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C U L T U R A

Havana. 14 de Maio, de 2014

Frank Fernández:
entrega total à música

Mireya Castañeda

O maestro Frank Fernández está de celebrações, seu 70º aniversário natalício e o 55 de vida artística. E o faz como se espera de um profissional ao qual a crítica reconhece dentre os melhores pianistas da contemporaneidade, por seu virtuosismo e versatilidade: a partir da música.

Eis somente três dessas críticas: "Frank Fernández é um intérprete empolgante, sensível e profundo, com uma técnica realmente brilhante, Sua interpretação da Sonata Aurora, de Beethoven está à altura dos grandes maestros do teclado". Eliane Rochepin. França.

"Um verdadeiro monstro na interpretação do piano. Frank Fernández, um ser tocado pela divindade". Alfredo Fermín. Valencia.

"Frank Fernández tem sido aplaudido em muitos países de ambos os hemisférios. Na Polônia cativa o auditório com Chopin; em Moscou com Rachmaninov e Tchaikovski; em Cuba com Cervantes e Lecuona; na Alemanha com Schumann e Beethoven (...)". Guenadi Dmitriak. Novedades de Moscou.

Em muitas páginas que lhe dedicam na Internet destacam momentos muito importantes como intérprete, entre eles: Praga 1988, escolhido para interpretar o Concerto No 1 de Tchaikovski, na sala Smetana, onde o próprio compositor o regeu, pela primeira vez um século antes; convidado em seis ocasiões para tocar na Grande Sala do Conservatório Tchaikovski, de Moscou, e Cuba, 1988, estreia do ciclo dos cinco concertos de Beethoven, juntamente com a Orquestra Sinfônica Nacional, em duas noites consecutivas.

Suas interpretações estão registradas em discos de alta significação, discos de grandes maestros do piano, por exemplo, Sonatas de Beethoven; Lecuona-Gershwin; Todo Mozart e Nocturnos de Chopin.

Frank Fernández também tem um fecundo trabalho como compositor, que abrange mais de 650 obras para diferentes formatos, desde balés, coros e sinfonias incluindo obras para agrupações de música popular, trilhas sonoras para cinema e televisão e rádio.

A sonoridade dos aniversários, 70º, 55º e as justas homenagens propiciaram um novo encontro, depois de três décadas de diálogos e entrevistas com o maestro.

Ainda, devemos lembrar seus festejos neste primeiro semestre do ano. Inaugurou o Festival de Música de Câmara, que ele preside, na sala de concertos da Basílica Menor do Convento São Francisco de Assis, que Fernández inaugurou em 1994, depois e uma reconstrução capital.

Outro momento transcendental foi o lançamento, em Cuba, do CD Todo Cervantes. Todo Saumell, da editora Autor, da Sociedade Geral de Autores da Espanha (SGAE) em 2001, e reeditado agora pela Empresa de Gravações e Edições Musicais (Egrem) e que reúne as 45 danças de Cervantes e as 52 contradanças de Saumell.

Esta apresentação pelo musicólogo Jesús Gómez Cairo, diretor do Museu Nacional da Música, foi realizada durante a homenagem que a editora cubana e a rede turística Sol Meliá ofereceram ao pianista, no salão Sierra Maestra, do hotel Habana Libre.

Gomez Cairo salientou, entre os valores da gravação, a intensa e profunda investigação, a partir das partituras originais, realizada pelo maestro e pelo Museu da Música.

O brilhante pianista compartilhou com os convidados o lançamento deste disco duplo.

"O disco contém uma grande história para mim. Eu o tinha proposto há muitos anos. Essa pesquisa que Jesús Gómez Cairo expõe, a fez o Museu da Música e me ajudaram minha esposa, meus filhos, Teresita Junco, Ivette Frontela e outros. Isto não é só um disco do maestro Frank Fernandez, cá está o melhor que eu seja capaz de fazer, mas também há muita ajuda, porque se tratava dos dois pais da música cubana. Não são as primeiras expressões da música culta em Cuba, são as primeiras expressões da música culta cubana.

Até esse momento, em que Cervantes e Saumell fazem estas obras, todo mundo, inclusive eles, fundamentalmente Cervantes que já era primeiro prêmio do Conservatório de Paris, tinham na mente o eterno mal da coloniagem cultural e faziam maravilhosas obras ao estilo europeu. Isto é um fato histórico, eis o axioma que se deu por muitos séculos, de que para ser um bom artista havia que se parecer com os europeus, para ser um bom compositor havia que soar tal como os europeus".

"Quando Saumell e Cervantes fizeram estas obras era quase sacrilégio soar desta maneira. Eles assumem o mundo nacional, são os fundadores da música cubana e eis essas danças e contradanças espetaculares".

