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Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

C U L T U R A

Havana. 27 de Agosto, de 2014

FLORA FONG
Gestos de sensações líricas...

TONI PIÑERA

NO seu exercício pictórico, a pintora Flora Fong tenta descobrir o segredo de sua natureza. Flora — tentando honrar seu nome — cresce, multiplica-se em flores, árvores ou florestas, e se mexe ao compasso do vento... porque o ar tornado furacão, ciclone, tufão ou simplesmente brisa pode ser visto ao caminhar por entre as linhas, manchas e cores gestuais. Ou mexe, com extraordinária maestria, a água do mar, dos rios ou lagos que irrigam suas férteis superfícies. Essas paisagens onde se reúne a essência com caligrafia oriental (aí se incorpora Fong), mas roçadas por sentimentos caribenhos que chegam em tons brilhantes, onde a luz focaliza a criatividade de seus sonhos quase reais.

Para Flora Fong, copiar a natureza resulta algo sem sentido. Daí que procura a expressão imaterial por meios simples, lançando mão só do indispensável, o que, às vezes, poderia dar a aparência de um esboço. Algo muito semelhante ao realizado pelos pintores do Oriente, que está dentro dela, talvez por seus ancestrais. Porém, ela é caribenha, mora, cria e se inspira cá. Os tons tropicais, esse jeito de sentir as imagens e manipular a linguagem das matérias, adquirem conotação especial em suas obras.

Em fevereiro deste ano, Flora esteve presente em uma exposição inaugurada na cidade de Camaguey, lugar onde ela nasceu, pelo ensejo dos 500 anos de fundada essa cidade, onde expôs um conjunto de pinturas e bronzes especialmente concebidos para a ocasião. Depois, viajou a Xangai (China), fazendo parte de uma exposição coletiva do Conselho Nacional das Artes Plásticas de Cuba, intitulada Rodando se encuentran. Sua exposição mais recente: Grabados en el tiempo, aberta no Centro Provincial das Artes Visuais Eduardo Abela (em San Antonio de los Baños) torna-se um instante singular para olhar em retrospectiva sua vida na arte e retornar aos seus começos.

CRIADORA INCANSÁVEL

Dentro da pintura cubana, as criações desta artista ocupam um espaço simbólico. Nelas aparecem de maneira harmônica, como uma festa de cores e traços ágeis, três elementos da vida, da natureza e da cultura do país: a paisagem com suas violências atmosféricas; a vida doméstica das pessoas com sua poesia aprazível e não transcendente, e o componente étnico chinês, integrado indubitavelmente ao tecido da nação.

Essas dimensões todas conformam uma linguagem que começou com tons escuros e foi abrindo passagem, cada vez mais, rumo a claridades surpreendentes e uma força solar, na qual as cores explodem na morfologia do céu em meio de um furacão, do fruto e a flor. Vista a partir de uma perspectiva metafórica, Flora se converte em sua própria modalidade criativa; o traço caligráfico asiático que revela o peso de seus ancestrais, a tessitura de cada linha, onde vem à tona essa mistura de personalidade entre frágil e dominante que a caracteriza e sua evidente escolha dos valores sensoriais e habituais do cenário circundante de nossa existência, os que lhe permitem mostrar-nos uma visão diferente dos motivos que têm sido assumidos por muitas das figuras das artes plásticas nacionais do século 20.

Nos começos dos anos 80, Flora Fong se questiona do ponto de vista estético, começa a voltar os olhos para a pintura chinesa da paisagem e a entendê-la, a partir da filosofia oriental; aquelas técnicas empregadas por chineses e japoneses que tanto a empolgavam. Nessa época se aproxima da língua chinesa, porque queria conhecer a história da caligrafia, os pictogramas e a maneira de trabalharem os conceitos, tão diferentes da do Ocidente.

Por causa do seu temperamento, tinha necessidade de que se fizesse sentir, tanto a ar quanto a chuva (a água) em sua obra. E é mesmo assim, quem se aproximar de seus trabalhos sente a atmosfera, a umidade, o calor.

O APARTADO CROMÁTICO

Poderia dizer-se que na sua pintura subsistem dois grandes núcleos que se diferenciam pela evidência estrutural, de um lado, e o desaparecimento da estrutura, ou sua evidência, pelo outro lado.

No primeiro, o jogo dos planos, suas penetrações e superposições, suas transparências, facilitam a leitura e o estabelecimento, por parte do espectador, das certeiras relações internas que conformam cada obra. Entretanto, no outro núcleo, estão aquelas que poderiam ser denominadas de composições invertebradas. Nelas, a artista parece se entregar a esse habitual exercício caligráfico, a uma procura de texturas e estudo de espaços entre pinceladas.

O mar, batendo suavemente nas costas e praias, emerge nas obras da série chamada Bahías, onde a cor azul enche intensamente sua paleta. Em sua pintura mais recente, permeada de altos contrastes e massas bem definidas, de sólida estrutura formada por amplas zonas curvas ou triangulares, sobressaem as ilhas e ilhotas.

Essas paisagens marinhas, onde a luz e a cor se tornam mais brilhantes. Elas são, também, uma continuação, para outro patamar, e com novas intenções plásticas, daquilo que antes ela fazia. Porque de maneira orgânica, Flora Fong estuda, analisa e incorpora aquilo que lhe pode servir para transmitir as mensagens de suas vivências.

Os Girasoles (girassóis)? A pergunta abre espaços, toca pontos sensíveis da interlocutora... "Não me interessa pintar uma flor simplesmente porque é uma flor" (deixa bem claro na entoação, determinada e forte, reafirmando que é Escorpião). "Estudando um pouco a espiritualidade da pintura chinesa, e esses artistas tão laboriosos vi nessa flor (tão forte e que se mexe com o sol), que eu podia representar o que queria representar, do ponto de vista ocidental e oriental".

"Neste resumo de diferentes etapas, incorporei — disse — as esculturas de bronze, elas continuam-me dando um pensamento de renovação conceitual, do ponto de olhar para novas propostas futuras. É que nem a saída para um novo tema".

Deste trabalho comenta que é muito forte: "quando o estava fazendo me saíram duas hérnias", sorri. De todas as formas, ela continua com novas forças por estes caminhos.

Eis sua bela coleção de bronzes onde perpetua formas que a acompanharam neste tempo todo, imagens extraídas de suas pinturas bidimensionais, que agora ganham volume e respiram em outra dimensão.

Flora sorri, é feliz ao olhar sua vida, seu trabalho, sua obra. Essa que se transforma a partir das paredes, em sonhos multiplicados sobre variadas superfícies.
 

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