte de sua memória íntima: Nicolás Guillén, Emilio Ballagas, José Zacarias Tallet, Eugenio Florit, Marcelino Arozarena, e daí começou a viagem rumo a outras zonas da poesia caribenha, com admiração particular para o porto-riquenho Luis Palés Matos.

 No início dos anos 60, seu nome era imprescindível não só em Cuba mas em outros países da região e nos Estados Unidos. Recebeu propostas para emigrar, por parte de pessoas que não sabiam que Luis Mariano tinha assinado um pacto irrenunciável com sua terra, sua identidade e vocação de justiça social que começava a ser realidade entre os seus.

 Vou contar então deste segundo ar de Luis Mariano, que o levou a estudar a fundo a montagem de Elegia a Jesús Menéndez, Nicolás Guillén, e os oriki de Miguel Barnet, e os contos do mexicano Aquiles Nazoa, ou há pouco El baile, de Virgilio Piñera.

E de um terceiro ar, seu sentido da ubiquidade em espetáculos, teatros, televisão, do palco à escola e da escola ao palco, colóquios e oficinas, com um sentido de participação social que fala de sua verticalidade cívica.

 E também de um quarto ar que jamais abandonou, a música, a orientação de repertórios, o estilo nos cantores líricos e populares ou em grupos como Los Cañas e Los Papines.

 Único e incomparável. Como Bola de Nieve e Rita Montaner. Sempre estará aqui, Luis Mariano. Como palmeira real. 

 

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