Lembrou que primeiro gravou um disco com a Egrem "onde faço 27 das danças de Cervantes e as notas as faz Mirtha Aguirre, a grande poetisa, música e crítica. Contudo, tive que ir à Espanha porque em Cuba não havia os recursos para fazê-lo nesse momento. Há 15 anos. Cuidei certas coisas e estou orgulhoso. Falei com os espanhóis e houve muita solidariedade de parte deles, lhes disse, lhes cedo o mundo inteiro mas Cuba continua me pertencendo e em dez anos a matriz será minha. Perdi dinheiro porem ganhei Pátria. Facilitei à Egrem esta matriz e agora a Egrem faz este esforço. Estou muito feliz. Saumell e Cervantes voltaram a sua Pátria. As escolas de arte terão exemplos dos dois pais da música culta e popular deste país".

Nas notas que acompanham este CD duplo, a musicóloga Iliana García escreveu acerca das danças de Ignacio Cervantes (1847-1905): "Representam um importante legado para a criação pianística de seu tempo; graças a elas é que Cervantes é reconhecido como o mais importante músico cubano do século 19. As danças de Cervantes são espécies de miniaturas românticas, nas quais se reflete o sentido costumbrista, lírico, sensual, jubiloso, humorístico e até picaresco da época. Este se expressa tanto pelos títulos das composições como pela melodia que têm, onde se aprecia um acento, uma magia, uma espontaneidade que as diferencia. Entre os títulos mais sugestivos... estão Los tres golpes, Almendares, La carcajada, La camagueyana, Pst e Los muñecos.

E acerca do compositor e pianista havanês Manuel Saumell (1817-1870) escreveu: "criou muitas contradanças impregnadas do rico sabor crioulo dos ambientes populares de sua época. Foi um músico integral e teve a virtude de executar tanto a música de concerto como a destinada a ser dançada ou escutada nos salões mais frequentados pelo público dessa época".

"Estas composições o tornam no iniciador de certos estilos rítmicos e melódicos, que depois evoluíram e nutriram gêneros tais como o danzón, a habanera, a guajira, etc. Peças como Las quejas, La Tedezco, Los ojos de Pepa, El somatén, La nené, La paila e La guayaba, e outros, expressam motivos capazes de transmitir a graça e a picardia cubanas..."

Frank Fernandez citou Mirtha Aguirre e da poetisa e crítica extraímos suas palavras sobre a interpretação do insigne pianista das danças de Cervantes, que pode cabalmente estender-se à das contradanças de Saumell: "Seu rigor acadêmico, seu virtuosismo e temperamento, seu mágico poder de comunicação, sua facilidade de transmutar-se no compositor ou estilo que interpreta, e sua entrega total, quase mística, são qualidades que expressas através de sua poética e poderosa personalidade fazem do maestro Frank Fernández o interprete ideal".

Numa dessas múltiplas entrevistas que realizei ao maestro lhe perguntei: O senhor pode explicar como consegue o equilíbrio entre o respeito pelo autor e as contribuições de sua interpretação?

"No meu caso, que não é único, eu pertenço a um tipo de intérprete que não lhe basta com aprender-se a grafia, que é ponto de contacto entre a emoção do compositor, a necessidade de escrever, e deixar os símbolos. Para mim isso é o ultimo momento do compositor. O intérprete caminha no sentido inverso. O compositor se empolga, determina se a obra vai ser para orquestra sinfônica, ou para piano, escolhe a sonoridade que mais se adequa a sua emoção, e o último passo é a anotação musical. A maioria dos intérpretes fica no último passo do compositor, e reproduzem essa grafia, dizem eles que perfeitamente, eu creio que é uma das maneiras mais erradas de fazer música. Eu tomo essa grafia como um ponto longínquo da essência, a aprendo perfeitamente, repito muito, estudo muito, me deixo guiar pela intuição. Depois vou ao ultimo passo do intérprete, que é o primeiro do compositor".

"Por que escreveu isto? Que quer dizer com essas anotações de mais expressivo, mais devagar, com muita força? A musica é muito dialética , subtil, leve, e cada vez que soa é diferente. Vejo a grafia como ponto de partida. Somente quando creio compreender a emoção do compositor, é quando interpreto a obra".

O senhor é um pianista famoso, sonhos por realizar?

"A fama é uma mulher muito bonita mas um pouco veleidosa, e a fama é uma das coisas mais perigosas que possam existir para qualquer artista porque lhe faz pensar que é maior do que é realmente. O ideal é sentir-se aluno. Eu sei que sou mais famoso que há 50 anos, mas prefiro falar de prestígio. Gosto muito quando me elogiam, agradeço muito. Eu continuo estudando, vou continuar sendo um bom aluno porque todos os dias se pode aprender alguma coisa".

Celebremos então com o maestro Frank Fernández seu 70º aniversário natalício e vamos agradecer-lhe a magia de seu piano.
 

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